36. Paulinho Moska: “A Seta E O Alvo”

Eu falo de amor à vida, você de medo da morte
Eu falo da força do acaso e você, de azar ou sorte
Eu ando num labirinto e você, numa estrada em linha reta
Te chamo pra festa mas você só quer atingir sua meta
Sua meta é a seta no alvo
Mas o alvo, na certa não te espera


“A Seta E O Alvo” foi a segunda canção que escutei de Moska, quando ele ainda se apresentava como Paulinho (a primeira foi “O Último Dia”, tema da minissérie global O fim do mundo). Trata-se da faixa de abertura do álbum Contrasenso (1997), tendo sido composta por Moska em parceria com o produtor Nilo Romero.

Conheci a canção à época em que tinha o hábito de escutar a Rádio USP de madrugada, em 1998, conforme relatei no post retrasado. Foi paixão à primeira audição!

A obra tem duas características marcantes.

A primeira é lírica. A canção é formada três estrofes maiores, que são cantadas apenas uma vez cada uma, entremeados por dois conjuntos de pequenas estrofes.

Um dos conjuntos é cantado duas vezes, e encerra a canção quase de forma retórica, sem ser asseverativa: “Então me diz qual é a graça / De já saber o fim da estrada / Quando se parte rumo ao nada…” Já o outro conjunto, mais disperso pela gravação, aparece sob três formas levemente diferentes: “E o que era? Era a seta no alvo / Mas o alvo, na certa não te espera”, “É a meta de uma seta no alvo / Mas o alvo, na certa não te espera” e “Sempre a meta de uma seta no alvo / Mas o alvo, na certa não te espera”. Observe se tratar de uma progressão, que parte de uma pergunta, alcança a resposta e a erige enquanto certeza: “E o que era?”, “Era a meta…” e “Sempre a meta…”

Nas estrofes maiores estão os achados líricos de maior importância. Nelas Moska canta uma série de oposições entre um “eu” e um “você”: “Eu olho pro infinito e você, de óculos escuros / Eu digo: “Te amo” e você só acredita quando eu juro / Eu lanço minha alma no espaço, você pisa os pés na terra / Eu experimento o futuro e você só lamenta não ser o que era / […] Eu grito por liberdade, você deixa a porta se fechar / Eu quero saber a verdade, e você se preocupa em não se machucar / Eu corro todos os riscos, você diz que não tem mais vontade / Eu me ofereço inteiro, e você se satisfaz com metade”.

Esse tipo de oposição – que nunca parece sinalizar para uma verdadeira dialética, quando muito uma forma precária de tolerância – me lembra outro clássico do cancioneiro brasileiro, “Incompatibilidade De Gênios”, cantada por João Bosco: “Dotô, jogava o Flamengo, eu queria escutar. / Chegou, / Mudou de estação, começou a cantar. / Tem mais, / Um cisco no olho, ela em vez de assoprar, / Sem dó, / Falou que por ela eu podia cegar.”

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Moska, um artista sem fronteiras, que se move do rock à MPB com enorme desenvoltura.

Mas são canções bem diferentes: “A Seta E O Alvo” parte do chão empírico dos relacionamentos, modalizado pelo /ser/, para alcançar uma abstração cada vez mais generalizante, cada vez mais vaga (e daí a referência ao partir “rumo ao nada”), relacionada à ideia intangível de uma meta, de um alvo, que nunca é explicitamente nomeado – nem atingido. Já “Incompatibilidade” mostra um relacionamento em sua tensão máxima, e a voz da canção não deixa pontas soltas, concluindo com um /querer/ prenhe de ação: “Quero me separar!”.

A outra característica marcante de “A Seta E O Alvo” é harmônica. Embora percorra a tonalidade de Mi Maior sem maiores sustos, principalmente no refrão (apenas com alguns adornos que promovem maior compatibilização entre melodia e letra, como o uso de um acordes abertos de F#, B e A, além do emprego de sétimas e sétimas maiores), nas estrofes do eu/você a harmonia se mostra mais inventiva. Ali, parte-se de um acorde de Mi Maior aberto, que lentamente vai se transformando a partir da formação de tétrades, com graus que descem cromaticamente: da oitava (E) para a sétima maior (E7+), a sétima (E7), a sexta (E6), a quinta aumentada (E5+), retornando ao acorde inicial (E). Note que, nesse percurso, as tensões vão se acumulando até o acorde de E5+, que se resolve (parcialmente) no Mi Maior aberto. Assim, configuram-se oposições na letra que, absolutamente, não conduzem a soluções para o relacionamento. Os progressos aparecerão, mesmo, nas outras estrofes, com seu passeio não mais pelos diferentes graus da escala de Mi, mas pelos outros acordes do campo de Mi Maior. E, assim, o eu-lírico consegue se desvencilhar da paralisante e inócua troca de acusações, para alcançar as supracitadas abstrações referentes à seta, à meta, ao alvo.


Existem algumas versões ao vivo, do próprio Moska, para “A Seta E O Alvo” – canção, aliás, presente em todas as coletâneas do artista.

Temos as versões fiéis ao arranjo original, como é o caso da que aparece na abertura do disco Através do espelho (1997), embora com algumas alterações melódicas:

E temos também uma versão semelhante, um pouco mais pesada e com solos de guitarra não tão fiéis aos originais, no álbum Muito pouco para todos (2013):

E, finalmente, há a versão voz-e-violão do disco + Novo de novo (2007), totalmente rearranjada. Gosto mais da original, mas essa releitura cheia de balanço tem lá seu charme:

6 comentários

    1. Querido amigo… que honra tê-lo conosco! Obrigado pelo elogio. Ainda lembro com alegria quando descobri, por volta de 2004 ou 2005, que você conhecia essa bela canção. Mas o seu bom gosto musical sempre foi notório!
      E tenha mais um pouco de paciência, que eu irei atender seu pedido de janeiro, ok?
      Abração!

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  1. Não conhecia,a temática é interessante.Me lembrei de ”O Quereres” de Caetano Veloso e ”Catavento e Girassol” de Guinga e Aldir Blanc que abordam conflitos semelhantes.

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