14. Raul Seixas: “Gîtâ”

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao seu lado
Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar


Quando criei o blog, sabia que um dos posts seria sobre “Gîtâ”. Essa canção, lançada em 1974 por Raul Seixas no disco com mesmo nome, me acompanhou em todos os momentos da vida, e por ela sou fascinado desde os 11 anos.

Como em outras canções aqui tematizadas, “Gîtâ” traz enormes desafios para mim. Primeiramente, porque muito já foi dito dela. Em segundo lugar, porque essa obra prima, composta por Raul e Paulo Coelho, sintetiza em si muita coisa.

Além disso, ao ler a análise do blog Em busca de sentido: a psique e o mundo, desanimei completamente de explorar a canção. Essa análise de Charles Alberto Resende é bastante completa e expõe com precisão os elos entre a “Gîtâ” de Raul e a obra que o inspirou, o texto indiano Bhagavad gītā.

A partir de conceitos da psicologia analítica jungiana, Resende traças curiosos paralelos não só entre os versos de Raul/Paulo Coelho e o antigo texto indiano, mas também entre outros escritos espiritualmente importantes para a humanidade, como os diversos livros da Bíblia Sagrada. Afinal, a canção se trata de um diálogo entre um sujeito, confuso e perplexo diante do mundo, e um Ser Absoluto, que tudo é (e enumera o que é). Um dos fragmentos mais interessantes dessa análise de Resende é o seguinte:

A canção enfatiza principalmente o aspecto escuro, ou o que se costuma chamar “defeituoso”, de Deus. Seria isso, na psicologia do cantor, uma tentativa de aproximação de um ego não muito forte, não muito estruturado, do Si-mesmo, o arquétipo da estruturação e fortalecimento da identidade? Pode ser também que Raul simplesmente tentasse uma aproximação para com o Deus cuja imagem passada a ele fosse a de um ser autoritário e prepotente, que se mantinha apartado, na posição de juiz do ser humano.

Mas não vou resumir tal interpretação aqui neste blog, indicando à leitora ou ao leitor que confira, na íntegra, essa leitura psicológica da canção de Raul.

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Raul, um maluco beleza que, em “Gîtâ”, encontra Deus dentro de si mesmo.

O Bhagavad gītā é um dos mais importantes textos clássicos do que se costuma chamar de “hinduísmo”. Esses textos constituem os chamados shastras, que compilam quatro tipos de escritura: shrutismritipurana e tantra. É Parahamsa Yogananda, no seu famoso Autobiografia de um iogue (São Paulo: Self-Realization Fellowship, 2009), quem nos esclarece a respeito dessas obras:

Estes tratados abrangem todos os aspectos da vida religiosa e social, bem como direito, medicina, arquitetura, arte, etc. Os shrutis são os Vedas, escrituras “diretamente ouvidas” ou “reveladas”. As smritis ou lendas “relembradas” foram finalmente escritas em passado remoto, sob a forma dos poemas épicos mais longos, o Mahabharata e o Ramayana. Os dezoito puranas são, literalmente, “antigas” alegorias; tantras significam literalmente “ritos” ou “rituais”: esses tratados transmitem verdades profundas sob o véu de detalhado simbolismo (p. 99, nota de rodapé).

Assim, o Bhagavad faz parte dos smritis, mais precisamente, do Mahabharata. Nesse poema épico, temos a seguinte situação: o príncipe Arjuna caminha para o campo batalha, onde guerreiam os Kurus e os Pândavas, dois povos que possuem uma linhagem familiar comum. Arjuna pertence aos Pândavas e está acompanhado, em seu carro de guerra, por seu conselheiro, Krishna. Aqui, sigo a introdução do meu volume do Bhagavad gītā, talvez a mais famosa ou difundida versão disponível no Brasil (Tradução de Francisco Valdomiro Lorenz. 22. ed. São Paulo: Pensamento, 2006):

