19. André Abujamra: “Infinito De Pé”

O infinito de pé são dois biscoitos
O infinito de pé é o número oito
O infinito de pé, dois planeta colado
O infinito deitado, um óculos quebrado
O infinito de pé, duas bolas de sorvete
Um casal de namorado na moto com capacete
Boneco de neve, dois vinhos na adega
Farol de milha de noite quase cega


Essa é mais uma daquelas canções que eu uso como desculpa para contar estorinha. Como em outras estórias, essa envolve o Sesc, um ótimo espaço para conhecer novas canções.

Bom, o Sesc São Carlos, em 2002, organizou um festival de dois dias, intitulado Sanca Blues Festival. Era dezembro e minha turma estava prestando os temidos vestibulares. No entanto, fissurados por música que éramos, não poderíamos perder essas apresentações – até porque precisávamos dar uma relaxadinha.

Pois bem, alguém conseguiu os ingressos e fomos todos nós (eu, Bobs, Renato Nishimura, acho que Ricardo Gessner e Flávio Nakahara – esses dois últimos não estudavam comigo, mas eram conhecidos de outros contextos) assistir, no teatro do Sesc, a uma das duas apresentações. Agora não me lembro muito bem, mas tenho o palpite de que fui o único a ir ao Sesc também no segundo dia do festival.

Para se ter uma ideia, era um festival tão interessante, e tão bem organizado em termos de elenco, que o J. J. Jackson – lendário bluesman que tocou até com Jimi Hendrix – foi uma das atrações. (Na verdade, não era tão difícil convidá-lo para um festival em São Carlos, já que o músico havia se naturalizado brasileiro, e morreu no ano passado em São Paulo, aos 75 anos).

O saldo do festival foi pra lá de positivo. Aberto com uma apresentação estonteante de banda de blues local, a Blues The Ville, o festival foi encerrado com uma jam session gigantesca, que agregou todo o elenco das  noites de show. Nesses sons improvisados, teve de tudo: além de blues, muito rock, pitadas de jazz e até baião!

Destaque também para a figura do mestre de cerimônias (que estava ali, a bem da verdade, apenas para entreter a plateia entre uma montagem de palco e outra): o Mário Manga, músico do Premeditando o Breque, que também deu uma canja, na guitarra, durante a jam.

No ano seguinte, manteve-se a mesma dinâmica, se bem me lembro. As mudanças começaram a acontecer a partir de 2004, quando se percebeu que Sanca Blues Festival era um rótulo enganoso. Naquela terceira edição, o festival foi chamado de Sanca Blues, Jazz e Rock Festival, ocorrendo em três dias, cada um deles dedicado a um desses estilos.

Lembro nitidamente dessa edição. Com uma turma da graduação, incluindo minhas amigas Pamela e Melina, fui ao dia do jazz e paguei o ingresso com tudo o que tinha na carteira: dois reais. Findas as apresentações, fomos a uma festa na UFSCar onde, por acaso, trombei o guitarrista do Blues The Ville, o grande Netto Rockfeller. Nessa época, eu estava numa onda de colecionar materiais das bandas de São Carlos, e cantei a ideia pra ele, perguntando se o Blues The Ville possuía algum CD demo, ou algo do tipo, para me passar. (À época, a banda ainda não havia lançado seu disco Da vila para o blues, sobre o qual espero falar, futuramente, no blog). O Netto foi muito gentil e, apesar da negativa, me convidou para o show que eles fariam no dia seguinte, na noite de blues do festival. E ao saber que eu não tinha mais nenhum tostão na carteira, acabou me convidando para assistir ao show como se fosse do staff da banda. Aquela foi, então, uma inesquecível noite de blues.

O festival manteve-se o mesmo na edição seguinte, inclusive com a já clássica participação do Mário Manga. No entanto, permanecia a sensação de que o rótulo não era adequado, já que na noite de rock rolava muito blues, na noite de blues tinha sempre muito jazz, e na noite de jazz… bem, nesse dia tinha de tudo.

Assim, a edição de 2006 foi intitulada, simplesmente, Sanca Festival. O momento, aí, era bem diferente daquele do primeiro festival: em vez de prestar vestibular, estava defendendo meu TCC. Pra comemorar, tinha a obrigação de conferir esses sons, novamente dispostos em três dias programação.

Nessa edição não tivemos a participação do Manga, substituído por duas figuras de peso da cultura pop da época: o ator Arthur Kohl (que eu conhecia dos programas da TV Cultura, como o Rá-Tim-Bum) e o André Abujamra. Meio que não entendi a escalação, mas ela se mostrou uma escolha acertada, já que os dois possuíam uma boa química no palco e, de fato, entreteram muito bem o público entre uma atração e outra – que compreendeu Fernando Noronha e Banda Black Soul, Marcos Cavalcante e o grande guitarrista estadunidense Stanley Jordan, especialista na técnica do two hands tapping.

Falei tudo isso para chegar perto de “Infinito De Pé” só agora. Lembro que, numa troca de palco mais demorada, Abujamra precisou distrair a plateia por mais alguns minutos. E eis que ele teve a sacada de divulgar uma canção que lançara havia pouco tempo: a própria “Infinito De Pé”, que batizava seu disco solo de 2004.

Apenas com um microfone em mãos, Abujamra recitou todos os 45 versos da canção, sem errar nenhum, sendo ovacionado pelo público. Chegando em casa, tudo o que eu queria era ouvir novamente esses versos.

andre-abujamra.jpg
André Abujamra, um artista completo, inteligente e muito bem humorado.

“Infinito De Pé” é conduzida por uma batida eletrônica, dançante, com boas intervenções de guitarra e de um lindo violino. A canção é totalmente modalizada pelo /ser/: consiste, basicamente, numa longa enumeração de objetos ou situações que remetem ao símbolo lemniscata (). Assim, aparecem como imagens do “infinito de pé” dois biscoitos, o número oito, duas bolas de sorvete, o reflexo do sol no mar… e como imagens do “infinito deitado”, um óculos quebrado, os olhos da coruja, dois salva-vidas à deriva no oceano, os seios de Brigitte Bardot.

Ao final, Abujamra chega a algumas conclusões: “O infinito é infinito / O infinito é o amor / O infinito nunca acaba porque nunca começou”. Aliás, a menção ao amor também aparece no meio da canção: “Infinito é o amor que eu sinto por você”.

Assim, penso que “Infinito De Pé” consegue transmitir a ideia de amor infinito de forma pra lá de original, evocativa, sem ser piegas e sem falsidade. Bem ao feitio da criativa obra que Abujamra vem desenvolvendo, desde os tempos dos Mulheres Negras e do Karnak.


Pra quem duvidou da estorinha que abre o post, veja o que encontrei nos meus cadernos de recortes:

programacao-sanca-festival.jpg
Sim, eu tinha a mania de guardar esse tipo de coisa. No fim, valeu a pena, assim o post fica mais ilustrado!

5 comentários

  1. André Abujamra,um artista bem longe de ser radiofônico.Ainda bem que na internet se ouve de um tudo.

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