34. Camisa de Vênus: “Eu Não Matei Joana D’Arc”

Eu nunca tive nada
Com Joana D’arc
Nós só nos encontramos
Prá passear no parque…
Ela me falou
Dos seus dias de glória
E do que não está escrito
Lá nos livros de história…


Os anos 80 produziram canções indispensáveis e belíssimas, do rock à MPB, e as postagens de janeiro deste blog o atestam. Mas também produziram peças vergonhosas, irrelevantes e tolas.

“Eu Não Matei Joana D’Arc” não está nem numa categoria, nem na outra. Trata-se do maior sucesso da banda punk baiana Camisa de Vênus, e faixa de abertura do disco Batalhões de estranhos (1984). Composta pelo frontman Marcelo Nova e pelo guitarrista Gustavo Mullem, a canção é um rock acelerado, com letra engraçadinha – embora a harmonia, baseada nas tríades de Lá Menor, faça as coisas parecerem profundas. Ou estaria a própria banda se levando a sério demais?

Nesse sentido, “Eu Não Matei Joana D’Arc” sempre foi um mistério pra mim, desde a primeira vez em que a ouvi – por volta de 1998, quando passava algumas madrugadas escutando a programação da Rádio USP.

Afinal, Batalhões de estranhos trata de assuntos graves e solenes – de crimes à arquitetura moderna. E o Camisa de Vênus nunca foi um “conjunto gozação”, como o João Penca e Seus Miquinhos Amestrados.

Prefiro acreditar que, em sua postura punk, a banda tenha escolhido uma personagem histórica, heroica, e a transformado em objeto de sátira – bem ao feitio da filosofia pós-moderna, descanonizadora, que acomete boa parte do repertório do BRock. Em outras palavras, pegaram Joana D’Arc pra Cristo! Uma tentativa de se soar herético, e nada mais.

Assim, a letra é cantada em primeira pessoa, como se o sujeito enunciador estivesse sob interrogatório e buscasse álibis para refutar a acusação de assassinato de Joana, apresentando uma estória que mistura realidade com ficção, com direito a sexo, drogas, paranoia e Guerra Fria.

camisa-de-venus
Camisa de Vênus: punks da Bahia, desafiando a hegemonia do eixo São Paulo-Rio de Janeiro-Brasília no BRock.

A canção me lembra muito o personagem Rolando Lero, da Escolinha do professor Raimundo, interpretado pelo grande Rogério Cardoso (1937-2003). Com sua oratória impecável e empostada, o personagem vivia tentando enrolar o mestre – a quem bajulava descaradamente –, quando este lhe dirigia suas questões sobre fatos e personagens históricos.

Nessas tentativas de escapar com qualquer migalha de nota nas chamadas orais, Rolando Lero imaginava narrativas incrivelmente absurdas e cheias de soluções ad hoc para incorporar informações que o Professor Raimundo ia lhe confrontando no decorrer de seus delírios mentirosos (mas não menos geniais). Meu personagem favorito do programa (hoje interpretado pelo também genial Marcelo Adnet)!

Curiosamente, Joana D’Arc foi objeto de perguntas para Rolando Lero em duas oportunidades. Não deixe de assistir, e tente não rir:


Existem muitas versões para a canção.

O Camisa de Vênus prensou um show inesquecível de 1986, no Caiçara Music Hall, em Santos. Novamente, ela aparece como faixa de abertura desse disco sensacional que é Viva, numa versão crua, direta, cheia de punch e com um baita engajamento da plateia. É a aparição definitiva da canção:

A banda chegaria a regravar o clássico em outras ocasiões, em registros que não chegam aos pés da original e do registro em Viva.

Assim, temos a versão de Plugado! (1995), dessa vez, mais pro final do álbum:

E há também uma versão exageradamente longa (quase 10 minutos), apresentada no recente Dançando em Porto Alegre (2018). De certa forma, entendo o motivo da faixa se estender além do necessário. Nos shows do Marcelo Nova (que depois passaria a excursionar como Camisa de Vênus), “Eu Nâo Matei Joana D’Arc” é sempre o momento mais esperado, apoteótico, geralmente deixado para o bis, e prolongado até à exaustão do transe que se apossa da plateia – e disso sei porque fui a pelo menos duas dessas apresentações. Confira:

Marcelo Nova também registrou a canção em sua carreira solo. Ouça a versão do disco Hoje no Bolshoi (2015), que mescla andamentos mais lentos com momentos mais punks, trazendo também um bom acompanhamento de órgão:

Quanto aos covers, existe a proposta acústica e meio bluesy de Zeca Baleiro, em Concerto (2010):

E, por fim, há o tributo de Lobão & os Eremitas da Montanha, que apresenta uma releitura pesada, acelerada e berrada – em outras palavras, punk! – na Antologia politicamente incorreta dos anos 80 pelo rock (2018). Destaque para os backing vocals e para as viradas de bateria, que fazem referência à gravação original de Batalhões de estranhos:

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