A batalha começou quando Bhishma, o comandante dos Kurus, deu o sinal, tocando a sua corneta ou concha, sendo seu toque imitado pelos seus partidários, e respondido pelos Pândavas. Arjuna pediu a Krishna, ao princípio da batalha, que deixasse parar o carro no meio do espaço entre os dois exércitos inimigos, para ver de perto as principais pessoas que tomavam parte na luta. Vendo, então, seus parentes e amigos, tanto de um como do outro lado, ficou horrorizado por constatar que se tratava de uma guerra fraticida, e declarou a Krishna que antes queria morrer inerme e sem se defender, do que matar seus parentes. Krishna respondeu-lhe com um notável discurso filosófico que forma a maior parte do Bhagavad-Gîtâ, fazendo Arjuna reconhecer a necessidade dessa luta, em que ele e os seus partidários, finalmente, alcançariam completa vitória sobre os Kurus (p. 11-12).

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Arjuna, em seu carro de guerra, conduzido por Krishna.

Assim, a canção de Raul se inspira nas palavras de Krishna – uma das encarnações de Vishnu, o princípio mantenedor ou preservador na trindade hindu –, ao exortar Arjuna à ação e descrever os possíveis caminhos de união (yoga) entre o príncipe e o Ser Absoluto. Portanto, é nesse diálogo com o príncipe que Krishna se revela como avatar de Deus, enumerando seus atributos:

16. Eu sou presente em toda adoração; sim, Eu mesmo sou a adoração; Eu sou o sacrifício, a oblação e os perfumes sacrificiais; Eu sou a prece e a invocação; Eu sou o fogo que consome o sacrifício.

17. Eu sou o Pai do Universo e igualmente a Mãe; Eu sou a Origem e o Conservador de tudo. Eu sou o objeto do verdadeiro conhecimento; Eu sou a palavra mística AUM; Eu sou o Rig, Salma e Yajus-Veda [isto é, toda a ciência]. […]

19. Eu produzo o calor e a luz do Sol; Eu mando e retenho a chuva; eu sou a Morte e a Imortalidade; e, não obstante, sou Um e sempre o mesmo. […] (p. 104-105).

Há outras declarações de Krishna que inspiram diretamente a letra de Raul e Paulo Coelho:

28. Das armas, sou o raio, e Kâmaduk (símbolo da fertilidade) entre as vacas. Entre os amantes, sou o Amor; entre as serpentes, sou Vasuki (rei das serpentes, símbolo do saber) […]

32. De toda a criação, Eu sou o princípio, o meio e o fim. Das ciências, sou a ciência do Espírito e o verbo dos oradores.

33. Das letras, sou o A; nas palavras a conjunção. Eu sou o tempo perdurável e Aquele cuja face se volta para todas as partes. […]

36. Eu sou a Sorte entre os jogadores, e o Esplendor de tudo o que brilha. Eu sou a Valentia e a Vitória; Eu sou a Bondade dos bons. […]

39. Em suma, ó príncipe! Eu sou Aquilo que é o princípio essencial na semente de todos os seres e de todas as coisas na Natureza; cada ser, animado ou inanimado, é por Mim penetrado e, sem Mim, nada pode existir nem por um instante (p. 114-116).

Acredito que seja exatamente essa a tradução do Baghavad que tenha inspirado Raul e Paulo Coelho. Com efeito, existe uma apresentação ao vivo, da canção, em que Raulzito afirma:

Segundo os monges tibetanos, essa música tem sete sentidos, sete níveis de entendimento, e cada pessoa compreende dentro do nível que alcança.

Essa afirmação consta, quase ipsis litteris, nas páginas introdutórias dessa tradução:

[…] os Mestres hindus dizem que este livro maravilhoso tem sete sentidos, e aconselham ao leitor esforçar-se por penetrar no seu mais profundo sentido interior ou espiritual (p. 8).

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Versão da editora Pensamento para o Bhagavad. Detalhe: o nome do livro pode ser traduzido por diversas expressões, como “a mensagem do mestre” ou mesmo “a canção do mestre”. Nem preciso dizer que prefiro esta última, que se alinha perfeitamente ao trabalho realizado por Raul e Paulo Coelho, que convertem esse texto antigo numa das grandes obras primas do cancioneiro brasileiro.

