29. Beto Guedes: “Pela Claridade Da Nossa Casa”

Atirar na fonte
A pedra do reino, atirar
Pela claridade da nossa casa
Vem procurar
Um lugar aonde há gente pra se alimentar
Bastaria a terra
A calma de ribeirão
É tudo ser
E é nada não


Em 2012, o álbum Clube da esquina, assinado por Milton Nascimento e Lô Borges, comemorou 40 anos. Em São Carlos houve um inesquecível show do Lô no Sesc e, no dia seguinte, ele tocou em Araraquara – o que só fiquei sabendo depois, para minha decepção, pois adoraria repetir a dose.

A questão é que o Sesc de Araraquara projetou uma espécie de festival para comemorar as quatro décadas desse clássico da MPB. Assim, a cada mês, um artista diferente se apresentaria na Série Minas – Os sonhos não envelhecem. Foi tudo tão caprichado que houve a até preparação de uma espécie de encarte de CD, aberto com um texto de Márcio Borges, e com informações sobre todos os artistas que se apresentariam.

serie-minas

Lô tocou em março, Beto Guedes em abril e o 14 Bis em maio. Consegui estar presente nesses dois últimos, e a estorinha de hoje é sobre o show do Beto.

Àquela época, minha querida amiga Carol Veloso acabara de se mudar para o Rio Grande do Sul para cursar FURG. Fiquei contente pelo sucesso dela no vestibular, mas era uma pena que não teríamos mais a Carolzinha em São Carlos… E qual não foi a minha surpresa quando soube que ela conseguiria vir passar uma semaninha conosco, em abril. Carol voltara já com uma programação em mente: no dia 07/04, seu primo, Rodrigo “Montanha” (velho conhecido meu desde os tempos do ensino fundamental), tocaria numa noite heavy-metal em um bar araraquarense. Àquela altura, eu já estava super ligado na Série Minas e pronto para ir ao show do Beto Guedes que, coincidentemente, seria no mesmo dia. Pronto, fechamos nosso rolê: primeiro o mineiro, depois a pauleira!

Assim, pegamos um ônibus para Araraquara e, ás 20h, estávamos no Sesc. Minha única crítica ao festival é que, em todos os espetáculos, o público precisava ficar sentado. De qualquer maneira, foi um belo show, do qual guardo ótimas recordações. E guardo também o folhetinho com o repertório, que era distribuído antes de cada espetáculo dessa Série Minas:

repertorio-beto-guedes.jpg

Lembro, por exemplo, que ao final do segundo número, sussurrei pra Carol: “Nossa, que música forte!”… Era “Pela Claridade Da Nossa Casa”, como se vê na imagem acima.

E depois de duas horas de manhãs de sol, primaveras, céus de janeiro, amores de índio… lá estávamos nós no Iron Maiden Cover, após uma carona providencial (que não lembro como conseguimos). É verdade que, àquela época, eu já não estava na vibe do metal, mas minha então longa cabeleira ajudou que me misturasse aos headbangers naquele bar super underground. Após mais algumas horas de bateção de cabeça, voltamos para São Carlos às seis da manhã do dia seguinte, na van que transportou a banda do Montanha.

Sou muito grato por essa noite inesquecível. Anos depois, lembrei desse momento com a Carol e fiquei muito contente ao ouvir dela o seguinte: “Bah, pois é, foi um dia incrível, deu saudades!”.

beto-serie-minas0002.jpg


“Pela Claridade Da Nossa Casa” está no álbum Sol de primavera (1979) e foi composta por Beto, Márcio Borges e Murilo Antunes. A canção é uma balada levemente influenciada pelo rock progressivo, mas com fórmula de compasso (4/4) e harmonia relativamente acessíveis. Há duas participações luxuosas na instrumentação: Danilo Caymmi toca lindos fraseados de flauta, e Wagner Tiso pilota os teclados.

beto guedes
Beto Guedes, criador de algumas das mais lindas canções da MPB, e um apaixonado por instrumentos. Músico de verdade!

Os acordes são baseados nas tétrades de Sol Menor e são apenas seis, de acordo com o Songbook Beto Guedes: Cm9, E♭maj7, E♭maj7/G, E♭maj7/B♭, Gm7 e Am7b5. Observe a presença do baixo pedal alterando E♭maj7 (baixo em Sol e em Si Bemol): inicialmente, supus que fossem esses os elementos que marcam a presença de um hibridismo tonal/modal na composição, como aponta o artigo de Carlos R. F. de Menezes Júnior e Marco A. S. Ramos (A ocorrência do hibridismo tonal/modal e do modalismo misto no repertório do Clube da Esquina nos anos de 1967 à 1979. In: Anais da 3ª Jornada Acadêmica Discente do Programa de Pós-Graduação em Música ECA/USP, 2015, São Paulo). Na verdade, o Carlos entrou em contato comigo e mandou a seguinte explicação, que achei bastante esclarecedora – uma verdadeira aula sobre harmonia:

Quanto à questão do hibridismo tonal/modal nesta canção do Beto Guedes, podemos dizer que se caracteriza pelo fato de remeter na sua construção harmônica e melódica ao ambiente tonal de Sol Menor, porém, sem caracterizar a sonoridade tonal de forma determinante, pois não apresenta em nenhum momento o acorde de Dominante (V7), com a sétima alterada meio tom acima (nota Fá#, chamada de nota Sensível, gerando a escala menor harmônica). A ausência dessa nota e do acorde V7 provoca um afastamento da sonoridade tonal e a aproximação da sonoridade modal (modo eólio).

Porém, a presença do Am7b5 (IIm7b5) faz aparecer um trítono que remete a um tipo de tensionamento muito explorado no ambiente tonal e evitado no ambiente modal. Assim, principalmente pela construção harmônica, percebe-se que a música remete a um certo hibridismo tonal/modal.

O Beto Guedes comumente explora este tipo de sonoridade harmônica híbrida tonal/modal por esse viés, porém, existem outras formas de exploração do hibridismo modal/tonal no repertório do Clube da Esquina, manipulando outros elementos da estruturação musical. Esse tipo de assunto tem a ver com o estudo da harmonia tonal e da harmonia modal em música popular.

Já a letra fala sobre a “claridade da nossa casa”, sobre cultivar a terra e sobre a “qualidade da nossa geração”. Mais Beto Guedes, impossível. No entanto, parece permear a obra um misto de melancolia e inquietude, delineadas pela melodia. Isso fica bastante evidente nas versões ao vivo, como a que Beto executou naquele show em Araraquara, muito parecida com o registro abaixo:

Essa impressão não passou batida pelos espectadores… vejamos os comentários ao vídeo acima:

comentarios-pela-claridade.jpg

Dizer que “Pela Claridade” é uma canção “maravilhosamente trágica” é acertar em cheio! Mas não concordo com o comentário de que essa performance seja lamentável. O fato é que Beto Guedes, apesar de tantos anos de estrada, mal consegue disfarçar sua timidez no palco. Se fosse um artista mais desenvolto, talvez suas apresentações fossem marcadas por, pelo menos, um melhor desempenho vocal. Mesmo assim, gosto desse seu temperamento discreto, que talvez faça de Beto o mais mineiro de todos os membros do Clube da Esquina.


Almas caridosas salvaram alguns vídeos daquele show em Araraquara. Abaixo, a apresentação de uma outra favorita minha tocada naquele dia, “Maria Solidária”:

3 comentários

    1. Ademar, acabei de fazer uma atualização no post, acrescentando informações que um dos autores mencionados, o Carlos R. F. de Menezes Júnior, me passou por e-mail. Dá um conferes!
      Grato por todos os comentários!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s