33. Baden│Vinicius: “Canto De Iemanjá”

Iemanjá, Iemanjá
Iemanjá é dona Janaína que vem
Iemanjá, Iemanjá
Iemanjá é muita tristeza que vem
Vem do luar no céu
Vem do luar
No mar coberto de flor, meu bem
De Iemanjá
De Iemanjá a cantar o amor
E a se mirar
Na lua triste no céu, meu bem
Triste no mar


Como dizia o grande Dorival Caymmi, “Dia dois de fevereiro / Dia de festa no mar / Eu quero ser o primeiro / A saudar Yemanjá”! E vamos saudar a Rainha das Águas, hoje, que é Seu dia. Aliás, pensei mesmo em escolher “Dois De Fevereiro” para abordar hoje, mas vou deixar o(s) Caymmi(s) para outra(s) oportunidade(s), e falar sobre outra ode maravilhosa a Dona Janaína: o “Canto De Iemanjá”.

Novamente, este post não precisa se perder em histórias sobre os artistas homenageados, nem sobre o disco que abriga a canção tematizada. Muito já se falou sobre esse que é um dos maiores álbuns de todos os tempos, Os afro-sambas (1966) de Vinícius de Moraes e Baden Powell, com arranjos do maestro Guerra-Peixe.

Existe um texto comemorativo aos 50 anos do álbum, escrito por Ramiro Zwetsch e publicado no portal Radiola urbana. Se você não conhece Os afro-sambas – e vou fingir que não ligo para tamanha heresia! –, seria bom ouvir o álbum, ler esse texto e depois retornar aqui. (Tem também um ótimo texto do sempre competente Silvio Essinger, no caderno de Cultura do O GloboNão deixe de ler).


“Canto De Iemanjá” é um dos tantos “cantos” que Vinícius dedicou aos orixás, em sua carreira. No mesmo Afro-sambas, temos ainda os cantos a Ossanha (Ossaim) e a Xangô; já em parceria com Toquinho, o Poetinha apresentou os cantos a Oxum e a Oxalufã (Oxalá em seu aspecto mais sábio e idoso); e há ainda um pouco conhecido “Canto A Yansan” (Iansã), que é de Baden com Ildasio Tavares, sem a parceria com Vinícius.

Ainda, “Canto De Iemanjá” integra o setor “aquático” dos Afro-sambas, ao lado da faixa que o antecede, “Bocoché” – também uma homenagem a Iemanjá e, presumo, a Oxum (com a saudação Òóré Yéyé ó transliterada para “nhém-nhém-nhém”, o que também ocorre no “Canto De Oxum”).

Aqui, vou me ater aos comentários acadêmicos à obra de Baden e Vinícius.

baden-vinicius
Baden e Vinícius, os criadores dessa obra magnífica que são os afro-sambas, até hoje envoltos em estórias, mistérios e mitologias.

Kuehn, no trabalho “Estudo sobre os elementos afro-brasileiros do candomblé em letra e música de Vinícius de Moraes e Baden Powell: os ‘Afro-sambas’” (In: Anais do 3º Colóquio de Pesquisa em Música, 2014, Rio de Janeiro), dedica uma seção inteira a cada faixa do disco, e vejamos o que o autor afirma sobre o “Canto De Iemanjá”:

Tom: Ré menor. Compasso: composto. Ritmo: inspirado em toques do candomblé. Forma: A-A-B-A. Duração da faixa: 4:49.

Nesta faixa, trata-se de uma cantilena que evoca a imagem de Iemanjá musicalmente. Sendo Iemanjá a mãe de todos os demais orixás, rege também a maternidade. Iemanjá é a orixá das águas salgadas (na África, também das águas doces). Muito popular em todo o Brasil, o culto a Iemanjá se separou dos terreiros, podendo ser facilmente encontrado em local e tempo distantes destes (como na virada do ano).

