11. Pena Branca e Xavantinho: “Cuitelinho”

Cheguei na beira do porto
Onde as onda se espaia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai


O disco de estreia da dupla Pena Branca e Xavantinho é uma jóia que precisa ser redescoberta. Intitulado Velha morada, o álbum de 1980 réune boas modas, traz pelo menos dois grandes clássicos do cancioneiro brasileiro (“Cálix Bento” e “Cio Da Terra”) e tem um irresistível – e inusitado – sabor afro. Na capa do disco, os irmãos José Ramiro Sobrinho e Ranulfo Ramiro da Silva posam vestidos de branco, com guias no pescoço, bem umbandamente. Inclusive as práticas rituais afrobrasileiras são narradas de forma mais (“Frango Assado”) ou menos (“Que Terreiro É Esse”) divertida em algumas faixas. Sem falar, obviamente, dos próprios codinomes escolhidos pela dupla, uma referência clara aos caboclos da umbanda.

O destaque do disco, porém, é uma singela canção inspirada no folclore sulmatogrossense, “Cuitelinho”, lançada originalmente por Nara Leão alguns anos antes. A letra teria sido recolhida durante uma pescaria por Paulo Vanzolini, que ouviu seu amigo Antonio Carlos Xandó cantar. Xandó, por sua vez, ouvira a canção pela boca de um velho pescador, Nhô Gustão. Havia então duas estrofes, e Vanzolini acrescentou uma terceira, arranjando-as numa toada de harmonia simples e melodia que percorre uma oitava inteira da escala maior, no modo Jônico.

A letra, repleta de imagens pantaneiras, narra a saudade que um combatente da Guerra do Paraguai sente de seus familiares (a “parentaia”) e de sua amada. A melodia desce para as regiões mais graves da tessitura (por exemplo, no verso “E o cuitelinho não gosta”) e finda em tonemas levemente suspensivos (“Que o botão de rosa caia ai, ai,”), repousando na dominante. A conjugação entre tais imagens e essa melodia que vai ao grave e finda na dominante – mais o tom saudoso da voz que canta, além dos insistentes “ai, ai” ao fim das estrofes – aproximam a canção de um melancólico e belíssimo lamento.

Costumo encerrar os posts falando sobre as regravações de cada canção; no presente caso, vou falar disso aqui, bem no meio da conversa. Existem diversas releituras de “Cuitelinho”, e destaco as versões de Milton Nascimento e de Renato Teixeira, mas não consigo achar nenhuma tão bela quanto ao registro dos próprios Pena Branca e Xavantinho. Pra mim, é a versão definitiva, e vou defender, abaixo, o porquê disso.

pena-branca-e-xavantinho.jpg
Pena Branca e Xavantinho, dois irmãos que botaram fogo na fundanga da música brasileira.

Uma das características de “Cuitelinho” é a recorrência ao linguajar interiorano ou, sendo mais preciso, à variação linguística do português conhecida como caipira, muito falada no interior de São Paulo, em Minas Gerais e no Mato Grosso do Sul. O caipira possui marcas distintivas, em relação a outras variantes ou dialetos do português, principalmente quanto a aspectos fonológicos, prosódicos e gramáticos. O trabalho de Negrão (O falar rural presente na música de raiz. In Anais do 6º Encontro Celsul – Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul, 2004, Florianópolis) especifica algumas dessas características:

Certos falares no Brasil são considerados uma forma incorreta de falar, pois se diferem das regras impostas pela norma culta. É o caso do falar rural, uma linguagem antiga, cheia de particularidades e carregada de preconceito por parte de falantes de outros falares, que a marginalizam e a consideram inferior às demais. Seu juízo de valor é determinado conforme a classe social a que pertencem seus falantes e não pela competência lingüística que possuem. […] Essa linguagem teria sua influência ainda mais abrangente se várias mudanças no meio social e político não tivessem ocorrido. Com a libertação dos escravos, substitui-se a mão-de-obra negra pela branca remunerada, modificando alguns fatores da variação dialetal. […] É na música que o falar rural se fortalece, as modas caipiras ganham originalidade e encanto, escritas e cantadas no ritmo caracterizado pela lentidão e pausa e além disso, tornam-se a expressão da saudade da vida no campo […] (p. 3-4).

