25. Os Mutantes: “El Justiciero”

“Once upon a time when the hot sun
Was fading behind the mountains.
The shadow of a strong man
With a gun in his hand, raised to protect
The poor people of the haciendas
They called him, El Justiciero”
He, El Justiciero buenos dias
Que tienes a decir
El Justiciero yo soy pobre
Que tienes a me dar


Pode não ser minha banda favorita, mas não tenho dúvidas: Os Mutantes são o maior conjunto do rock nacional, e não estou receptível a argumentos contrários a isso. A banda tem seu mérito só pelo sucesso em se fazer conhecida por todo o mundo, como se não bastasse, apresentando composições que nada devem em relação àquelas de grandes figurões do rock, contemporâneos seus.

“El Justiciero” é uma das primeiras faixas que escutei do clássico álbum Jardim elétrico (1971). E, se introduzimos o “desbunde” como caminho político-estético neste blog, falando de Secos e Molhados, vamos agora até suas últimas consequências. A canção de hoje, como muitas outras do mesmo conjunto, é o suprassumo do deboche – mas com muita inteligência.

os-mutantes.jpg
O núcleo duro dos Mutantes (Rita Lee mais os irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Baptista): competência musical, criatividade e inteligência, numa embalagem de muito humor.

A obra A divina comédia dos Mutantes, de Carlos Calado (Rio de Janeiro: Editora 34, c1995) fala sobre o contexto em que surgiu “El Justiciero”. Os Mutantes viviam seu momento de maior projeção internacional, tendo alcançado Paris.

A segunda temporada na França não se resumiu apenas aos shows no Olympia. Aproveitando a permanência dos Mutantes na Europa, a Polydor britânica produziu um álbum com a banda, com boa parte das faixas cantadas em inglês. Os planos iniciais incluíam lançamento desse trabalho na Inglaterra e, posteriormente, na França.

Como a banda tocava seis noites por semana no teatro, a solução mais prática foi deslocar o inglês Carlos Olms, gerente do estúdio da Polydor londrina, e fazer o disco em Paris mesmo. As gravações aconteceram ao longo de uma semana, nos Studios Des Dames, contando com os técnicos Dominique Poncet e Philippe Lerichomme. Acostumados à liberdade que tiveram ao gravar seus três álbuns, pela primeira vez os Mutantes enfrentaram algumas restrições dentro de um estúdio. Apesar do relacionamento amigável com o exigente Olms, tiveram que engolir mais uma vez a sugestão de soar “mais brasileiros”.

Naturalmente, as canções que faziam parte do show no Olympia (Panis et Circensis, A Minha Menina, Bat Macumba, Adeus Maria Fulô, e Le Premier Bonheur du Jour) foram as primeiras escolhidas para o repertório do disco – as duas primeiras com letra em inglês. Três sucessos, gravados antes pela banda, também ganharam versões: Ando Meio Desligado (que virou I Feel a Little Spaced Out), Desculpe, Babe (Sorry Baby) e Baby (de Caetano Veloso). Além dessas, os Mutantes fizeram questão de incluir quatro inéditas: uma em portunhol (El Justiciero) e três em inglês (Technicolor, Virgínia e Saravah) (p. 244).

No fim das contas, o tal álbum franco-britânico, Tecnicolor, acabou engavetado. Lançado finalmente em 2000, numa versão remasterizada, adornou-se com artes de Sean Ono Lennon no encarte, além de uma luxuosa embalagem de papelão (com o título do disco em letras vazadas) envolvendo a caixinha do CD.

Mas várias de suas faixas acabariam vazando, ainda nos anos 1970, para Jardim elétrico, onde encontrariam o solo ideal para florescerem como grandes clássicos do rock brasileiro.

Assim, viemos a conhecer “El Justiciero”, em que banda emula um conjunto de mariachis. Há um climão de faroeste mexicano, garantido pela narração em um inglês carregado de sotaque castelhano, que abre a faixa. Daí em diante, são os irmãos Baptista e Rita Lee fingindo uma comovente dramaticidade (ouça o lamento de Rita na parte “El Justiciero, yo tengo 30 hijos con hambre” e tente não cair na gargalhada) e desfilando o mencionado portunhol na maior cara-de-pau. Gênios! E não esqueçamos de dar os créditos à excelente cozinha formada por Liminha e Dinho Leme, os pilares da engenhosidade desse período áureo da banda.


“El Justiciero” ganhou algumas releituras que vale a pena destacar.

Ney Matogrosso acabou sendo o escolhido para defendê-la no tributo O triângulo sem bermudas (1996) – cujo título até tenta soar engraçadinho, mas não chega nem a triscar o humor refinado e sutil dos homenageados. Como de costume nas interpretações de Ney, “El Justiciero” é relida em clima de pura latinidade e de forma ainda mais dramática:

Devo confessar que prefiro a original, em relação ao estilo meio overacted do cantor dos Secos e Molhados. Mesmo assim, a versão vale pelo registro da canção em uma voz grandiosa, embora à custa do seu lado mais cômico e cinematográfico.

Uma versão que me agrada mais é a da banda Black Maria, que conheci por acaso, por volta de 2000, assistindo ao nostálgico programa Turma da cultura (uma espécie de Matéria-prima ou Programa livre em versão adolescente, numa época em que Serginho Groisman ameaçava, perigosamente, caminhar para o ostracismo). Confira essa bacana cover, com um jeitão meio ska, no disco Demorô (2000), a partir do momento 25’38”:

Por fim, há o tributo El Justiciero Cha Cha Cha: un tributo a Os Mutantes, que apresenta diversos artistas latino-americanos fazendo recriações do cancioneiro mutante. É lógico que “El Justiciero” estaria presente, sendo cantada por Ommar Gianmarco, que chega a corrigir o “chocolate quiente” por “chocolate caliente”, e propõe novas ambiências instrumentais para a canção. Ouça:


Em 2003, tive uma oportunidade única: assisti a um intimista show acústico de Sérgio Dias, no Sesc em São Carlos. Muito marcante! Foi nesse dia que revi uma colega da 2ª série (e com quem dancei quadrilha naquela época!), Natália. Não nos encontrávamos desde, praticamente, aqueles momentos do ensino fundamental. (Muitos anos mais tarde, ela viria a frequentar minhas aulas de yoga, no CAASO, quando descobrimos ter bons amigos em comum). Lembro nitidamente da garota com os olhos escorrendo em lágrimas quando “El Justiciero” foi apresentada ao vivo, ali, na nossa frente – incrivelmente, a plateia estava relativamente vazia, e estávamos encostados ao palco.

Quando findou o show, roubei um dos papeis de “cola” de Sérgio Dias e pedi um autógrafo. E adivinhem… qual era a canção da cola?

el-justiciero.jpg
Sérgio Dias mandou “um beijão” pra mim… muito legal mesmo!

1 comentário

  1. O humor debochado da banda era muito bom,depois que Rita-Lee saiu,os irmãos tentaram fazer um som sério demais,segundo palavras da própria.

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