Nas lendas, Iemanjá costuma seduzir e/ou confundir sua(s) vítima(s) através dos sentidos, arrastando-o(s) para as profundezas do mar. No sincretismo da umbanda, corresponde à imagem da Nossa Senhora (ou Virgem Maria). […]

Arranjo e instrumentação suscitam a imagem mítica de uma sereia, cujo canto tem o poder de hipnotizar. Seu efeito pode ser comparado com o de um poderoso sonífero, capaz de vencer os mortais, como ocorre no épico de Homero. Ademais, destacam-se no arranjo de Guerra-Peixe:

  • a nota pedal no grave, executada pelos saxofones;
  • e a riqueza rítmica da percussão, sobretudo do agogô, do sino e do berimbau (p. 15).

Nada mais a acrescentar! Ou melhor, muito a acrescentar. E trago aqui, para essa finalidade, alguns excertos da belíssima dissertação de mestrado de Isabela Morais, defendida no programa de Ciências Sociais da Faculdade de Ciências e Letras (FCL-Unesp/Araraquara), intitulada É, não sou: ensaios sobre os afro-sambas no tempo e no espaço (2013). Em seu ensaio sobre a canção de hoje, a autora já reconhece uma interessante ambiguidade no título da obra:

“Canto de Iemanjá”, a última faixa do lado A [de Os afro-sambas], trabalha com a polissemia já no seu título que tanto pode se referir a um canto em louvor à orixá mais popular do Brasil, ao lado de Xangô, como pode se referir ao próprio canto da orixá, numa aproximação com outra simbologia que ao longo das releituras, apropriações e sincretismos feitos da divindade africana no Novo Mundo foram feitas: a Iemanjá como sereia (p. 142).

De fato, a identidade entre o “Canto De Iemanjá” e um canto de sereia já fora proposta no fragmento transcrito do trabalho de Kuehn. Observe que a canção é conduzida por um revezamento de vozes masculina (Vinícius) e femininas (Dulce Nunes/Quarteto em Cy). Estas, parecem justamente emular a suave e sedutora voz de uma sirena, uma deusa das águas.

É interessantíssimo, também, o perfil melódico da canção (observe as figuras dispostas na dissertação de Morais, entre as páginas 142 e 152, dedicadas à canção). A melodia traça, verdadeira e geometricamente, uma onda quase perfeitamente sinoidal, daí a sensação hipnótica, quase nauseante, que a canção transmite. Como que transladando o ouvinte para o alto-mar, a calunga grande, morada de Iemanjá.

O ensaio de Isabela ainda traz outras passagens dignas de nota, como a analogia entre o Odisseu entregue às sereias e os personagens da canção de Baden e Vinícius. Essa analogia entre os mundos grego e afrobrasileiro adquire maior significado à luz de relatos do próprio Baden Powell, que teria se interessado em compor afro-sambas quando percebera equivalências entre o modalismo africano e as sete escalas gregas. Veja o que diz a autora:

A tensão crescente da primeira para a segunda repetição, com a força do violão e maior agressividade da percussão e dos graves dos sopros, nos rememora imageticamente a essa resistência, ao debater-se de Ulisses, na Odisseia, narrativa compilada por Homero, ao atravessar o mar perto do domínio das sereias, cujo poder do canto seria capaz de levá-lo a morte. O sopro grave da canção mantendo as notas ré e lá, intervalo de quinta, durante grande parte da música, funciona como o barulho de uma embarcação que rema em movimento compassado e contínuo. O astuto herói para garantir a passagem da embarcação pede que os remadores tampem seus ouvidos com cera, para que não ouçam o cantar hipnótico das sereias. Ele, entretanto, desafia a si próprio a ouvir o poderoso canto (p. 149).

