12. Aline: “Vento De Maio”

Vento de raio rainha de maio estrela cadente
Chegou de repente o fim da viagem
Agora já não dá mais pra voltar atrás
Rainha de maio, valeu o teu pique
Apenas para chover no meu piquenique
Assim meu sapato coberto de barro
Apenas pra não parar nem voltar atrás
Rainha de maio, valeu a viagem
Agora já não dá mais…


post seria, a princípio, sobre Elis Regina. Quando tinha 18 anos, conheci melhor a obra de Lô Borges e me enamorara por uma canção sua; linda, mas intrincada, indecifrável. Anos mais tarde é que fui perceber que havia uma versão ainda mais comovente para essa obra prima que é “Vento De Maio”: a famosa interpretação da Pimentinha.

Pois bem, iniciei a pesquisa para escrever o post, tomei às mãos meu Os sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina (Márcio Borges, 8ª edição, São Paulo: Geração Editorial, 2013) e me deparei com a seguinte explicação:

Na mesma tarde [em que escrevera a letra de “Clube Da Esquina 2”] criei uma letra para música de meu irmão número dez, Telo Borges, sem que ele ao menos soubesse. Ele tinha composto dois pequenos temas para duas peças infantis produzidas por um grupo de teatro amador em Belo Horizonte. A primeira dizia uma coisa tipo: “dentro do copo um sujeito amarelo me olha de esguelha…” A ideia de Lô era unificar os dois temas através de uma única letra, ignorando o que havia sido escrito para as peças. Lô queria fazer uma surpresa para nosso irmão, gravando a música primeiro, antes de mostrar-lhe.

Sentia-me triste, sozinho e abandonado. A letra que saiu foi “Vento De Maio” […] (p. 337).

Logo adiante, uma informação surpreendente, e da qual eu não recordava de minha leitura de Os sonhos não envelhecem: quem primeiro gravou “Vento De Maio” foi a cantora mineira Aline Mendonça Luz (1946-2003), num disco simplesmente intitulado Aline, em 1979.

Ao dar uma espiada no YouTube à procura desse disco, deparo-me com uma informação ainda mais surpreendente: trata-se de um dos primeiros lançamentos independentes no Brasil, pois a cantora havia criado sua própria gravadora e, induzo, sua própria editora musical.

Depois fui ouvir o disco e, então, as surpresas se multiplicaram. Por exemplo, a faixa de abertura era nada menos que “O Cavaleiro E Os Moinhos”, canção de Aldir Blanc e João Bosco que tenho considerado seriamente para incluir entre as 365 deste blog, desde que o idealizei.

aline.jpg
Aline, uma pioneira ao desbravar o território independente no Brasil.

Mas vamos ao que interessa.

Pablo Castro, no blog Massa Crítica Música Popular, faz um comentário técnico acerca dos elementos composicionais de “Vento De Maio” (que você acesse na íntegra aqui):

Uma primeira frase postula o início confiante em Sol Maior : “Vento de raio, rainha de maio, estrela cadente…” então chega de repente o “fim da viagem”, e ficamos vagueando de forma ambígua nos campos das tonalidades, ainda perto de Sol, mas com acordes distantes como Ebm7, quando já não dava mais pra voltar atrás. E depois o épico B da música, em Sol Menor, desnuda o subtexto de uma das raras músicas de amor romântico do Clube da Esquina, com simbolismos oníricos e referências veladas, e algumas imagens bastante inspiradas. A melodia repousa em sétimas maiores e nonas, os intervalos mais surrealistas, em frases de arpeggio, e poucos graus conjuntos, e Elis a interpretou magistralmente […], de forma insuperável, mas o tipo de arranjo que mais encarna o espírito do clube é mesmo a versão de Lô Borges [e Solange Borges]. Um estupendo trabalho em família!

Já o songbook de Lô Borges desnuda completamente a harmonia da canção, assustando os tocadores principiantes com acordes coloridíssimos como E♭maj7/G, F9 e G7sus4, além dos originais (e complicados) Gm5#(9), A♭7(9)11# e E♭6(11#). Não é pra qualquer um!


Como disse no início do post, “Vento De Maio” foi gravada inicialmente por Aline em 1979 e, no mesmo ano, receberia o registro de Lô, no disco A via láctea. Já no ano seguinte, viria a releitura de Elis.

Dessas, é difícil escolher a preferida. Talvez a que menos goste seja a gravação do Lô, que ainda assim traz um atrativo e tanto: a participação de sua irmã Solange, a filha “número oito” dos Borges. Devo confessar que, à primeira audição de “Vento De Maio”, pensei que era a própria Elis quem cantava a parte de Solange, impressão que logo desvaneceu. Timbres parecidos, mas as interpretações são muito diferentes, como você confere a partir de 01’45”:

Essa diferença de registro ficou muito mais clara quando conheci a versão da Elis. Nela, também há um atrativo: uma participação discretíssima de Lô, que dá uma palhinha de “Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo” ao fundo do verso “Sol, girassol e meus olhos ardendo de tanto cigarro”. Afinal, em “Um Girassol…” há um verso semelhante: “Sol, girassol, verde vento solar”. Ainda, ao final da gravação, frases de teclado evocam a melodia dessa “canção-irmã”:

O mesmo acontece na versão original de Aline, mas na introdução, quando uma flauta canta toda a melodia inicial de “Um Girassol…”.

Todas as gravações têm o seu encanto… qual a sua favorita?

7 comentários

  1. Eu sempre achei que a Elis tivesse inventado o verso ”E meus olhos ardendo de tanto cigarro”,a irmã do Lô canta ”E meus olhos abertos pra outra emoção”,mas a Aline,que eu não conhecia,diz o mesmo verso que a Elis.
    Eu gosto muito da versão do compositor,principalmente quando entra a voz feminina,mas a gravação da Elis é imbatível.

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  2. Acho maravilhosa a gravação da Aline, e todo o disco dela é lindo, especialmente:
    – “Amo-te muito”, seresta de João Chaves seguida de “Amo-te mesmo muito”, de Caetano;
    – “A carta”, de Tom Zé;
    – “Amanheceremos”, de Jaime Além.

    Sérgio Aurélio, dez/2019

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    1. Realmente é um disco muito bonito! Todas essas faixas são ótimas. E, particularmente, gosto muito quando aparecem “canções irmãs”, como as de João Chaves e de Caetano.
      Grato pelo comentário.

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  3. O arranjo da gravação da Aline é estupendo e é do Toninho Horta. Amo essa gravação! Uma coisa interessante é que a musa inspiradora das duas poesias (“Um Girassol da Cor do seu Cabelo” e “Vento de Maio”) é a Duca Leal, que produziu o disco da Aline. Uma poesia de namoro e encantamento e a outra uma canção de separação, ambas geniais.

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