A versão que tenho do disco Gîtâ não traz maiores detalhes sobre o acompanhamento instrumental – que é simplesmente épico, magnífico e arrebatador. Felizmente, encontramos essas informações no portal Discos do Brasil:

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Assim, além de uma dupla guitarra-violão (ambos tocados por Raul), um baixo (bastante saliente, por sinal), de um piano e de uma bateria, existem intervenções de uma orquestra de cordas, de um coro e de um trompete, além dos instrumentos de percussão.

Aliás, o trompete se apresenta em dois interessantes momentos: após o verso “Você pensa em mim toda hora”, quando acompanha os acordes de Dó Maior e Si Maior, dando um sabor flamenco a essa passagem, para desaguar de forma triunfante no Mi Maior (a tonalidade em que a canção se baseia) que abre os versos “Eu sou…”; e no final redentor da canção, ao fundo da repetição do verso “Eu sou o início, o fim e o meio”. Não posso deixar de reparar: as frases de trompete lembram, também, uma marcha militar. À luz do Bhagavad, isso faz muito sentido; lembremos que a batalha, a que Arjuna assiste, é iniciada com o toque da corneta de Bhishma, comandante kuru.

Já as cordas, além de acompanharem a harmonia dos versos “Eu sou…”, reproduzindo os expansivos acordes de Lá Maior, Ré Maior e Mi Maior, desenham um lindo e inesperado fraseado chinês na transição entre a primeira e a segunda parte da canção.

É a versão definitiva e ponto. Embora regravada por gente importante, de Rita Lee a Maria Bethânia, ninguém conseguiu chegar perto de reproduzir a emoção da gravação original de 1974. Nem mesmo o próprio Raul, que no disco Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! (1987) releu “Gîtâ” com uma letra vertida para o inglês e arranjo simplificado, intitulando-se agora “I Am”. Nas palavras do próprio Raulzito:

Falar “I am” (e não “I’m”, como no coloquial) é uma coisa muito forte, uma afirmação mesmo. Canto num inglês shakespeariano e este é um novo arranjo, sem orquestra. Preferi manter a coisa crua, mesmo. E é só.

Você pode ouvir essa versão aqui:

E pra descontrair, veja o que o cantor Tukley fez: (re)traduziu para o português “I Am”! Como Raul fez algumas adaptações na versão em inglês, seus versos não são a tradução literal da versão de 1974. A versão de Tukley, por sua vez, procura manter os sentidos dos versos em inglês, e o resultado você confere abaixo:


Além de “Gîtâ”, existe uma outra homenagem do cancioneiro brasileiro ao texto indiano. Trata-se do álbum Canções do divino mestre (que brinca com o próprio título do Bhagavad), executado por diversos artistas brasileiros. O álbum praticamente narra o diálogo entre Arjuna e Krishna, e é tocado por gente gabaritada, como Gil, Lenine e Arrigo Barnabé.

Ouça aqui:

7 comentários

    1. Composição sublime de uma dupla lendária. (Descobri alguns comentários seus que não foram respondidos em 2019. Vou usando pra matar a saudade de responder!)
      Grato pelo comentário.

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  1. Ótimo texto e referências! Linda a obra escolhida, um verdadeiro clássico!
    Esse encontro com o Si-mesmo, a imagem interna de Deus, é o trabalho da nossa vida. Envolve essa integração e dissolução de polaridades. Como na passagem do Bhagavad-gita, implica na desafiadora quebra de padrões herdados da família e cultura (o “fraticídio”). Achei interessante no final da “re-tradução” do Tukley a passagem “[eu sou] a mãe, o pai e o enigma”, parecendo uma referência direta ao mito de Édipo e, aos desafios no âmbito das relações familiares.

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    1. Oi, Carol
      Adoro quando os comentários iluminam pontos ou questões que a postagem acabou não considerando. E, de você, só podia vir um comentário assim, que acrescenta pistas, achados e conclusões sobre a (incompleta) análise que fiz!
      Com sua leitura de “Gîtâ”, acho que nunca mais escutarei a canção da mesma forma… obrigado por isso!
      Um abraço jungiano!

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