10. Racionais MCs: “Diário De Um Detento”

São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã.
Aqui estou, mais um dia.
Sob o olhar sanguinário do vigia.
Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de
uma HK.
Metralhadora alemã ou de Israel.
Estraçalha ladrão que nem papel.


Em 1998, estava ainda na antiga 7ª série. Naquela época, um artefato adquirira extrema importância em minha vida: o CD. Eu já tinha algumas coisas próprias, que eram presentes de Natal ou aniversário, e começava a explorar a coleção de meu pai. No entanto, aqueles discos ainda me pareciam muito antigos e distantes de meus interesses, mais próximos dos sons que meus colegas ouviam.

Na escola já estava bem estabelecida, a essa altura, uma grande rede – solidária, diríamos hoje – em que os CDs circulavam de carteira em carteira, de sala em sala. Peguei muita coisa emprestada de meus amigos Marcos e Rafael, algumas mais recentes (como o Acústico MTV dos Titãs), outras muuuuito antigas (tipo a coletânea Arquivo dos Paralamas, lançada apenas oito anos antes – mas quando se tem 13 anos, a época dos 5 parece pré-histórica). E meus colegas não escutavam apenas rock nacional dos anos 1980; estavam em alta rotação os lançamentos mais recentes dos Raimundos (Lapadas do povo) e do Charlie Brown Jr. (o disco de estreia, Transpiração contínua prolongada, animou todos os nossos churrascos), havia quem já escutasse Planet Hemp (“Dig Dig Dig” tocou muito no fundão da 7ª C, graças a uma novidade chamada discman!), todos adoravam o samba-pagode que dominava as rádios (Katinguelê era o conjunto preferido da galera) e, de vez em quando, pintavam coisas mais variadas, como algumas modas de viola antigas e o rap.

Esse último estilo tinha seus motivos para ser ouvido pela turma. Minha escola ficava entre um bairro tradicional de São Carlos (Vila Prado, na verdade, um subdistrito) e as periferias em sentido restrito, abrangendo os bairros Vila Isabel, Cruzeiro do Sul, Jardim Gonzaga e até Cidade Aracy e Antenor Garcia, esses bem na borda do município. O rap, a essa altura, já era um estilo com grande penetração entre as camadas populares dessas localidades.

Eu, por outro lado, morava também numa periferia, mas na outra borda da cidade. O limite da zona rural passava a poucos metros do meu quintal, de forma que, ali no Maria Stella Fagá, residia um tipo diferente de povo periférico, mais provinciano, camponês, acostumado a atravessar matagais, a desbravar estradas de terra, a conviver com os bichos (até o ponto de apreciar o cheiro da bosta de vaca!) e ter a pescaria como passatempo.

Assim, entre a moda de viola e o rap, era natural que eu enveredasse por um caminho mais caipira, até por pertencer à terceira geração, de minha família, que ouvia diariamente a rádio DBC FM (106,3 Hz), transmissora do melhor da música regional no começo da manhã.

Pois um dia, por uma razão que desconheço, calhou de vir parar em casa o Sobrevivendo no inferno, disco mais recente dos Racionais MCs e pertencente à variada discoteca do meu amigo Renato (por onde anda?). “Diário De Um Detento” estava na boca do povo e, por esse feliz acaso, veio a fazer parte da trilha sonora daqueles meus anos de moleque.


Essa história toda é meio pra encher linguiça, mas não só pra isso. É uma época boa de lembrar. E hoje, faz muito sentido olhar para trás e observar essas nuances que, àquele momento, não nos pareciam muito conscientes, mas percebíamos de alguma forma. Refiro-me ao fato de que há diversas periferias no mundo.

Tudo bem que “Periferia É Periferia (Em Qualquer Lugar)”, como vaticina Edi Rock no mesmo Sobrevivendo no inferno (ou como cantara Falcão, alguns anos antes, em “Brixton, Bronx Ou Baixada”). Mas no caldeirão que era a Escola Estadual Jesuíno de Arruda, eu claramente pertencia a uma periferia muito diferente daquela dos meus colegas. Para eles, as letras dos Racionais se referiam a um universo muito mais próximo e mais tangível do que para mim. Era a realidade do tráfico, da violência policial, das prematuras tragédias familiares, das correrias em cada viela do acidentado relevo do Jardim Gonzaga. Já a minha realidade era mais bem descrita pela música de Tião Carreiro & Pardinho, e o terror que fazia parte de nosso cotidiano não era aquele da violência urbana, e sim o das estórias de assombração ou de intervenção do sobrenatural – cantadas em canções como “Boi Soberano” e “Pretinho Aleijado”. Para ilustrar de forma bem direta, alguns coleguinhas não foram muito além dos 10 anos; aqueles da escola, por conta do tráfico; os do bairro, por afogamento na represinha em que costumávamos nadar/pescar.

