18. João Paulo & Daniel: “Poeira Da Estrada”

Levantei a tampa, voltei ao passado
Meu mundo guardado dentro de um baú
Encontrei no fundo todo empoeirado
O meu velho laço bom de couro crú
Me vi no arreio do meu alazão
Berrante na mão no meio da boiada
Abracei meu laço velho companheiro
Bateu a saudade, veio o desespero
Sentindo o cheiro da poeira da estrada


Em 1997, já havia sinais de que a onda sertaneja, que invadira as rádios na virada para os anos 1990, vivia seu período de descenço. O lamento pop do campo, influenciado (demais, na minha opinião) pelo country estadunidense, já tinha perdido espaço para o pagode romântico e, à beira dos anos 2000, outros gêneros começavam a se impor, como a chamada axé music e, pouco depois, o funk dos morros cariocas.

Sintomaticamente, duas grandes perdas, de uma mesma geração, abateram a música sertaneja do período. A morte de Leandro, da dupla Leandro & Leonardo, foi especialmente comovente, já que a mídia acompanhava praticamente toda a dura luta do cantor contra o câncer, que finalmente o vencera em 1998. Além disso, Leandro & Leonardo formavam uma das três duplas do alto escalão da época, junto de Chitãozinho & Xororó e Zezé di Camargo & Luciano. Já o desaparecimento de João Paulo, no ano anterior, vítima de um trágico acidente de carro, fora especialmente lamentado em toda a região paulista mais central, pois a dupla João Paulo & Daniel era filha legítima do solo interiorano. Ouvir os rapazes de Brotas tocando nas rádios, ao lado de outros grandes figurões da música regional, era motivo de orgulho para nós dos municípios vizinhos.

Uma das últimas composições de João Paulo, ao lado do amigo Rick (da dupla Rick & Renner), foi “Poeira Da Estrada”, lançada no derradeiro João Paulo & Daniel vol. 8justamente nesse ano de 1997. Talvez inspirados no clássico “Saco De Ouro” (famosa nas vozes de Chico Rey e Paraná e gravada por Lourenço & Lourival, Chitãozinho & Xororó e outros mais), os cantores compuseram uma moda de levada pop/country, marcada pelo saudosismo típico da música caipira.

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João Paulo & Daniel, dupla talentosa e precocemente interrompida.

Mantenho com “Poeira Da Estrada” uma ligação afetiva das mais fortes. É uma canção que me lembra a vida que levei no interior até os 30 anos, me lembra meu pai (que gosta muito dela) e me lembra aquela confusa pré-adolescência em 1997.

E, como eu disse, a própria canção é marcada por um saudosismo enorme: o sujeito que a canta, ao abrir um velho baú, reencontra diversos objetos que o remetem idilicamente a uma juventude no interior, soterrado pelo progresso (?) civilizatório (???) urbano. O único fragmento que resta, daquele passado, é a poeira ainda aderida ao laço que encontra no baú.

Harmonicamente, a canção é simples, com acordes baseados no campo de Si Maior, com algumas sétimas (acordes de B7 e C#7) acumuladoras de tensões, a serem resolvidas no acorde da subdominante, Mi Maior. Além disso, nota-se uma influência do modalismo nos fraseados de viola da (bela) introdução.

A melodia é também muito bonita, ocupando uma extensão considerável na tessitura, que sobe a um registro mais agudo na parte do refrão.

No entanto, o destaque vai mesmo para as qualidades poéticas da letra que, não obstante os empréstimos de expressões de “Saco De Ouro”, reúne elementos literários de relevo, muito pouco presentes no que atualmente se considera como música sertaneja. Em especial, “Poeira Da Estrada” é tecida por uma competente trama de rimas, notando-se a presença de rimas ricas (por exemplo, passado/empoeirado, baú/cru, frio/saiu), de rimas encadeadas e de aliterações.

Aliás, gosto muito destas duas últimas, recursos tipicamente buarqueanos, mas presentes também em clássicos do rock nacional e, tradicionalmente, bastante usados na antiga música caipira. Vamos destacá-las em “Poeira Da Estrada” (em vermelho, as aliterações que não rimam, e em preto, as rimas encadeadas; de quebra, algumas assonâncias em azul): “Levantei a tampa, voltei ao passado / Meu mundo guardado dentro de um baú / Encontrei no fundo todo empoeirado / O meu velho laço bom de couro crú / Me vi no arreio do meu alazão / Berrante na mão no meio da boiada / Abracei meu laço velho companheiro / Bateu a saudade, veio o desespero / Sentindo o cheiro da poeira da estrada”.

Agora, preste atenção ao refrão: “Estrada que era vermelha de terra / Que o progresso trouxe e o asfalto encobriu / Estrada que hoje chama rodovia / Estrada onde um dia meu sonho seguiu / Estrada que antes era boiadeira / Estrada de poeira, de sol, chuva e frio / Estrada ainda resta um pequeno pedaço / A poeira do laço que ainda não saiu”.

Na última estrofe, destaco também as interessantes trincas, em termos semânticos, formadas pelos substantivos que rimam: poluição/caminhão/solidão e cidade/verdade/saudade.


“Poeira Da Estrada” já foi relida por muitos artistas, mas a versão original, do João Paulo & Daniel vol. 8, é imbatível.

No entanto, existe um registro emocionante de Daniel com o próprio Rick no programa Viola, minha viola. Como destaca um dos comentários ao vídeo postado no YouTube, é interessante que, na primeira parte, Daniel faz a segunda voz, e retorna à primeira voz no restante da interpretação:

Ao final do vídeo, não percam o lindo comentário da saudosa Inezita Barroso.

2 comentários

  1. No interior paulista onde vivo,só se ouve música sertaneja,desde o início da década de 1980.Eu nunca gostei,tenho verdadeiro trauma.

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