6. Os Paralamas do Sucesso: “Tendo A Lua”

Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim


A discoteca do meu pai sempre foi, para mim, um baú com sons incríveis a descobrir. Foi na virada dos 13 para os 14 anos que comecei a explorar aquela coleção com maior determinação. Nisso, descobri um obscuro disco dos Paralamas do Sucesso, Os grãos (1991). Quando o escutei pela primeira vez, a faixa de abertura, “Tribunal De Bar”, já me conquistara de cara. Seguiam-se àquele reggae-ska experimental outras duas faixas com sonoridade próxima: o ska lento “Sábado” e um reggae tocado com piano rhodes (nunca mais ouvi nada parecido) e com refrão marcante, “Tendo A Lua”, nossa estrela de hoje.

A letra é bastante simples e, reza a lenda, foi escrita a partir de um bolinho de bilhetes da amiga Tetê Tillet, que Herbert Vianna encontrou em meio a suas coisas (segundo entrevista concedida a outro amigo, Leoni, para o livro Letra, música e outras conversas). Num desses bilhetes estava escrito o que se tornaria a estrofe do refrão.

Essa despretensiosa faixa dos Paralamas realmente não tem segredos, então não há muito o que interpretar. A voz da canção apenas narra o sentimento de leveza trazido pelo ato de deixar o passado para trás – o alívio que é jogar “tanta coisa fora”, “cartas e fotografias” e tudo o mais que nos remete a “gente que foi embora”. Ufa! Quem nunca passou por isso? Assim, o refrão associa, metaforicamente, essa sensação de airosidade ao que imagina ser uma caminhada na Lua, sob “aquela gravidade onde o homem flutua”.

os-paralamas-do-sucesso
Os Paralamas do Sucesso fizeram de “Tendo A Lua” um sucesso quase astronômico.

É justamente o refrão que quero comentar hoje. E aqui, novamente recorro ao meu pai – afinal, sem ele não haveria este post. Certa feita, estávamos assistindo juntos ao filme Contato (1997), adaptado do romance homônimo de Carl Sagan pelo diretor Robert Zemeckis. (Vou tentar não dar spoilers, mas talvez seja melhor ler o post após assistir ao filme). Em uma das passagens mais impressionantes do ato final, a personagem principal Ellie Arroway está viajando pelo espaço e se depara com uma cena de imensa beleza: uma nebulosa reluz a poucos quilômetros da cápsula que é seu meio de transporte. Flutuando em gravidade zero, seus olhos lacrimejam de emoção diante de tão insuperável paisagem sideral e, ao não encontrar palavras para descrevê-la ao rádio para seus interlocutores da Nasa, Ellie dispara: “They should have sent a poet!”. Meu pai, de forma sagaz, fez a associação: “Pô, parece a música dos Paralamas!”, certamente lembrando do refrão “Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua / Merecia a visita não de militares, / Mas de bailarinos / E de você e eu”.

Uma pessoa generosíssima fez uma separata dessa cena incrível:

Depois fui pesquisar para saber se Herbert Vianna havia lido Contato (não poderia ter assistido ao filme, posterior a Os grãos), mas não cheguei a nenhuma conclusão. Anos depois desse episódio, tive a oportunidade de ler o romance e, de qualquer forma, nele não consta o comentário que Ellie faz no filme. Feliz coincidência ou será que Robert Zemeckis (e os roteiristas da adaptação) piraram no som dos Paralamas?

Nada é impossível, afinal, de todas as bandas do alto escalão do BRock, foram os Paralamas que mais perto chegaram de elaborar algo que pudesse ser chamado de world music.


Além de “Tendo A Lua”, Herbert Vianna teve outros momentos em que tomou como tema os assuntos astronômicos. O álbum anterior dos Paralamas era intitulado Big bang e trazia “Pólvora” (“As teorias que explicam o universo / Os versos que vasculham o coração / Os garis, estivadores e arquitetos / A fé manipulada dos cristãos […] O que é tudo isso diante da Pólvora?”) e “Nebulosa Do Amor”.

O tema permaneceria recorrente na obra de Herbert mesmo depois de Os grãos. Dois exemplos são “Lição De Astronomia”, lançada em seu primeiro álbum solo, Ê batumaré (1992); e “Derretendo Satélites”, em parceria com Paula Toller, para o primeiro (e homônimo) álbum solo da cantora do Kid Abelha, lançado em 1994.

Os Paralamas lançariam ainda Nove luas (1996), que foi um estrondoso sucesso. No entanto, a canção que nomearia o álbum (“Um Pequeno Imprevisto”, com os versos “No céu havia nove luas / E nunca mais eu encontrei minha casa”) não frequentou as paradas de sucesso. Composta em parceria com o vocalista do Nenhum de Nós, Thedy Correa, chegou a ser incluída no repertório da banda gaúcha. Além dessa, tem a óbvia “La Bella Luna”: “Ó lua de cosmo / No céu estampada / Permita que eu possa adormecer / Quem sabe, de novo nessa madrugada / Ela resolva aparecer”.

Se você lembrar de mais algum som “astronômico” dos Paralamas, comente o post!


“Tendo A Lua” foi um dos dois hits de Os grãos (o outro foi a alucinante “Trac Trac”, versão para uma – até então, introspectiva – canção de Fito Páez). No entanto, está longe de ser o maior sucesso paralâmico, o que torna bastante curiosa a reação do público ao reconhecer a versão rearranjada do Acústico MTV (1999):

Nenhum outro número dessa apresentação mereceu reação tão eufórica da plateia, nem mesmo sucessos mais estourados como “Meu Erro” e “Lourinha Bombril”. Impecavelmente executada (destaque para o naipe de metais e para o belíssimo solo de sax de Monteiro Jr.), essa versão acústica é marcada por um suingado ausente no arranjo original.

Anos mais tarde, em registro presente no disco Multishow ao vivo (2011), “Tendo A Lua” seria relida de forma fiel à versão de Os grãos, mas dessa vez com a participação de Pitty, que faz interessantes alterações melódicas nos versos “O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu” e “Querendo ver o mais distante e sem saber voar”:

6 comentários

  1. Herbert é filho de militar e tinha como hobby a aviação, até o fatídico acidente que ceifou a vida de sua esposa, Lucy, em 2001. Acho ser essa paixão, junto com a vivencia militar familiar, a inspiração “astronáutica” das Letras.

    No documentário “Hebert de Perto (2009)”, na parte que mostra o relacionamento dele com a finada esposa e filhos, “Tendo a Lua” faz o fundo musical. Eu Vejo o link da musica com o acidente, na parte que cita a mitologia grega: “O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu”. Tal qual Ícaro, eles perderam as asas no céu e caíram no mar.

    Sobre outras musicas astronáuticas, no “9 Luas” , temos “Busca Vida”:
    “Vou sair pra ver o céu / Vou me perder entre as estrelas/Ver d’aonde nasce o sol//Como se guiam os cometas pelo espaço/E os meus passos/Nunca mais serão iguais”.

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    1. Bem lembrado, Décio! Tanto pelo documentário quanto por “Busca Vida”. Inclusive, quando li seu comentário, pensei que tinha mencionado a canção neste post. Na verdade, falei dela no post sobre “Capitão De Indústria”.
      Grato pela contribuição.

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  2. Eu também vejo um link entre “capitães” e ” busca vida”. Duas obras que fazem até sentido pelo meu estilo de vida hj. Pelo jeito, vou me emocionar com o post. Qnd chegar nele, comento. Valeu!!!

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