17. Câmbio Negro: “Esse É Meu País”

Igualdade racial, social
Negro e branco tratado de igual pra igual
Boas escolas, analfabetismo inexistente
Saúde em alta, bons hospitais, atendimento eficiente
Mortalidade infantil há muito eliminada
Pobreza não se vê, foi erradicada
Criminalidade cai 90%
Todos têm moradia, ninguém ao relento
Policiais educados, segundo grau completo
Recebem salário digno, equipamento moderno
Não abusam do poder, não há brutalidade
Admirados por todos da comunidade


Não sou exatamente um consumidor do hip-hop, embora respeite muito o movimento. No entanto, lembro que a passagem dos anos 1990 para os anos 2000 foi marcada por uma presença maior do rap nas rádios, e um jovem naquela época, como eu, não poderia ficar indiferente a isso. Hoje temos muita gente boa compondo e cantando o gênero – gosto muito de Rael, Criolo e Emicida -, mas é preciso dar os devidos créditos aos pioneiros daquela época.

Não me refiro apenas aos Racionais MCs ou ao próprio Gabriel O Pensador, que eram os mais massificados, digamos. Havia pelo menos outros três conjuntos que se insurgiam nas programações, propondo uma promissora mistura de rap com rock: o Planet Hemp (que mais se destacou), o Pavilhão 9 (esse, numa linha mais pesada) e, fora do circuito Rio-São Paulo, o Câmbio Negro, oriundo da região da Ceilândia, nos arredores de Brasília.

É do Câmbio que iremos falar hoje. Lembro de ter lido, ou na Showbizz ou na Rock press (as duas revistas de música que eu comprava mensalmente, à época), que esse conjunto não tinha muitas perspectivas de se firmar na cena nacional, por ser rap demais para a turma do rock, e rock demais para a turma do rap. Eu – que era da turma do rock -, particularmente, gostava!

Foi a própria Showbizz que, em 1999 ou 2000, encartou com um de seus volumes uma coletânea de hip-hop da gravadora Trama, intitulada simplesmente Trama hip-hop 99. O disco juntava Thaíde e DJ Hum, Max de Castro, Urbanos MC’s e encerrava com uma incrível versão de Jair Rodrigues cantando ao vivo “Deixa Isso Pra Lá” junto com Camorra, Potencial 3, Criminal D e Gang de Rua (acho que eram esses os convidados). A primeira faixa dessa coletânea era justamente do Câmbio Negro, “Esse É Meu País”, provavelmente seu maior sucesso, apresentada no disco Círculo vicioso (1998), o último do grupo antes de sua dissolução.

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Câmbio Negro provou que Brasília podia ir além do rock e produziu um rap com requintado discurso político.

“Esse É Meu País” é um groove contagiante, com apelo pop. A letra é pura ironia: elenca todas as qualidades de um Brasil imaginário, cuja imagem externa é respeitadíssima, com suas desigualdades corrigidas e prosperidade nos campos da ciência, da cultura e do esporte.

Confesso que, ouvindo essa faixa em meados dos anos 2000, cheguei a imaginar que, em breve, essa ironia soaria datada. Infelizmente, a composição do vocalista do conjunto, o rapper Alexandre “X” Tadeu Silva (não confundir com o também rapper Xis), soa mais atual do que nunca.

É interessante que, talvez pela proximidade do poder central, o Câmbio Negro parece demonstrar uma consciência política mais refinada do que a de seus congêneres dos outros estados. Assim, na primeira estrofe da letra, X aborda a questão da representatividade no parlamento: “Honestidade na política, admirável / Mulheres no governo, com certeza invejável / Tratadas como se deve, com o respeito devido / Não mais como cadelas, e sim como um indivíduo / Vários negros no Senado, trabalho reconhecido / Anos de faculdade, lugar ao sol merecido”. Salvo melhor juízo, esse assunto não era muito tematizado pelos conjuntos de rap contemporâneos do Câmbio. Para eles, os bastidores da política na capital federal deveriam parecer distantes, inacessíveis, pertencentes a um mundo diferente. Daí o foco de suas letras recair sobre as violências cotidianas, numa escala micro.

Ao final da canção, uma inteligente (auto)crítica ao próprio movimento hip-hop: “Rap nacional bastante difundido / Letras inteligentes, trampo descente, bem produzido / Não se confunde liberdade de expressão com desacato / Espaço garantido, artistas de fato / Vários discos de ouro, reconhecimento / População bem informada respeita o movimento / Levados a sério, objetivos alcançados / Povo da periferia não é mais humilhado”.


O clipe de “Esse É Meu País” é um dos grandes momentos audiovisuais do hip-hop brasileiro e, na minha opinião, só perde para o vídeo de “Diário De Um Detento” (do qual acabei não falando naquele post sobre o hit dos Racionais). Pelo que sei, foi bastante exibido na MTV, à época do lançamento. A versão com melhor resolução que encontrei é esta:

Nos últimos anos, o Câmbio Negro voltou a se apresentar, e um dos shows gerou um DVD muito bem produzido. No repertório, é claro, “Esse É Meu País”, numa versão cheia de balanço e com uma citação a “Good Times” do Chic (a mesma que Gabriel O Pensador sampleou em “2345meia78”). Confira:

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