2. Zeca Pagodinho: “Ogum”

Eu sou descendente Zulú
Sou um soldado de Ogum
Devoto dessa imensa legião de Jorge
Eu sincretizado na fé
Sou carregado de axé
E protegido por um cavaleiro nobre


Quem me lembrou que 2019 será um ano regido por Ogum foi Cristiane, sugerindo, por isso, comentários sobre alguma canção que fizesse referência a esse importante orixá do panteão afrobrasileiro.

A escolha mais óbvia seria “Ogum”, de Claudemir da Silva e Marquinho Pqd, famosa na gravação de Zeca Pagodinho. Presente no disco Uma prova de amor, de 2008, a canção tem lugar cativo nos shows de Zeca e nas rodas de samba por aí.

Zeca Pagodinho gravou diversas canções que exploram aspectos da religiosidade afrobrasileira. Da antiga “Patota De Cosme” às mais recentes “Minha Fé” e “Vou Botar Teu Nome Na Macumba”, o sambista fluminense sempre prestou tributo não apenas aos santos do candomblé/umbanda, mas também colaborou pra divulgar práticas e rituais do povo da pemba. (Outra favorita minha de Zeca é sobre o mesmo santo/orixá, “Lua De Ogum”).

Para mim, essa é uma das grandes contribuições da produção cancional associada ao Zeca. Penso que essas canções não apenas desmitificam as incompreensões do público sobre essas formas de espiritualidade, mas nos mostram como estão presentes no cotidiano de um país étnico-racialmente tão variegado como é o Brasil, colaborando para desfazer toda sorte de preconceitos e discriminações que candomblecistas, umbandistas e adeptos de outras religiões da mesma matriz sofrem diariamente.

zeca.jpg
Um devoto de Jorge dedicado a mostrar que o culto aos orixás não é coisa de outro mundo.

“Ogum” é uma canção simples, com refrão marcante. Nas duas primeiras estrofes, o eu-lírico descreve suas formas de devoção ao orixá, fazendo questão de marcar seu sincretismo com outra figura bastante conhecida dos brasileiros, São Jorge. Do Rio de Janeiro “pra baixo”, é comum a associação entre os dois santos (já na Bahia, São Jorge é associado a outro orixá, Oxóssi, que mitológica e arquetipicamente mantém relações próximas com Ogum, seu irmão). São Jorge, Ogum e outras divindades (podemos mencionar como exemplo, do panteão greco-romano, Ares/Marte) têm como característica o espírito beligerante, a ação transformadora, o movimento e a determinação por vencer os inimigos. Essas características são lembradas no refrão da canção: “Ogum / Um guerreiro valente que cuida da gente que sofre demais / Ogum / Ele vem de Aruanda, ele vence demanda de gente que faz / Ogum / Cavaleiro do céu, escudeiro fiel, mensageiro da paz / Ogum / Ele nunca balança, ele pega na lança, ele mata o dragão / Ogum / É quem dá confiança pra uma criança virar um leão / Ogum / É um mar de esperança que traz a bonança pro meu coração”.

Musicalmente, a canção possui uma harmonia relativamente simples, considerando que é um samba. Isso quer dizer que, em comparação com qualquer rock que se ouve por aí, aparecem acordes complexos e inusitados – como a presença, na mesma peça, de versões maiores e menores de acordes com a mesma tônica, como E7/9 e Em6. O início da canção, com a letra que alterna as modalizações pelo /ser/ e pelo /fazer/, possui harmonia em tom maior (Lá). Porém, no refrão, que apresenta um caráter mais devocional, como se estivesse rogando ao santo/orixá, a voz da canção se enreda em uma harmonia em tom menor, com dissonâncias mais marcadas principalmente na segunda estrofe. Curiosamente, assim como a devoção a Ogum/São Jorge é fruto do sincretismo entre as tradições católica e afrobrasileira, a canção também harmoniza a batida sincopada do samba carioca com uma orquestração quase barroca. Não costumo apreciar a presença de cordas em sambas/pagodes, mas aqui, funciona.

Finalizando a canção, ninguém menos que Jorge Ben Jor (outro filho/devoto de Ogum/São Jorge, como fica claro em diversos momentos de sua discografia, especialmente no disco em conjunto que gravou com Gilberto Gil, Ogum, Xangô) comparece para recitar, de forma emocionante, a poderosa Oração de São Jorge. Quem aprecia a boa música popular brasileira já está devidamente familiarizado com ela (“Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal”), que aparece em discos de muita gente – Caetano Veloso, Fernanda Abreu, Racionais MCs e do próprio Jorge Ben Jor.


Retornando ao que escrevi no início do post, se 2019 será regido por Ogum, é sinal que virá muita luta pela frente! Que as canções de Zeca Pagodinho nos ajudem a enfrentá-las com serenidade e disposição – a mesma disposição que marca o espírito guerreiro de Ogum e seus filhos.

SaoJorge-ogum
Patacori Ogum… Ogum ye!

(Para saber mais sobre esse que é um dos mais importantes e cultuados orixás no Brasil, sugiro a leitura de O que é candomblé, livro da Coleção Primeiros Passos, de autoria de João Clodomiro do Carmo. Essencial para compreendermos parte da matriz de pensamento que constitui o povo brasileiro).

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