7. O Rappa: “Brixton, Bronx Ou Baixada”

O que as paredes pichadas têm prá me dizer?
O que os muros sociais têm prá me contar?
Porque aprendemos tão cedo a rezar?
Porque tantas seitas têm, aqui seu lugar?
É só regar os lírios do gueto
Que o Beethoven negro vêm prá se mostrar
Mas o leite suado é tão ingrato
Que as gangues vão ganhando cada dia mais espaço


Em meados dos anos 1990, as rádios transmitiam muitas canções das novas bandas que surgiam – e que pareciam, de fato, muito mais interessantes, complexas e surpreendentes que as bandas de rock da década anterior.

Assim, ao lado de hits dos Raimundos, do Charlie Brown Jr., do Skank, do Pato Fu e, mais tarde, dos Los Hermanos, sempre constavam uma ou duas canções de uma banda que nem era tão rock assim, nem me despertava tanto o interesse. Na verdade, eu odiava o Rappa!

A bem da verdade, eu não gostava mesmo era do hit do momento em fins de 1999, “A Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”. Achava o som arrastado, a melodia não me cativava e o pior de tudo, considerava a letra fraca. Por conta dessa canção, peguei uma permanente implicância pela banda.

Com o tempo, observei algo curioso. Todos os meus colegas e amigos que gostavam de boa música eram unânimes em apontar o Rappa como um conjunto interessante, criativo, competente, capaz de oxigenar o pop-rock nacional, etc. Por conta dessa observação, comecei a achar que o errado era eu, afinal, não podia questionar o bom gosto dos parças. Era, então, uma questão pessoal, meio que sem razão, e caso encerrado. O Rappa: banda que respeito, mas não gosto. Simples assim.

Nos anos 2000, em São Carlos, começou a acontecer um evento anual muito bacana, a Feira da Sucata e da Barganha. Ele era organizado pela Secretaria do Meio Ambiente do município, em parceria com coletivos e organizações que pautavam o tema da sustentabilidade. Eu gostava da Feira porque nela era possível adquirir bons livros usados e, sobretudo, ótimos discos, que os expositores vendiam a preços praticamente simbólicos, afinal, a filosofia do evento era baseada no desapegar-se das tranqueiras que nos incomodam, fazendo-as chegar às mãos de quem faria bom uso delas. Era possível adquirir livros por dez mangos, e os CDs custavam por volta de três a cinco reais.

Na Feira de 2010, um dos expositores estava vendendo os quatro primeiros álbuns do Rappa, um realzinho cada um. Estavam todos em ótimo estado e pensei que seria uma oportunidade excelente para testar os motivos que justificassem minha ojeriza ao som dos caras. (Aliás, o preço estava tão bom que paguei os discos com uma nota de cinco e não quis ficar com o troco – que, aliás, o expositor não tinha).

Bom, esses discos ficaram na fila de sons a serem ouvidos e apenas em 2012 tive tempo (e coragem) de colocar um deles no aparelho. Era justamente o homônimo disco de estreia da banda, de 1994, pouco conhecido de quem não é fanático pelo conjunto carioca. Naquele momento, estava engajado num processo de arrumação e reestruturação do meu quarto, que durou vários dias. O que posso dizer é que, desde que apertei o “play”, esse álbum foi a trilha sonora de toda a arrumação, e foi ouvido repetidas vezes.

Fiquei espantado com a qualidade daqueles reggaes pesados, com letras repletas de críticas sociais, harmonias simples (mas inesperadas) e melodias envolventes. Esse O Rappa acabou se tornando minha porta de entrada para o universo da banda, e não demoraria que escutasse, com a mesma atenção, os demais álbuns que comprara. Inclusive, passei a gostar de “A Minha Alma” (embora minhas canções preferidas estivessem concentradas no ótimo segundo álbum do conjunto, Rappa mundi) e, no mesmo ano, acabei comprando mais um disco – desta vez, novo, da loja –, o subestimado 7 vezes. Só não investi mais esforços para ouvir a discografia do grupo porque percebera, com o tempo, a falta que Marcelo Yuka, ejetado da banda em 2001, fazia como compositor do conjunto.

Felizmente, seus versos estão imortalizados naquele disco de estreia.

rappa
O Rappa, ainda com Marcelo Yuka – um artesão de versos belos e revoltados.

Talvez minha canção preferida de O Rappa seja “Brixton, Bronx Ou Baixada”. Como o post anterior revelou, estou meio que na vibe dos reggaes das bandas nacionais e, assim como a última canção analisada, essa composição de Marcelo Yuka e Nelson Meirelles não tem muitos segredos. Mesmo assim, não é um reggae comum, e vamos tentar enumerar algumas de suas características mais interessantes.

Em primeiro lugar, temos um sujeito enunciador periférico, que descreve sua realidade como um cenário de carências socioeconômicas e de vulnerabilidade a discursos que buscam a hegemonia. De um lado, a influência do crime organizado, visto como caminho para uma vida com menos privações. Visão justificada pelas lutas diárias de quem (sobre)vive nas comunidades: “Mas o leite suado é tão ingrato / Que as gangues vão ganhando cada dia mais espaço”. De outro lado, mais um setor, talvez até mais organizado: a retórica salvacionista das seitas cristãs, cada vez mais onipresentes nas comunidades. Assim, a voz da canção, nesse fogo cruzado, encontra refúgio em sua única posse que não pode ser alienada nem por um, nem por outro caminho: suas raízes (negras).

