20. Secos e Molhados: “O Patrão Nosso De Cada Dia”

Eu quero o amor
Da flor de cactus
Ela não quis
Eu dei-lhe a flor
De minha vida
Vivo agitado
Eu já não sei se sei
De tudo ou quase tudo
Eu só sei de mim
De nós
De todo o mundo


Eu poderia iniciar o post falando sobre os Secos e Molhados enquanto fenômeno subversivo na cultura brasileira. Poderia discorrer sobre a aparência e a performance andróginas de Ney Matogrosso. Também, poderia falar sobre a estética musical apresentada pelo grupo, em plenos anos tropicalistas, fundada na simplicidade harmônica, rítmica e de arranjos. Por fim, poderia tratar do fato de o primeiro disco do conjunto, de 1973 e intitulado apenas Secos e molhados, ser um dos grandes achados da música popular brasileira.

Mas falar sobre algo de tudo isso seria simplesmente chover no molhado.

Assim, vou direto à análise da canção de hoje, “O Patrão Nosso De Cada Dia”, de autoria de João Ricardo. Sobre a escolha dela, uma breve estorinha: primeiramente, a intenção era falar sobre “Assim Assado”, sobre a qual gostaria de comentar algumas piras (especialmente a arrepiante atualidade da canção que fala de um “velho” que, por estar usando determinada “cor”, é apanhado pelo “Guarda Belo”, que se torna o “herói”). Depois veio a Jaqueline e sugeriu “Sangue Latino”, sobre a qual também seria possível falar algo, destacando sua sugestiva letra, além de sua semelhança com outra faixa do Secos, da fase pós-Ney Matogrosso (“Última Lágrima”, do disco de 1978). Mas, refletindo melhor, concluí que “O Patrão…” é uma canção que me comove mais do que essas outras, e meu comentário poderia contribuir para interpretações que, salvo melhor juízo, não encontrei por aí. Vejamos se estou certo.

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Secos e Molhados: exuberantes, provocativos, andróginos… e importantíssimos para a música brasileira.

“O Patrão Nosso De Cada Dia” é uma canção simples, minimalista, conduzida por um dedilhado de violão, com um discreto contrabaixo elétrico ao fundo e boas intervenções de flauta nas pontes. A letra é formada por conjuntos de pequenas estrofes, que se agrupam para constituir as três repetições da harmonia, que mescla notas dos modos em Sol e Dó Maiores.

Além do trocadilho “o pão nosso/o patrão nosso de cada dia”, sobre o qual não é necessário falar, vamos dar uma conferida na letra. Os três conjuntos que agrupam estrofes terminam com os versos: “Eu só sei de mim / De nós / De todo o mundo”, “Eu só sei de mim / Só sei de mim / Só sei de mim” e “Patrão nosso / De cada dia / Dia após dia”. Primeiro, repare na progressão mim → nós → todo mundo, gerando uma sensação de abrangência cada vez maior: pensando que só sei de mim, sei é de todo mundo. Depois, no entanto, o sentimento eufórico dá lugar à disforia, com a pura constatação de que, na verdade, eu só sei é de mim.

Lembremos que “O Patrão Nosso De Cada Dia” é uma espécie de work song, em que um operário apresenta um lamento contra sua exploração pelo sujeito que nomeia a canção. O trabalho é apresentado como uma rotina anunciada por um seco som de sino (que aparece no início e no final da canção), esvaziador da vida, aprisionador. E se a vida já é vazia, pior ainda é perceber-se vítima da rejeição, até pelo mais “espinhoso” dos seres: “Eu quero o amor / Da flor de cactus / Ela não quis”.

Então, de forma a aliviar o sofrimento advindo desses sentimentos, o sujeito da canção se consola: apesar de explorado, enganado, aprisionado, rejeitado… ele sabe. Ele sabe de algo. É isso que ele sabe! Mas é um autoengano: logo após refletir sobre seu papel no conjunto da sociedade, no segundo conjunto de estrofes (em vez de apenas lamentar um sentimento subjetivo de rejeição, marca do primeiro conjunto), vem a descoberta: ele só sabe é de si mesmo.

Observe, assim, que o verbo saber, nessas estrofes, aparece com dois sentidos diferentes: primeiro como conhecimento, que se relaciona a abrangência, universalidade, objetividade (daí a progressão quase matemática eu → nós → todo mundo); e depois como informação, que se refere a verdades descartáveis, inúteis, vis (exemplo: fofoca – e todos conhecem alguém que sabe “de mim, de nós, de todo mundo”, não é mesmo?).

Isso daria uma ótima discussão a respeito do caráter negativo que o trabalho adquire na sociedade capitalista –  gerando um exército de proletários desenvolvidos apenas unilateralmente, em-simesmados, alienados. Poderíamos também desenvolver essa conversa para debatermos o conceito de cotidianidade na obra de Agnes Heller, em seus tempos de pensadora marxista: as atividades cotidianas servem imediatamente à reprodução do indivíduo e mediadamente à reprodução da humanidade; e as atividades não cotidianas, pelo contrário, servem imediatamente à reprodução da humanidade e mediadamente à reprodução do indivíduo. (Se alimentar, portanto, é uma atividade cotidiana; escrever um livro, por outro lado, é uma atividade não cotidiana. Veja que, para escrever o livro, o indivíduo precisa se alimentar – ou seja, o não cotidiano serve mediadamente à reprodução do cotidiano. Por outro lado, para se alimentar, o escritor precisa de dinheiro, que ele obtém vendendo seus livros – e então o não cotidiano serve mediadamente à reprodução do cotidiano). Temos, em “O Patrão Nosso De Cada Dia”, uma crítica à vida quase que reduzida à cotidianidade, bem no sentido helleriano.

Mas não vamos estender demais o post, deixando que a leitora ou o leitor pensem sozinhos sobre tudo isso.


A canção já recebeu diversas releituras.

Existe uma versão bonita, cantada por Toni Garrido (de forma mais ou menos próxima do estilo pop-reggae do Cidade Negra) para o tributo Assim assado (2003). Nesse registro, os versos são cantados sob uma atmosfera hipnótica, que explode nas pontes:

Destaco também uma releitura mais recente, do projeto Primavera nos Dentes, banda formada por Charles Gavin (bateria), Duda Brack (voz), Felipe Ventura (violino e guitarra), Paulo Rafael (guitarra) e Pedro Coelho (baixo). Da versão original dos Secos, essa releitura (lançada no disco que recebeu o nome da banda em 2017) conserva apenas o toque do sino na abertura, se enveredando por caminhos mais progressivos e psicodélicos. Repare nas guitarras afiadíssimas dessa complexa releitura. Elas estão em ótimas mãos… Paulo Rafael foi guitarrista da lendária banda pernambucana Ave Sangria e, desde o fim dos anos 1970, se tornou o fiel escudeiro de Alceu Valença – parceria responsável pela psicodelia agreste que marca o cancioneiro do compositor de “Anunciação”. Ouça:

P.S.: quem me apresentou o Ave Sangria foi minha querida amiga Beth Ovando, que deve estar acompanhando o blog. Quem sabe alguma do Ave acabe aparecendo aqui, né Betinha?

6 comentários

  1. Tenho pesquisado desbunde e resistência no Brasil. Ou melhor, o desbunde como forma de resistência. Secos e molhados é um norte, um farol que repercute muito nossa forma carnavalizada de insistência neste país. Parabéns pelo texto e pelas versões aqui recolhidas.

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