35. Nana Caymmi: “Clube Da Esquina 2”

Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, aço, aço….
Porque se chamava homem
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases
lacrimogênios
Ficam calmos, calmos, calmos
E lá se vai mais um dia


Este post, novamente, não irá explorar todo o contexto da canção em estudo, nem trará minhas (às vezes, inevitáveis) estorinhas. Quero mesmo é falar sobre como “Clube Da Esquina 2” veio a se tornar o que a canção é hoje.

Em Os sonhos não envelhecem (8ª edição, São Paulo: Geração Editorial, 2013), Márcio Borges conta a origem da obra que mudaria tudo na música popular brasileira, “Clube Da Esquina”. Tudo começou com um tema de violão que seu irmão, Lô Borges, insistia em repetir e repetir, e que seria justamente sua primeira composição. Milton Nascimento apareceu e começou a propor uma linha melódica para aqueles acordes (“dois tempos em si, cai para lá sustenido, um tempo, volta ao si, lá, prepara, dó maior”). E Márcio, sentado entre os dois, a tudo assistia:

– Está lindo. Vou colocar letra nisso – falei. Recomeçamos a cantar a melodia que Bituca fazia fluir num solo uníssono de violão e vozes sobre o tema harmônico que Lô construíra por inteiro, de uma só feita, e, no mais, só fizera repetir. Nunca tinha visto nada combinar tanto quanto aquela harmonia de Lô e a melodia que Bituca acabara de criar, exceto, talvez, a homenagem dos Beatles “Michelle, ma belle”, com a homenageada Michelle Phillips… (p. 219).

E concluída a letra, concluída a canção, “Clube Da Esquina” se converteria rapidamente num hino, primeiro na própria residência dos Borges, depois em Belo Horizonte, até tomar o Brasil. Foi lançada no disco Milton (1970), um clássico de Bituca:

A parceria inaugural entre Milton e Lô Borges é uma canção triste, mas leve. A letra começa falando sobre encontros noturnos entre uma espécie de comunidade de parceiros, irmanados na arte de criar canções – a própria definição do que foi o Clube da Esquina: “Noite chegou outra vez / De novo na esquina os homens estão / Todos se acham mortais / Dividem a noite, a lua, até solidão / Neste clube a gente sozinha se vê / Pela última vez / À espera do dia, naquela calçada / Fugindo pra outro lugar”.

E prossegue Márcio Borges:

Desde a composição de “Clube da Esquina”, Bituca vinha formando com Lô uma espécie de entidade híbrida, homogênea, autóctone, constituída de duas cabeças, quatro mãos e dois violões. O apartamento novo de Bituca era para ele morar sozinho, decentemente, mas tinha o bedelho de todo mundo […]. Tudo com intenções muito direitinhas, mas no primeiro mês, o apartamento já tinha virado cafofo, furdunco, muquifo, com as garrafas vazias se empilhando na área de serviço. Depois ,com a colaboração de uma diarista, a coisa melhorou em seu aspecto formal. Lô, Beto Guedes e o primo Jaca praticamente se mudaram para lá. Com sua juventude e beatlemania, estavam aportando ao som de Bituca uma nova luminosidade, um pique atlético, virilidade de macaco novo. Da janela do quarto que Bituca lhes destinara, via-se o Corcovado de um ângulo tal que formava o perfil, o close-up gigantesco de um rosto feminino, de tal forma semelhante que Lô nos chamou à janela excitado:

– Olha lá se não é a cara da Solange!

Solange era nossa irmã número oito, doze anos de idade. Era a pura verdade! Eu e Bituca reconhecíamos com resignação crédula e maravilhada: o Corcovado, daquele ângulo, era a cara da Solange. Naqueles dias meu irmão e meu amigo compuseram um instrumental maravilhoso, na mesma estrutura (violão-base de Lô, violão-solo de Bituca) de “Clube da Esquina” e deram-lhe imediatamente o nome de “Clube da Esquina 2”. Só que quando eu quis colocar letra, como na primeira, ambos vetaram:

– Nessa não cabe letra – disse um.

– Senão não seria instrumental – reafirmou o outro (p. 222).

Já estava pronto o tema que encerra o lado 2 do imprescindível Clube da esquina (1972), a estreia de Lô em uma gravação comercial, de cara, em parceria com Bituca (e tema de alguns posts aqui já, como o primeiro, sobre “Cais”, e mencionado também em “Vento De Maio”). Já era uma obra-prima:

Mas a canção não estava concluída. E eis que aparece a personagem principal de hoje, a grande Nana (afinal, prometi, ao falar sobre “Canto De Iemanjá”, que algum Caymmi deveria aparecer no blog mais cedo ou mais tarde). Voltemos ao livro de Márcio Borges:

Certa noite, encontrei-me com Nana Caymmi no Diagonal, bar que frequentávamos no Baixo Leblon. Ela estava com estúdio marcado para gravar seu LP daquele ano.

– Ô seu porra, porque você não mete uma letra no “Clube da Esquina 2”? – foi me dizendo. (Esse era o instrumental criado por Lô e Bituca tempos atrás, no qual todos nós queríamos pôr letra, mas os dois nunca deixavam “senão deixa de ser instrumental”). – Eu quero gravar essa merda mas sem letra não dá, né, porra.

