15. Pato Fu: “Tribunal De Causas Realmente Pequenas”

Você pensa que faz o que quer
Não faz
E que quer fazer o que faz
Não quer
Tá pensando que Deus vai ajudar
Não vai
E que há males que vêm para o bem
Não vêm
Você acha que ela há de voltar
Não há
Que que ao menos alguém vai escapar
Ninguém


O Pato Fu sempre me traz boas lembranças, principalmente dos dez primeiros anos deste (conturbado) século. Nesse período, conheci vários discos da banda mineira, especialmente o Isopor (1999), um dos favoritos do meu pai e, por isso mesmo, sempre em alta rotação lá em casa; o MTV ao vivo (2002), que a Silvia Helena surrupiou de algum de seus irmãos, imagino, e me emprestou logo nos primeiros meses de nossa amizade, em 2003; o Toda cura para todo mal (2005), reunindo um belo repertório, que pude apreciar num show excelente no dia do meu aniversário em 2005 (e veja que loucura, no dia seguinte era aniversário da própria Fernanda Takai, e então o Sesc inteiro puxou um “parabéns pra você”… imagine o que senti!); e finalmente, o Música de brinquedo (2010), que também conferi num excelente show em 2011, muito animado e performático, com a participação dos bonecos do Giramundo.

De lá para cá, meio que esqueci a banda, e só recentemente me interessei em conhecer outro álbum, o Ruído rosa (2001). Lembro que ele foi saudado pela revista Showbizz (que, à época, eu colecionava) como um dos melhores discos do ano, recebendo uma resenha extremamente positiva. Bom, agora vejo que os críticos realmente tinham razão. Ruído rosa traz um punhado de canções que atestam a competência da banda, em especial, sua habilidade de transitar entre vários estilos. Nessa audição mais recente, a faixa “Ninguém” foi a que mais despertou minha atenção, e até cogitei fazer um post sobre essa “Creep” brasileira (sim, acho ela muito parecida com o maior sucesso do Radiohead).

pato-fu.jpg
Pato Fu: à época de Ruído rosa, um quarteto de instrumentistas habilidosos na medida certa, ousados, experimentadores… e muito divertidos.

Mas aí pensei melhor… e lembrei que, em Ruído rosa, já havia uma faixa que conhecera lá atrás, que me trazia recordações bacanas e sobre a qual eu poderia falar algo. Trata-se de “Tribunal De Causas Realmente Pequenas”, escrita pelo casal Fernanda e John Ulhoa.

Conheci a canção porque, em 2002, volta e meia passava um clipe dela na Rede Cultura, entre um programa e outro. À época, a emissora começava a exibir o Ilha Rá-Tim-Bum, um programa infanto-juvenil que tinha um quadro diversificado de personagens. Uma delas era Majestade (interpretada por Thuanny Costa), cuja música-tema era “Tribunal…”, e o clipe dos intervalos compilava imagens da série, com foco na personalidade impulsiva e sonhadora da garota.

A canção tem três partes. O início tem uma levada (quadrada) de samba, com um cavaquinho malandramente tocado por John, e aos poucos vai ganhando outros instrumentos (guitarra, percussão e teclados). A seguir, vem uma longa sessão instrumental, bem roqueira, com um órgão proeminente e boas palhetadas de guitarra. Por fim, vem a sombria parte do “Você acha que eu tenho demais / Roubei / Você acha que eu não sou capaz / Matei”, com uma coda que traz de volta a sessão instrumental por um breve período.

A verdade é que, pra mim, “Tribunal…” não tem muito a ver com a Majestade… mas tem muito a ver com psicanálise. Aliás, observando a letra – que se concentra na primeira parte da canção, e é quase toda reproduzida na epígrafe do post -, fica bastante óbvio que ela é um tratado musical sobre atos falhos. Sabe quando você diz o oposto do que gostaria de ter dito mas… escapou? A boca foi mais rápida que o pensamento… e, na verdade, você pensava exatamente o que disse, só não deveria ter verbalizado. Como diria o Chaves, “foi sem querer querendo”. São as forças inconscientes invadindo a esfera de nossas relações e nos colocando em verdadeiras frias.

Assim, a esperta letra da canção traça uma interessante oposição entre o /querer/ e o /fazer/: “Você pensa que faz o que quer / Não faz / E que quer fazer o que faz / Não quer”. Esses versos me remetem a um fragmento do livro O que é psicanálise: 2ª visão, de Cesarotto e Leite (São Paulo, Brasiliense, 1987. Coleção primeiros passos, v. 133):

quem fala nem sempre sabe o que diz, ou quando diz o que quer dizer, não sabe o que está falando (p. 75).


“Tribunal…” recebeu uma releitura ao vivo que abre o DVD do álbum com o selo da MTV, mas a versão em CD não trouxe essa canção, infelizmente.

No entanto, em 2017, João Pedro Ramos (Crush em Hi-Fi) e Rafael Chioccarello (Hits Perdidos) organizaram um tributo aos 25 anos da banda, intitulado O mundo ainda não está pronto (que você pode escutar aqui), e nele há uma versão muito bacana de “Tribunal…” Gravada pelo músico Pedroluts, essa divertida reconstrução tem um sabor meio folk, meio country. Confira:

OBS.: as informações sobre o tributo O mundo ainda não está pronto estavam equivocadas quando da publicação do post. Elas foram corrigidas após o Dudi, da Equipe Pato Fu, ter entrado em contato com o blog. Um super obrigado a ele e a toda Equipe!

3 comentários

  1. Não conhecia a música.Gostei da análise freudiana,eu sempre acho que o nosso inconsciente só fala aquilo que o outro ”precisa” ouvir pra evoluir.Freud era ateu e partidário do acaso,eu sou espiritualista…

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