30. Martinho da Vila: “Onde O Brasil Aprendeu A Liberdade”

Aprendeu-se a liberdade
Combatendo em Guararapes
Entre flechas e tacapes
Facas, fuzis e canhões
Brasileiros irmanados
Sem senhores, sem senzala
E a Senhora dos Prazeres
Transformando pedra em bala
Bom Nassau já foi embora
Fez-se a revolução
E a festa da Pitomba
É a reconstituição


Martinho da Vila é um dos maiores nomes da música brasileira, e não apenas por conta de seus inúmeros sucessos, como “Disritmia” e “Madalena do Jucu”. Para além do êxito radiofônico inconteste, esse vascaíno nascido em Duas Barras (RJ) é exata definição de um artista completo, multifacetado, intelectual: cantor, compositor, escritor e militante político. Como se não bastasse, Martinho é um pesquisador de ritmos e seus discos incluem não apenas sambas, mas exploram outras fórmulas como o côco, o samba enredo, a capoeira, a ciranda, o partido alto e mesmo a bossa nova. (Para um compilado de informações sobre Martinho, com um resumo de sua obra, acesse o portal Literafro, da UFMG).

Uma das mostras dessa intelectualidade refinada está no clássico “Onde O Brasil Aprendeu A Liberdade”, que foi samba enredo da Vila Isabel em 1972. A canção faz um relato sobre a Batalha dos Guararapes (1648-1649), uma das mais poderosas insurreições do povo pernambucano contra as invasões holandesas. Estabelecida em dois confrontos (um em 1648 e outro no ano seguinte), a Batalha ficou notória por reunir, em uma mesma frente, brancos, negros e indígenas, tornando-se um símbolo das possibilidades para a paz e a comunhão entre as três grandes raças que compõem o Brasil.

O trabalho de Rangel e Felix (Martinho da Vila: um griot na pós-modernidade. In: XIX Congresso Nacional de Linguística e Filologia, 2015, Rio de Janeiro) estabelece uma analogia entre o caráter narrativo de certas composições de Martinho – em especial, a que estamos tratando hoje – e a atuação dos chamados griots, algo como trovadores africanos que, com sua arte, narravam e reconstituíam eventos históricos antigos, preservando os fatos passados com base na oralidade.

Em um Brasil que custa a aceitar a contribuição dos povos negros para a formação de nossa nação, a obra de Martinho se torna ainda mais imprescindível. Segundo os autores,

Martinho da vila age como mediador entre a verdadeira história do negro e sociedade, e é nessa prática dialógica que ele se torna um griot da tradição e história cultural. Ao estabelecer um diálogo entre sua experiência pessoal e a sociedade, Martinho, como contador de história, estabelece um jogo com os ouvintes, em que sua presença é marcada por sua voz e também pela sua performance, que envolve ritmo, gestos, entonação etc. (p. 334).

Mais algumas palavras dos autores, já nas considerações finais de seu trabalho:

A cultura brasileira com contribuição africana se materializa na voz de Martinho, que passa a ocupar a posição de griot na pós-modernidade, resgatando as lembranças, através de suas letras, performance e melodia. De maneira que, com uma linguagem simples nas composições, o artista proporciona a reafirmação da identidade de um grupo. […]
Ao comentar sobre o griot africano e do passado, neste trabalho, pensa-se no ato de narrar, através da oralidade, passada de geração a geração, em que a memória coletiva tem um papel importante nesse processo sócio-político.
Martinho da Vila, o compositor em estudo, é comparado a um novo griot, que, como no passado, utiliza-se da sua voz para narrar a história e as tradições culturais de um povo, e assim, permitir aos ouvintes que reafirmem sua identidade. E o artista se torna um porta voz dos que são silenciados pela máquina do poder, uma vez que o narrador se apropria de suas experiências pessoais e coletivas e assume uma postura sócio-política (p. 338).

martinho-da-vila.jpg
Martinho da Vila, griot na pós-modernidade, resgatando e defendendo a cultura negra na música popular brasileira.

Além de sua importância narrativa, “Onde O Brasil Aprendeu A Liberdade” enumera um amplo conjunto de tradições culturais muito fortes no Norte e no Nordeste: maracatu, bumba-meu-boi, vaquejada, fandango, maculelê e marujada. O trabalho que citamos acima traz breves descrições dessas manifestações folclóricas – cá entre nós, muito pouco conhecidas por quem mora aqui no estado de São Paulo, principalmente nos grandes centros urbanos.

O mais impressionante, para mim, é a forma como Martinho se apropria de um famoso canto – aparentemente de domínio público – e o insere como refrão da canção: “Cirandeiro, cirandeiro / Sua hora é chegada / Vem cantar esta ciranda / Pois a roda está formada / Cirandeiro / Cirandeiro, ó / A pedra do seu anel / Brilha mais do que o sol”. A mesma cantiga já havia sido incorporada a “Cirandeiro”, de Edu Lobo e Capinam (muito conhecida numa versão meio marcha-rancho, com um belo dueto entre Maria Bethânia e o próprio Edu Lobo).

Mas qual a relação entre o “cirandeiro” e a famosa batalha pernambucana? Um post no Acervo origens nos responde:

O Mestre Baracho da Ciranda, cujo nome era Antônio Baracho da Silva, nasceu em Nazaré da Mata, em Pernambuco. Ainda muito pequeno, mudou-se para Abreu e Lima, onde passou a maior parte da vida. Foi um grande compositor de cirandas, e foi também Mestre de Maracatu. Como nunca se preocupou com os registros legais da autoria, várias de suas composições foram gravadas por outros artistas, sem menção à sua autoria. A autoria da famosa Lia de Itamaracá, cujos versos são os mais conhecidos da ciranda (Essa ciranda quem me deu foi Lia / Que mora na ilha / de Itamaracá) é objeto de pendengas e brigas entre Baracho, seus descendentes, a própria Lia de Itamaracá e Teca Calazans.  Também é atribuída a Baracho a autoria dos versos “Ó cirandeiro, cirandeiro ó, a pedra do seu anel / brilha mais do que o sol”, que foram utilizados na música “Cirandeiro”, de Edu Lobo e Capinam, sem que Baracho fosse citado como autor. Ele faleceu em 1988, aos 81 anos, de câncer na garganta, em decorrência de anos fumando.

Há também quem sugira que os versos sobre o cirandeiro provenham de um antigo ponto de umbanda, batucado para convidar à gira os ciganos (sobre o assunto, sugiro a leitura do livro A linha do oriente na umbanda, de Lurdes de Campos Vieira e Alberto Marsicano, pela editora Madras). Algo mais ou menos assim:


Existem ótimas versões de “Onde O Brasil Aprendeu A Liberdade”.

Martinho registrou uma releitura em uma coletânea de enredos da Vila, em 1993. Gosto muito dela:

A canção também fica incrível na voz da grande Beth Carvalho, com participação do próprio Martinho:

Por fim, destaco a versão presente no disco Aula de samba: a história do Brasil através do samba-enredo, lançado pela Biscoito Fino em 2008. Quem defende o samba de Martinho é ninguém menos que o recifense Lenine. Ouça “Onde O Brasil Aprendeu A Liberdade” com o gostoso sotaque pernambucano e uma homenagem ao Mestre Baracho, com uma citação à “Lia De Itamaracá”:

5 comentários

  1. Não conhecia a canção de Martinho da Vila,muito boa,e o texto como sempre uma maravilha,informativo e muito bem escrito.

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