32. RPM: “Alvorada Voraz”

Na virada do século
Alvorada voraz
Nos aguardam exércitos  
Que nos guardam da paz (que paz?)
A face do mal, um grito de horror
Um fato normal, um êxtase de dor
E medo de tudo
Medo do nada
Medo da vida
Assim, engatilhada


Em 1985, uma banda paulista estourava: o RPM. A fórmula de suas canções nada se assemelhava ao que seus congêneres faziam à época – dificilmente capazes de ir além do punk ou da pasteurizada new wave. Eram refrães fortes, explosivos, falando em revoluções, guerras, medos, sob pesadas atmosferas de teclados. Tudo bem, não era exatamente uma ruptura com o punk e a new wave… mas acenava-se para algo além da escuridão gótica dos anos 1980, como a psicodelia progressiva do Pink Floyd (que era uma espécie de banda-palavrão, à época) e a MPB (“A Cruz E A Espada” talvez seja primeira bossa do BRock).

Com diversos sucessos radiofônicos, o álbum de estreia da banda consolidava Paulo Ricardo como cantor, compositor e sex symbol, e ganhou a estrada com uma turnê megalomaníaca. A produção dos shows ficou a cargo do já experiente Ney Matogrosso – um especialista em exuberância e descomedimento em palco -, que sugeriu que aquele enérgico espetáculo de sons e luzes tivesse seu momento intimista, como a bonança que se segue à tempestade, para novamente ceder lugar à potência audiovisual.

Assim, entrou no repertório uma versão piano e voz de “London, London”, clássico que Caetano Veloso compôs em seu exílio. Ironicamente, a banda que cantava “Rádio Pirata” teve os shows dessa turnê pirateados em fitas cassete, que logo estavam frequentando as FMs. “London, London” já era a canção não oficial mais tocada no país. Ou melhor, era a canção mais tocada no país! Como aproveitar esse sucesso inesperado? Para continuar o relato, trago um parágrafo da obra Dias de luta: o rock e o Brasil dos anos 80, de Ricardo Alexandre (2ª ed. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2013):

A solução óbvia seria lançar um single ou um EP com as músicas inéditas do show. “Só que não existia mais single no Brasil”, lembra Paulo Ricardo. “Era algo fora de cogitação, não era mais uma realidade. Tem coisas no Brasil que são assim, a vitória da burrice sobre o esclarecimento. A indústria decidiu encerrar o formato, o que se haveria de fazer? Por outro lado, os Mini LPs da EMI eram vendidos a preço de LP pelos lojistas. Acho uma sacanagem cobrar por um disco de seis músicas o preço de um de 12. Eu jamais faria isso.” A cada hora passada, “London, London” trazia mais datas para [o empresário] Manoel Poladian, enquanto a CBS e o RPM perdiam mais dinheiro. De comum acordo, tomaram uma decisão radical: um segundo LP, pouco mais de um ano após a estreia, gravado ao vivo. “Inicialmente, pensamos em registrar ‘London, London’ em estúdio e enxertá-la em Revoluções por minuto, como uma faixa-bónus”, lembra o diretor-artístico da CBS, Marcos Maynard. “Mas os 400 mil que já haviam comprado o disco ficariam putos com isso. Foi uma ideia do Poladian registrar o show, gravar um LP ao vivo. Levei essa sugestão para o pessoal da CBS, para a banda, e todos concordamos que seria o melhor. O que fizemos foi simplesmente trocar um disco de estúdio por um ao vivo praticamente igual – chegamos a tirar o Revoluções por minuto de catálogo para que isso ficasse claro.” (p. 279).

E assim o Brasil se tornou pioneiro em uma prática inacreditável para uma banda de rock: após um LP de estreia, um segundo álbum ao vivo.

O resultado? Sucesso estrondoso,  a rivalizar com a beatlemania.

rpm
RPM: arautos do apocalipse pós-moderno… ou o primeiro fenômeno de massas da música brasileira?

O álbum Rádio pirata ao vivo, de 1986, traz boa parte do repertório de seu antecessor, mas inclui, além de “London, London”, algumas faixas inéditas. “Alvorada Voraz” é uma delas, tendo sido composta por Paulo Ricardo, o tecladista Luiz Schiavon e o baterista Paulo P. A. Pagni.

A voz da canção pertence a um outsider que descreve um cenário tenebroso e apocalíptico, à virada do século. Bom, já estamos ao fim da aurora de um novo século e o mesmo cenário permanece. Assim, a letra fala em exércitos/fardas/força, horror/dor, medo, farsas/armações/escândalos, fogo, corte, revólver… E o cidadão, imobilizado, assiste a tudo “como num clip de ação”.

É curioso que, sob acordes vigorosos nos teclados, lembrando a dramaticidade épica das óperas, seja declamada uma poesia punk, desesperançada, niilista. E quando digo poesia, não é à toa: “Alvorada Voraz” reúne alguns dos melhores versos aliterantes do rock nacional – aliás, aliterações que já começam no próprio título da canção. Vejamos alguns fragmentos:

“Fardas e força / Forjam as armações / Farsas e jogos / Armas de fogo / Um corte exposto / Em seu rosto, amor, e eu / Nesse mundo assim / Vendo esse filme passar / Assistindo ao fim / Vendo o meu tempo passar […] O escândalo das joias / E um contrabando,  / E um bando de gente importante envolvida / E juram que não / Corrompem ninguém / Agem assim / Pro seu próprio bem / São tão legais / Foras-da-lei / Pensam que sabem de tudo / O que eu não sei, eu sei!”

Acima, observe que aqueles que “São tão legais / Foras-da-lei” estão tão impunes que escapam até à “lei da aliteração” dos versos ao redor. Terá sido proposital?


A letra de “Alvorada Voraz” traz alguns instantâneos da corrupção à época da juventude de seus compositores, mencionando “O caso Morel / O crime da mala / Coroa Brastel  / O escândalo das joias”. Assim dispostos, esses escândalos soam orgânicos na letra. Não parecem datados.

Anos mais tarde, a banda releu “Alvorada Voraz” em seu celebrado retorno, com o álbum (novamente ao vivo) MTV RPM 2002, atualizando a letra com escândalos mais recentes. Penso que, paradoxalmente, essa renovação tornou os versos obsoletos, antiquados, com as menções a “O caso Sudam, / Maluf,  Lalau, / Barbalho, Sarney, / E quem paga o jornal / É a propaganda, / Pois nesse país / É o dinheiro que manda”. Até as aliterações, aqui, perdem a força.

A produção desse show – à época, aguardado com entusiasmo – também não colaborou, jamais chegando perto da potência sonora registrada em Rádio pirata ao vivo. Mas vale um conferes nessa versão, orquestrada e praticamente acústica:

Paulo Maluf, citado na regravação, chegou a mover uma ação contra a banda. Foi derrotado nos tribunais, com base no preceito constitucional da liberdade de expressão.

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