O mesmo trabalho de Negrão traz uma competente análise de “Cuitelinho” à luz desse conceito de variante linguística, identificando categorias distintivas entre o caipira da canção e o português da norma culta, como a regência do verbo chegar, a iotização (conversão, por exemplo, de “atrapalha” em “atrapaia”) e as formas de concordância verbal e nominal. No entanto, encontrei uma análise mais palatável dessa canção, e até menos objetiva, do professor Sírio Possenti (Departamento de Linguística da Unicamp), que peço licença para reproduzir quase na íntegra (com algumas adaptações e supressões na transcrição):

“Cuitelinho”, sendo música do folclore, tem características da gramática do português popular. As duas mais salientes são as pronúncias “espaia”, “parentaia”, “bataia”, “navaia, “faia”, “oio” e “atrapaia”, e as concordâncias nominais e verbais em “as onda se espaia”, “terras paraguaia”, “os oio se enche”, “fortes bataia”). Observe que, nestes grupos nominais, o plural é marcado apenas na primeira palavra, seja ela um artigo (as onda, os oio, etc.), seja um substantivo (terras paraguaia) ou um adjetivo (fortes bataia).

Ouvindo as diversas gravações, descobrem-se pelo menos duas coisas. A primeira é que há muita variação, especialmente de pronúncia ou sotaque, que não se percebe quando se lê a letra. A segunda é bem mais curiosa: pode-se afirmar que, quanto menos “letrados” são os cantores, mais corrigem a letra. Concretamente: Milton Nascimento e Nara Leão, por exemplo, “respeitam” todos os traços populares (espaia, as onda, os oio, etc). Outros “corrigem” algumas passagens, mas não todas, mesmo que se percam rimas (“se espalham”, por exemplo). Uma dupla caipira (Rio Negro e Solimões) é a que mais corrige, confirmando a tese de que a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante.

Um dado curioso: a dupla não só corrige a sintaxe, destruindo diversas características da letra, mas também evita “dei em terras paraguaias” (pela conotação sexual de “dar”). Canta “entrei em terras…”. É muita macheza!

Labov diz que o excesso de correção é sintoma de insegurança social. Os “cultos” não têm medo da outra cultura (no caso, traços dialetais). Mas os representantes desta “outra” são inseguros em relação a seu valor, e por isso a corrigem. A inculcação de valores é um verdadeiro massacre.

Nada mais a acrescentar! Pena Branca e Xavantinho não apenas cantam “Cuitelinho” sem desprezar todas as marcas da variante linguística caipira… eles cantam “caipiramente” com uma propriedade que, infelizmente, Milton Nascimento (por exemplo) não tem.

Paulo Vanzolini nos deixou em 2013 mas, antes de partir, o jornalista Luís Nassif (cujo blog acesso diariamente) conseguiu “arrancar” dele uma inédita estrofe final de “Cuitelinho”:

Transcrita, essa estrofe (que Nassif considera erroneamente como a terceira, e não a quarta) seria a seguinte:

Vou pegar o teu retrato
Vou botar numa medaia
Com um vestidinho branco
E um laço de cambraia
Vou pendurar no meio peito
Que é onde o coração trabaia, ai, ai


Em uma participação no programa Sr. Brasil em 2011, Mônica Salmaso interpreta “Cuitelinho” já com essa estrofe, e acrescenta:

Outro dia a gente tava fazendo um show e aí apareceu um professor – que coisa engraçada! -, um professor de Física meu do colegial, e aí ele me contou que o pai dele era mineiro e que ele sabia mais outras duas [estrofes]. Aí eu falei: “Me manda isso!” Ele me mandou por e-mail essas duas e eu ainda não acrescentei (eu preciso aprender direito, assim…) Mas é bonito isso, né! Porque é uma música… que ela… ela é uma música viva, que as pessoas vão fazendo…

Afinal, se a língua é viva e admite diversas “transgressões”, por que a música – especificamente, a canção popular – também não seria esse organismo mutante, evolutivo? “Cuitelinho”, para além de seu valor intrínseco e sua beleza única, também nos ensina essas lições!

Fique com a bela interpretação da Salmaso no registro mencionado acima:

5 comentários

  1. ”Vou pendurar no meu peito,que é onde o coração trabaia”,gostei da imagem.A Inezita Barroso disse que a ”Moda da Pinga” também foi crescendo com o tempo,e tem algumas estrofes do Paulo Vanzolini.

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