28. Gonzaguinha: “Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)”

Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura


A ideologia é capaz de façanhas que, se não são admiráveis, ao menos dão o que pensar. Como um homem tão talentoso, como o era Gonzaguinha, poderia ser resumido à terrível alcunha de “cantor rancor”? Pois por trás da crítica social pra lá de corajosa à ditadura civil-militar brasileira, havia um compositor com uma sensibilidade ímpar, capaz de criar obras diretas mas, nem por isso, menos capazes de emocionar e de traduzir o desespero de uma vida que aspira a uma liberdade sempre postergada, sempre futura.

“Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)” é uma dessas canções, e que se mantém mais atual do que nunca. A harmonia, em tom menor, reforça o caráter lamentoso dessa obra, que alinha todo um conjunto de angústias masculinas, justificando o verso introdutório: “Um homem também chora”. Nada mal para quem era filho de um típico “cabra macho” como Luiz Gonzaga.

Quando ouço “Guerreiro Menino”, passam diversas imagens em minha cabeça. Toca-me muito a parte que fala do trabalho: “Um homem se humilha / Se castram seu sonho / Seu sonho é sua vida / E a vida é trabalho / E sem o seu trabalho / Um homem não tem honra / E sem a sua honra / Se morre, se mata”. Gonzaguinha acerta em cheio nessa crítica à desumanização do homem contemporâneo, operando um verdadeiro milagre poético ao partir do sonho, passar pela vida, pelo trabalho e pela honra (todos eles, negados), para chegar à inevitável morte. Pois é pelo trabalho que os homens se fazem homens: trabalho é práxis (unidade teórico-prática), a atividade que diferencia os homens dos animais inferiores. E quantas pessoas não vemos, por aí, animalizadas, destituídas do bem maior que é a humanidade…

Gonzaguinha também aborda outra dor que sofrem os homens: a necessidade constante de (re)afirmação da hombridade. Ande por qualquer centro urbano e procure observar as logomarcas das academias de musculação, o templo pós-moderno da masculinidade afetada: são nomes que berram pela necessidade de suportar pesos desnecessários (coisas tipo Max force, Power gym… sei lá, estou inventando, mas certamente há academias com esses nomes!), em tipografias que também pesam aos olhos, com mascotes horripilantemente antropomorfizados – buldogues cheios de músculos, gorilas trincados, águias com olhar ameaçador… E nas mesmas cidades, os carros e motos espalhando altos decibéis, a igualmente altas velocidades, a troco… de nada. As conversas fúteis sobre motores e futebol, as competições sobre quem é o mais pegador, o mais ameaçador, o mais invencível…

Será que tudo isso não está relacionado com o altíssimo grau de instabilidade emocional que acomete os homens de hoje em dia? Será que essa necessidade de se portar como “o macho alfa” não tem gerado toda sorte de doenças psíquicas, que só são aliviadas mediante explosões de violência (geralmente dirigidas contra as mulheres), por sufocarem outros aspectos da individualidade que são, digamos, menos masculinos?

Gonzaguinha vai direto ao ponto: “É triste ver este homem / Guerreiro menino / Com a barra de seu tempo / Por sobre seus ombros / Eu vejo que ele berra / Eu vejo que ele sangra / A dor que traz no peito / Pois ama e ama”.

Pois um magrelo comunista, ao apontar que ninguém é menos macho (nem menos guerreiro) quando se mostra frágil e quer carinho e ternura, acabou sendo mais homem que muito valentão armado por aí – estes sim, frágeis vítimas da bestialização da vida moderna, verdadeiros meninos que ainda têm muito o que crescer.

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Gonzaguinha: por trás do “cantor rancor”, um homem sensível e sem nenhuma vergonha de ser feliz.

“Guerreiro Menino” foi lançada no disco Alô, alô Brasil, 1983. No entanto, a canção estouraria mesmo na voz de Fagner, no disco Palavra de amor, ainda no mesmo ano. Há um depoimento interessante (extraído de uma matéria do Cliquemusic), do cantor cearense, sobre essa que foi quase uma parceria sua com Gonzaguinha:

Eu e Gonzaguinha éramos compadres. Sou padrinho da Mariana, filha dele. Ele vinha muito à minha casa e a gente brigava muito porque ele era cabeça dura e eu também. Entre as músicas que gravei dele, Guerreiro menino tem uma história muito curiosa. Nós íamos fazer uma parceria. Passei alguma coisa da intenção da música para ele e dias depois nós íamos completá-la. Preparei o clima da melodia e da harmonia e ele me surpreendeu mandando a música pronta, sozinho. Mas ficou tudo bem porque ele é craque. Acontece que há no meio disso um episódio fantástico. Quem estava produzindo meu disco era o Mariozinho Rocha. Ele chegou aqui em casa para a gente trabalhar e falou: “O Gonzaguinha mandou uma música pra você.” E eu falei: “E aí, como é que ela é?” E ele respondeu: “Ah! É uma música feita nas coxas. Não vale a pena!” Não me conformei e quis ouvi-la. Botamos no meu som. Conforme fui ouvindo, comecei a chorar e ele ficou com cara de panaca. E não só eu a gravei como foi o carro-chefe do disco.

Na voz de Fagner, é possível encontrar diversas versões por aí. A releitura oficial está no Fagner ao vivo (2000), com arranjo idêntico ao de 1983. Pelo menos, os timbres dos instrumentos não estão contaminados pela produção oitentista, por isso gosto bastante dessa versão (e do disco todo, na verdade, que roubei de minha mãe). Gosto também de ouvir a plateia cantando junto:

Em 2015, a EMI lançou um projeto com legítima cara de caça-níquel, mas que se mostrou ao menos curioso: o disco Gonzaguinha presente, que apresenta novas versões para gravações antigas, na forma de duetos com gente do quilate de Gilberto Gil e Alcione. “Guerreiro Menino” recebeu um bonito arranjo, baseado em dedilhados ao violão, e o dueto foi proposto com Zeca Baleiro – cujo timbre grave acabou gerando um interessante contraste com a voz aguda do filho de Gonzagão:


Todas essas versões são bacanas mas, para mim, nada supera o que Gabriel O Pensador fez com “Guerreiro Menino”, no disco Nádegas a declarar (1999). Ali, o rapper carioca não apenas sampleia a canção de Gonzaguinha, mas como que a expande e a atualiza, na faixa intitulada “Não Dá Pra Ser Feliz (Guerreiro Menino)”. O mote da nova letra é a supracitada parte sobre o trabalho, donde Gabriel esculpe os versos: “Entregue à própria sorte, nessa selva, onde a lei é a do mais forte, indefeso, carregando todo o peso / O homem não consegue suportar / Não sabe como lidar com a vida que a vida lhe dá / Está de mãos e pés atados, incapacitado de fazer o que é capaz / Jaz morto-vivo no mundo / Reduzido a vagabundo / Sem poder sorrir, sem poder sonhar, sem poder, / Sempre no mesmo lugar / Sem trabalho, sem sustento, sem moral / Rendido, ao relento, feito um animal”. Gabriel é gênio… preste atenção:

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