Nana boca pesada. Pois bem. Naquela noite no Diagonal, Nana me convenceu a colocar letra, mesmo sem o conhecimento daqueles dois panacas (ela não disse panacas, evidentemente), pois afinal eu não era um bobo medroso (ela não disse bobo medroso) e ela própria mostraria a droga da letra (não disse droga), era só colocar aquela pinoia (nem pinoia) na mão dela e os dois que se… (claro que disse o termo). Fui para o apartamento que agora dividia com Henrique Leiner e no dia seguinte fiz a letra. Depois, conforme o combinado, entreguei direto nas mãos de Nana. Ela foi para o estúdio e gravou. Só depois do fato consumado é que Bituca e Lô se renderam à evidência: “Clube da Esquina 2” tinha letra […] (p. 336-337).


A nova canção é mais que a evolução natural de sua irmã mais velha. É um manifesto, um tratado, uma declaração de intenções, a rubrica de um projeto de vida. E, no entanto, não é nada disso: é apenas uma canção sobre aqueles mesmos homens que se reuniam para dividir a solidão, irmanados na mesma estrada, compartilhando e criando sonhos (“E sonhos não envelhecem”, disse Márcio Borges), tecendo criações capazes de tranquilizar o coração dos homens mesmo “Em meio a tantos gases lacrimogênios” dos tempos da ditadura.

Lô jamais poderia desconfiar, aos 16 anos, que sua primeira composição renderia tanta história e geraria, anos mais tarde, uma canção inesquecível, que ganharia o mundo. E, provavelmente, não desconfiava que justamente a filha de Dorival Caymmi daria o pontapé inicial para que “Clube Da Esquina 2” evoluísse de uma bela faixa instrumental, quase escondida em sua primeira aparição, para uma canção completa e definitiva.


nana-caymmi.jpg
Nana Caymmi: quem insistiu para que “Clube Da Esquina 2” ganhasse letra… e o mundo!

“Clube Da Esquina 2” apareceu, com letra, no álbum Nana Caymmi (1979). Essa versão é muito semelhante ao registro original do Clube da esquina. Mantém-se o mesmo arranjo, somando-se a bela voz de Nana.

No mesmo ano, Lô também gravaria o clássico, em seu disco A via láctea. Agora, a canção aparece com seu arranjo definitivo, aquele que a tornaria mais conhecida, com uma levada de piano, um contracanto de baixo muito marcante e o belíssimo vocal de Solange, a “irmã número oito” da família Borges:

Esse arranjo seria retomado no disco Solo ao vivo (1987) do Lô. A partir daí, a canção receberia outros arranjos nas apresentações ao vivo do cantor mineiro. O próprio Bituca, no disco Angelus (1994), iria propor uma reconstrução completa da canção, agora com uma atmosfera jazzy:

Em 2001, em Feira moderna, quando Lô apresentou novas versões de estúdio para seu repertório de décadas, “Clube Da Esquina 2” reapareceu com cara nova. Sai o piano, entra o violão. Ainda, o arranjo faz pequenas referências à versão de 1979 de A via láctea, principalmente por meio dos dedilhados de guitarra:

Essa versão orientaria todas as execuções da canção nos anos seguintes, sendo registrada, ao vivo, no álbum Intimidade (2008). Dessa vez, temos a participação de Samuel Rosa, fã e, mais tarde, parceiro de Lô. Gosto dessa performance, com uma ressalva: a canção se tornou longa demais, com uma repetição desnecessária da última estrofe e, por conseguinte, do refrão. Confira:

Uma versão praticamente idêntica apareceria no álbum Samuel Rosa & Lô Borges: ao vivo no Cine Theatro Brasil (2016). Uma diferença importante é a presença dos teclados de outro irmão Borges, Telo, recuperando elementos presentes no arranjo de 1979 registrado por Lô. Não encontrei um vídeo dessa versão mas, como disse, ela é muito semelhante àquela de Intimidade.

E a principal surpresa ainda estaria por vir: em 2018, Lô excursionou reapresentando seu álbum de estréia, o famoso “disco do tênis” (intitulado, na verdade, Lô Borges), mais alguns clássicos do Clube, com seus arranjos originais. E esse espetáculo, felizmente, gerou incrível DVD que eternizou um momento jamais esperado pela maioria dos fãs: a apresentação ao vivo de “Clube Da Esquina 2” com seu arranjo instrumental de 1972. É de cair lágrimas dos olhos! Veja:


Além de tantas versões de Lô e de Milton, existem infinitas outras por aí. Um destaque vai para a bela releitura de Flávio Venturini, talvez a versão mais famosa da canção, excetuando-se aquela de A via láctea. Como costuma acontecer nos registros do ex-líder do 14 Bis, temos aqui um arranjo que destaca a força da melodia, numa atmosfera quase new age:

E o mais inesperado ainda estaria por vir. Que tal “Clube Da Esquina 2″… em japonês? E se eu disser que gostei muito? Confira a versão da cantora Meg, totalmente em nihongo:


Esse post vai para minha grande amiga Julia, que adora a canção de hoje e está fazendo 27 aninhos. Sei que é pouco como presente, mas fiz o post com carinho!

E, de quebra, vai pro nosso chapa Hila, que também faz anos hoje. Um grande salve pra essa turma incrível de Atibaia!

6 comentários

  1. Bonita história,achava que a música tivesse nascido com letra e a versão-instrumental fosse opcional.

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    1. Eu também levei alguns anos até descobrir a versão instrumental, pois conheci “Clube Da Esquina 2” pela gravação de Lô de 1979 – minha favorita, por sinal.
      Grato pelo comentário.

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  2. A Solange Borges cantava muito bem,não me lembro dela em carreira solo,talento-vocal não lhe faltava.

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