21. Kiko Zambianchi: “Quadro Vivo”

É tão escuro e cada dia escurece mais
E é tão cedo pra dizer o que senti
Eu queria refletir calmamente em algum lugar
Todos os momentos que passamos
Sei que iria me ajudar quando quero me esconder
Mas, o vento insiste em me levar


O disco Quadro vivo (1986) é o segundo álbum do cantor, compositor e músico ribeirão-pretano Kiko Zambianchi. Tenho a sorte de ter um exemplar desse belo LP, que reúne um apanhado de canções inspiradas. Um discaço que não fica muito atrás de outros clássicos do BRock, lançados no mesmo ano, como o Dois da Legião Urbana, o Cabeça Dinossauro dos Titãs e o Vivendo e não aprendendo do Ira!. Sim, Quadro vivo é muito subestimado! (Ok, exagerei um pouco aqui).

O disco tem ótimas faixas de clima pós-punk, com resquícios de The Cure e Echo & The Bunnymen aqui e ali, como a bela “Imaginação”, a acelerada “Justiça” e a poderosa “Nossos Sentimentos” (minha favorita do álbum). Mas tem também climas mais atmosféricos, como na indecifrável “Naufrágio” e em “Estranho Prazer” (com uma batida mecânica de bateria que, pra mim, dá um soturno toque de Sisters of Mercy à faixa), além de canções feitas para a pista de dança, sejam mais (“Mulher Assim”) ou menos (“Fly”, “Alguém”) dançantes.

Um destaques do disco é a faixa título, um dos hits, e até hoje lembrada nos shows do Kiko.

kiko-zambianchi.jpg
Kiko Zambianchi, do interior de São Paulo para os grandes palcos do BRock.

“Quadro Vivo” traz um sujeito diante das memórias de um relacionamento que findou, ou seja, não é a mais original das letras do BRock. Mesmo assim, existem diversas qualidades a destacar nessa faixa.

Em primeiro lugar, observo que a harmonia é construída sobre o campo harmônico de Mi Maior, trazendo os previsíveis acordes de Lá Maior, Si Maior e Dó Sustenido Menor. Até aí, tudo bem. Mas um inesperado Ré Maior contribui para trazer um clima levemente sombrio às reflexões do eu-lírico, cantadas pelo timbre grave de Zambianchi. Já a melodia não atinge nunca a nota Ré. Se o fizesse, entraríamos no modo Mixolídio, mas impera mesmo o modo Jônico.

O instrumental, nas primeiras partes da canção, mantém uma cama acústica ideal para o canto grave de Kiko: além de uma batida reta de bateria, há um baixo competentemente tocado por Zé Luiz Zambianchi, camadas de violão (Réo) e guitarra (o própro Kiko), além das strings do teclado (também de Zé Luiz).

Porém, na parte da final, ocorre a transposição dos vocais para a parte mais alta da tessitura. É quando a canção explode com guitarras distorcidas (em pelo menos dois canais) e o característico timbre agudo do cantor confessa: “Não me incomoda chorar quando a chuva começar / Todos os momentos que passamos / Sempre quero me lembrar / Quando tenho que esquecer / Mas o vento insiste em te trazer”.

Assim, a canção é marcada por uma interessante foria: o eu lírico vive um estado de disjunção afetiva, mas o seu /querer/ entende que a superação do relacionamento concluído requer, antes de mais nada, uma análise racional do mesmo: “Eu queria refletir calmamente em algum lugar / Todos os momentos que passamos”. Está fora de cogitação qualquer conjunção com pessoa (des)amada, bastando apenas sua passagem pela memória. Porém, ao se aproximar dessa lembrança, irrompe uma pletora de emoções desestabilizadoas que atiram o sujeito para longe desse exame equilibrado do passado. Daí o desespero na constatação de que “Sempre quero me lembrar / Quando tenho que esquecer / Mas o vento insiste em te trazer”


A canção foi relida pelo próprio Kiko Zambianchi em seu Acústico ao vivo (2013), com um arranjo próximo ao da versão original, embora com um andamento levemente mais acelerado:

Alguns anos antes, em 2007, a cantora Maria Eliza também apresentou uma releitura da canção, que inclusive intitula o álbum que a lançou. Nele, há duas versões da composição de Kiko: uma com arranjo semelhante ao original, outra arranjada para voz e piano. Confira essa(s) bela(s) homenagem(s):


Vasculhando meus cadernos antigos, encontrei o seguinte registro:

caderno-quadro-vivo.jpg

Sou eu tentando reproduzir a capa de Quadro vivo, dispondo a letra da canção abaixo. Uma cópia dessa pequena “arte” foi enviada para minha amiga Alice Ishida, uma pessoa muito bacana que conheci há mais de dez anos, e de quem infelizmente perdi o contato.

Muito bom quando o vento insiste em trazer coisas boas assim à memória!

4 comentários

  1. Jóia, Jóia, Jóia!!! Conhecí essa canção no final do ano de 2018,desde então…está sempre no meu playlist.

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    1. É uma canção da qual também não enjoo. Entra mês e sai mês, e lá está “Quadro Vivo” na minha lista.
      Tem mais Zambianchi no blog, dá um conferes!
      Grato pela visita.

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