Nem a bala, nem a Bíblia, mas o batuque. Eis a saída criativa que a canção propõe, com o resgate das tradições ancestrais que, por terem sido erigidas como forma de resistência à escravidão, permanecem atuais numa realidade que, cinicamente, nega o racismo e prega a meritocracia. Assim, “A poesia não se perde, ela apenas se converte pelas mãos do tambor / Que desabafam histórias ritmadas como único / Socorro promissor”. Afinal, “É só regar os lírios do gueto / Que o Beethoven negro vêm prá se mostrar”.

Essa (re)afirmação da negritude é apresentada como um caminho natural para quem nasce num país como Brasil, que não apenas possui uma dívida histórica para com os povos da África, mas também é voraz consumidor da indústria cultural estrangeira – e inclusive de seus produtos que também mantém elos com as tradições africanas. Assim, a voz da canção enumera artistas e gêneros musicais que, por compartilharem das mesmas origens afro, estão legitimados a participarem desse caminho de resolução da poesia pelas mãos do tambor. Destaco que, ao contrário das opções pelo crime organizado ou pela conversão religiosa, não há, aqui, nenhuma pretensão hegemonizante; afinal, “Cada qual com seu James Brown / Salve o samba, hip-hop, reggae ou carnaval / Cada qual com seu Jorge Ben / Salve o jazz, baião e os toques da macumba também / Da macumba também”. Aliás, é bem sugestivo que o “baião” apareça próximo aos “toques da macumba” – afinal, o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, nascera no município pernambucano de Exu!

Além da letra, há destaques quanto à harmonia. Os acordes que sustentam a canção estão baseados no campo harmônico de Dó Sustenido Maior: trata-se da sequência que abre a faixa, A#m7, E♭m7 e G#. No entanto, o refrão, que se inicia com o próprio acorde de Dó Sustenido Maior, é complementado por acordes de Lá Maior e Si Maior, do campo harmônico de Mi Maior. Essas modalizações estão presentes em várias canções de O Rappa, e acho que foi isso o que me encantou à primeira audição do álbum: essa habilidade de Falcão e companhia para mudar tonalidades realçando, sobretudo, a potência dos refrães. Exatamente o que ocorre em “Brixton, Bronx ou Baixada”, cujo refrão, inesperadamente, desloca a canção da realidade provinciana dos morros para outros cenários, mostrando que o resgate da negritude é uma via alternativa não apenas nas comunidades da Baixada Fluminense, mas no distrito londrino de Brixton e no condado novaiorquino de Bronx – enfim, nas periferias de Norte a Sul.

Por fim, chamo a atenção para a instrumentação. À luz de tudo o que foi dito acima – sobre a suposta “democracia racial”, sobre o respeito às tradições ancestrais dos povos negros (e pelos negros!) e sobre os paralelismos geográficos e musicais que a canção propõe –, é pra lá de coerente que as passagens instrumentais da obra sejam adornadas por um riff de berimbau.

A inusitada presença desse instrumento, além de todos os demais elementos composicionais que apontei, fazem de “Brixton, Bronx Ou Baixada” uma canção originalíssima e surpreendentemente atual, 25 anos depois de lançada.


A canção reapareceria no Acústico MTV do Rappa, de 2005, com um novo arranjo. Embora prefira a versão mais cadenciada (e menos tensa) do disco de 1994, a releitura desplugada tem lá seus atrativos. Chamam a atenção as passagens em que Falcão canta apenas sobre um fundo de batuques recitando, como num transe religioso, palavras que aludem ao universo contraditório da canção: “Candomblé… ô orixá… cristão, católicos…”. Como destaque percussivo, além do berimbau (que infelizmente não reproduz o riff do arranjo original), está presente uma incansável cuíca. Confira:


Além dessas observações mais objetivas, há uma percepção que quero compartilhar.

Não seria “Brixton, Bronx Ou Baixada” uma (necessária) atualização de “Alagados”, dos Paralamas do Sucesso? Afinal, o refrão da canção paralâmica também enumera paralelismos geográficos (“Alagados, Trenchtown, Favela da Maré”) e aposta na fé como via para a superação das carências da(s) periferia(s).

No entanto, me parece que “Alagados” ainda está contaminda pelo niilismo típico dos conjuntos do BRock. Observe que a voz da canção deposita suas esperanças num ideal religioso/espiritual indeterminado e, por isso mesmo, inviável: “A esperança não vem do mar /  Nem das antenas de tevê / A arte é de viver da fé / Só não se sabe fé em quê”.

A canção do Rappa, pelo contrário, é enfática ao caracterizar essa fé como uma manifestação tangível e consistente, que inclusive é explicitamente nomeada como o “candomblé” dos “orixás”, na gravação do Acústico MTV. Sim, Marcelo Yuka sabe muito bem que fé é essa, ao contrário do Herbert Vianna da canção de 1986.

Assim, vejo “Brixton, Bronx Ou Baixada” como a canção que subscreve quase tudo o que fora apontado anteriormente na obra dos Paralamas, mas trata de dar nome aos bois, transladando as queixas abstratas de “Alagados” (que não são bem resolvidas nem com a luxuosa participação de Gilberto Gil na faixa) para um cenário em que os sujeitos são concretos. São sujeitos que, para além das carências, possuem cor, passado e propostas para uma ação fundamentada e promissora.

4 comentários

  1. Do grupo eu só conheço aquela que Maria Rita gravou (interpretação apagada),se fosse sua mãe teria quebrado tudo.

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