E quero encerrar com os parágrafos – muito bonitos – de Isabela, ao também encerrar seu ensaio:

O interlúdio na canção “Canto de Iemanjá”, numa breve interrupção do canto feminino e o movimento ondulatório e hipnotizante da instrumentação, cantado por Vinicius de Moraes com os dizeres que remetem a ir a Salvador para ouvir Iemanjá, nos parece o testemunho e a narração de alguém que passou por seus encantos, que sabe de sua potência. O interlúdio dá à canção uma dimensão de narrativa, de memória. Como numa tomada cinematográfica em que deixamos de ver o narrador para assistirmos àquilo que ele conta. Vinicius (eu-lírico) está nos contando do canto de Iemanjá, tanto como a memória do pescador que passa “ileso” por seu canto, tanto quanto o filho-de-santo que já testemunhou seu transe.

Mais do que a perda do poder, a ode à beleza da magia lembra-nos de que ela é capaz de encantar, que não ali na escuta confortável do LP. O interlúdio de Vinicius é a mensagem de que a magia está noutro lugar e é possível de ser encontrada. Não está ali, na escuta daquele vinil.

No final da canção, a lembrança do canto é evocada por Dulce. O inebriar que a construção melódica, rítmica e harmônica nos causa é finito.

O lado A do vinil acabou e é preciso virar o disco (p. 152).


Agora vem o momento mais difícil do post (pois ler trabalhos acadêmicos tão cativantes foi fácil): elencar versões alternativas para a canção em exame. Isso porque “Canto De Iemanjá” foi gravada e regravada várias vezes, e todas as versões que escutei têm seu encanto (sacou o trocadilho?).

A primeira versão alternativa é, obrigatoriamente, a releitura do próprio Baden, que refez os afro-sambas num disco de 1990:

Monisa Salmaso e Paulo Bellinati propuseram um tributo aos afro-sambas com arranjos voz-e-violão, em 1997. O registro, iniciado com um lindo dedilhado, é inesquecível, pra dizer o mínimo:

Outro tributo ao clássico de Vinícius de Baden é o registro do Coral Unifesp, datado de 2009. Desse disco, confesso que me cativam mais as releituras de “Berimbau”, “Consolação” e “Labareda” – justamente os afro-sambas que não estavam presentes no álbum original de 1966. Mas confira o arranjo de “Canto De Iemanjá”, que também ficou belo, com um andamento mais acelerado:

À mesma época (2008-2009), o violonista e arranjador Mário Adnet e Philippe Baden Powell (pianista filho de Baden) organizaram o inacreditável Afro samba jazz, que traz releituras instrumentais do álbum de 1966, mais alguns números inéditos, transcritos de velhas partituras raras. A Biscoito Fino lançou esse álbum maravilhoso e você confere informações sobre ele no Portal da Cultura Negra (que traz, ainda, um competente levantamento de todos os afro sambas de Vinícius e Baden, espalhados pela obra de diversos intérpretes). Curiosamente, “Canto De Iemanjá” é uma das poucas faixas do álbum que não é instrumental, sendo cantada pela própria Monica Salmaso. O arranjo privilegia os sopros e traz uma batucada contagiante conduzindo a levada:

Instrumental mesmo é a versão do extraordinário bandolinista Hamilton de Holanda, no disco Esperança – Ao vivo na Europa (2013):

E como curiosidade, tem a regravação da cantora estadunidense Mia Doi Todd, no álbum sugestivamente intitulado Cosmic ocean ship (2011). Essa versão, cantada em português (com um inevitável sotaque, claro), não tem o suingue de todas as gravações que elenquei acima. Mesmo assim, vale a pena a audição, principalmente pelo inesperado sabor indiano que permeia o arranjo. Um belo encontro entre a obra de Baden e Vinícius e a psicodelia! Não deixe de ouvir:


iemanjá.jpg

Uma pequena homenagem à Rainha das Águas! Alodê!

(A imagem é cortesia da querida Jaque, que me contou uma estória, dia desses, sobre um emocionante ritual envolvendo Dona Janaína… ela merece mesmo todos os festejos!).

5 comentários

    1. Talvez se tivesse vivido um pouco mais, Baden teria tempo de reavaliar sua rejeição aos afro-sambas. Teria muito o que se orgulhar da repercussão perene de sua obra.

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