Ironicamente, sei que alguns desses colegas da periferia urbana, hoje, moram em bairros mais tradicionais ou até em bons condomínios de classe média, localizados mais proximamente à zona rural. Já eu moro num lugar muito diferente da paisagem bucólica que ainda cerca o Fagá: estou nos arredores da Vila Industrial, comunidade próxima ao ABC que, entre outras mais, recebe um caloroso “Salve” por parte do Mano Brown na faixa que encerra Sobrevivendo no inferno.


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Racionais MCs, sobreviventes ao holocausto urbano de São Paulo.

Para um interiorano da “periferia rural”, é muito difícil ter algo a acrescentar sobre as já abundantes análises da obra dos Racionais MCs. Além disso, “Diário De Um Detento” é pra lá de direta e transparente. Composta por Mano Brown a partir de um verdadeiro diário do ex-detento Josemir Prado (Jocenir), a faixa narra a rotina de um presidiário no Carandiru, da véspera do massacre do dia 2 de outubro de 1992, até o dia seguinte à tragédia.

É interessante que, na análise de Contier (O rap brasileiro e os Racionais MC’s. In Proceedings of the 1th Simpósio Internacional do Adolescente, 2005, São Paulo) apareça um termo que foi recorrente no post anterior, sobre “Esquadros” de Adriana Calcanhotto. Naquela obra, o personagem narrador é tratado como um flâneur, um observador, mas que não consegue se manter neutro e, eventualmente, se envolve afetivamente com a paisagem observada. Já em “Diário De Um Detento”, o flâneur é de outra espécie, conforme o mencionado trabalho:

Como um “flanêur” faz uma série de alusões às regras impostas pelo Poder dentro do presídio: a lei do silêncio: “Um preso se enforcou com o lençol”; “Qual que foi? Quem sabe? Não conta”. Numa outra passagem da narrativa indica os nomes dos bairros ou cidades que indicam a origem dos presos: Osasco, Parelheiros, Moji, Jardim Ângela, Parelheiros.

Parece que, observando o microcosmo de um estabelecimento prisional, o personagem de “Diário De Um Detento” atinge uma compreensão da realidade muito mais profunda do que conseguira o narrador de “Esquadros”. E talvez por isso faça tanto sentido que, recentemente, Sobrevivendo no inferno tenha vindo a constar entre as obras de literatura brasileira a serem cobradas no vestibular da Unicamp. Confesso que essa inclusão (bem como a outorga do Prêmio Nobel de Literatura de 2016 para o cancioneiro de Bob Dylan) me causa certos incômodos, na medida em que parece reduzir canção a produção literária. Nesse sentido, prefiro o adjetivo “lítero-musical” para definir o gênero cancional, como o faz meu colega Lauro Meller, pesquisador da canção popular na UFRN, afinal, os elos entre e letra e melodia fazem da canção popular um gênero completamente diverso. Por outro lado é preciso saudar a decisão da Unicamp como uma importante iniciativa para apresentar, principalmente aos jovens da classse média, o que é o Brasil real das periferias. Quem sabe possam, assim, criar alguma empatia para com a população jovem e negra que, diariamente, é exterminada nessas regiões – a mesma empatia que propõe “Esquadros” e demais obras de Senhas, como visto no post passado. Além disso, convém se perguntar até que ponto o rap se mantém esteticamente vinculado ao que chamamos de canção popular – sobre isso, há ótimos posts no blog Sobre a Canção, sendo um deles direcionado especificamente à música dos Racionais MCs.


Meio sem querer, fizemos neste blog uma sequência de canções que, todas, mantém alguma forma de elo. Assim como fora anunciado no post sobre “Brixton, Bronx ou Baixada”, uma ética de valorização da cultura e da fé negra permeia todo o Sobrevivendo no inferno, com suas menções esparsas ao universo dos orixás. Apesar de minha ressalva de que existem periferias e periferias, não deixa de ser curioso que os manos da Baixada Fluminense e do Capão Redondo tenham chegado às mesmas soluções, em suas estratégias de sobrevivência.

E além desses elos com “Brixton, Bronx Ou Baixada” e “Esquadros”, é de se notar que Mano Brown, em “Capítulo 4 Versículo 3” (terceira faixa de Sobrevivendo no inferno) se coloque enquanto “apenas um rapaz latino americano / Apoiado por mais de cinquenta mil manos / Efeito colateral que o seu sistema fez”. A menção a Belchior – como vimos, um cearense na cidade grande que se reconhece “mano” de todos os demais marginalizados e desvalidos – mais do que reafirma a necessidade de que, à parte das subjetividades e especificidades de todos os oprimidos, sua luta passa pelo reconhecimento de interesses e pautas comuns.

Sobrevivendo no inferno é uma obra que não apenas dialoga com seu próprio tempo, se tornando (infelizmente) cada vez mais atual. Que sua audição, iniciada com uma saudação a Ogum, tal como no canto de Zeca Pagodinho/Jorge Ben Jor, possa ainda inspirar muitas lutas.

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