23. Renato Braz: “Anabela”

No porto de Vila Velha
Vi Anabela chegar
Olho de chama de vela
Cabelo de velejar
Pele de fruta cabocla
Com a boca de cambucá
Seios de agulha de bússola
Na trilha do meu olhar
Fui ancorando nela
Naquela ponta de mar


Qual será o maior compositor da música popular brasileira? Chico? Gil, Caetano? Vinícius, Tom Jobim?

Às vezes me flagro pensando nessa questão, como se ela fosse importante. E quando alcanço uma resposta, a que chega mais perto de me satisfazer é: Paulo César Pinheiro. Acho impressionante que ainda não tenha aparecido nada dele neste blog!

Pois bem, antes tarde do que nunca. Trago, hoje, “Anabela”, composta por Paulinho e Mário Gil.

Conheci a canção num show belíssimo desse grande cantor que é Renato Braz, o paulista que é dono de uma das vozes mais lindas que já ouvi. Um timbre macio, límpido, capaz de atingir grandes alturas, dando a sensação de voo, de fluidez… Já vi por aí, também, a definição: uma mistura de Djavan com Milton Nascimento. Parece que o próprio músico rejeita essa comparação, mas não consigo pensar em descrição melhor que essa. Além de excelente cantor, Braz está quase sempre acompanhado de seu violão, azeitando seus shows com diversos números em que toca também percussão, do pandeiro ao berimbau.

E quando acontece a soma Paulo César Pinheiro + Renato Braz… não se pode esperar menos que obras primas.

renato-braz.jpg
Renato Braz, multi-instrumentista e dono de uma das vozes mais belas da MPB.

“Anabela” é uma narração de encontro seguido de perda. Assim, há certo toque trágico envolvendo os personagens da canção, já que o eu-lírico, primeiro, conhece e se encanta por Anabela, para depois sentir a dor de uma separação irreversível.

A letra, composta por versos em redondilha maior, tem duas características marcantes.

Primeiro, as metáforas envolvendo o mar, já que a narrativa se inicia no porto de Vila Velha. Assim, temos a descrição de Anabela, como portadora de “Olho de chama de vela / Cabelo de velejar” e “Seios de agulha de bússola / Na trilha do meu olhar”. O encontro e o desencontro com Anabela também são descritos em termos velejeiros: “Fui ancorando nela / Naquela ponta de mar” e, ao final da canção, “Eu que pensei que fazia / Daquele ventre meu cais / Só percebi meu naufrágio / Quando era tarde demais / Vi Anabela partindo / Pra não voltar nunca mais”.

Em segundo lugar, temos as aliterações com diferentes fonemas associados à letra “l”. Assim, temos Vila, Anabela, vela/veleiro/velejar, cabelo, cabocla, bússola, nela/naquela/daquele e pelo. De outro lado, Velha, olho/olhar, agulha e trilha. Aos poucos, aparecem aliterações também com a letra “m” (meu/mim, mãos, rodamoinho) até que, ao final triste da canção, já não se encontra mais esse tipo de recurso. Como se o encontro com Anabela, no início, fosse pura poesia, que cede à dura realidade da prosa com a disjunção amorosa.

A harmonia é simples, baseada no campo harmônico de Lá Maior. No entanto, de forma a acentuar os estados disfóricos que se prenunciam com a partida de Anabela, aparece o incrível acorde de Dmadd9 – cuja digitação é facilitada pela exótica afinação de violão proposta por Mário Gil, com o bordão Mi afinado em Ré, e a corda Sol afinada meio tom abaixo.


“Anabela” foi lançada no disco de estreia de Renato Braz, de 1996. No ano seguinte, Mário Gil integrou sua bela composição ao repertório do disco Contos do mar, formado por diversas canções com temática praiana (com grande influência da obra de Dorival Caymmi, penso eu), todas compostas com Paulo César Pinheiro. O arranjo é o mesmo que aparece no disco do Braz:

Mais recentemente, o próprio Renato releu “Anabela”, no álbum Saudade (2015). A nova versão é muito parecida com as anteriores, mas dessa vez o tempo é marcado por uma discreta percussão e há solos mais longos de oboé – o grande charme da canção. Confira:


Numa linha parecida com os textos deste blog, achei um depoimento muito legal sobre “Anabela”. Acesse aqui, no blog Bicho Esquisito.

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