38. Moacyr Luz: “Vida Da Minha Vida”

Vida da minha vida
Lua que encandeou
Uma canção bonita
Feita pro meu amor
Vida da minha vida
Olha o que me restou
Flores na despedida
Versos de um amador


Moacyr Luz é um senhor personagem da música popular no Brasil. O sambista carioca não é apenas cantor, compositor e instrumentista (tendo sido aluno dos grandes violonistas Carlos e Hélio Delmiro); é também escritor e grande conhecedor da cultura brasileira. É uma espécie de “análogo lado-b” de Martinho da Vila – com quem, aliás, estabeleceu parcerias (minha favorita é a belíssima “Zuela De Oxum”, que quase entrou aqui no blog). Além de tudo isso, foi um dos idealizadores do incrível Samba do Trabalhador, projeto que reúne sambistas do Rio de Janeiro no Andaraí, sempre às segundas-feiras. Um verdadeiro movimento de resistência cultural e de amor ao samba!

Carioca nascido em 1958, Moacyr é um nome relativamente pouco conhecido fora do Rio de Janeiro. Ou melhor, poucos ligam o nome à pessoa. Mas quem tem bom gosto deve ter se deparado com alguma composição sua, cantada ou pelo próprio Martinho, ou por Gil, Bethânia, Nana Caymmi, Beth Carvalho… e por Zeca Pagodinho, como é o caso da canção de hoje.


“Vida Da Minha Vida” está no disco Batucando (2008), comemorativo aos 50 anos de Moacyr. A letra é formada por estrofes com quatro versos cada uma, cantada na forma de um lamento – ou oração – dirigido à própria vida. Uma das estrofes serve como um refrão, bradada na parte mais alta do registro vocal: “Vida da minha vida / Um vento me derrubou / A alma desprotegida / No peito de um sonhador / Vida da minha vida / Peço ao meu protetor / Se for pra ser vivida / Diga pra onde eu vou”.

O poema-canção possibilita diversas interpretações. Penso se tratar de um eu-lírico desorientado por conta de uma decepção amorosa que ele próprio causou, repercutindo no fim do relacionamento. Desprotegido, “sem chão”, o personagem desesperadamente roga à própria vida – “Se for pra ser vivida” – que lhe aponte um caminho.

A harmonia está em tom menor e favorece os deslocamentos vocais pela tessitura, ressaltando os estados disfóricos no momento da súplica, que se resolve asseverativamente com o retorno ao acorde da tônica: “Diga pra onde eu vou”.

Outra característica da versão em análise é a participação de Zeca Pagodinho, cujos vocais graves possibilitam um bonito contraste com o registro mais agudo da voz de Moacyr.

moacyr-luz
Moacyr Luz, fazendo o samba do trabalhador resistir no Rio de Janeiro e no Brasil.

Considero a versão original, do Batucando, a definitiva. Moacyr registrou também uma versão ao vivo cheia de peso e axé, no álbum gravado com o Samba do Trabalhador – Ao vivo no Bar Pirajá (2017). Zeca Pagodinho participa novamente:

No entanto, existe uma versão mais famosa que, aliás, tocou bastante nas FMs e aparece em boas rodas de samba por aí. Trata-se da releitura do próprio Zeca, no disco também intitulado Vida da minha vida (2010). A faixa abre o álbum e aparece guarnecida, dessa vez, por uma orquestra de cordas:

A harmonia foi elevada para um tom acima (Mi Menor) e o desempenho vocal de Zeca é feito, assim, com um registro que avança para regiões mais agudas.

Anos mais tarde, no projeto Quintal do Zeca (em que são convidados diversos sambistas para gravarem sons no cafofo de Pagodinho), o Fundo de Quintal seria convidado para defender “Vida Da Minha Vida”. Ficou uma bela versão, até porque um dos compositores da canção é Sereno, quem puxa os vocais nessa emocionante execução, registrada no Zeca apresenta o Quintal do Pagodinho ao vivo – Vol. 3 (2016):

E como curiosidade, há uma lindíssima versão de Zélia Duncan no álbum Antes do mundo acabar (2015), em que a cantora de Brasília gravou um repertório sambista. Nessa releitura, o tom lamentoso é levado às últimas consequências, graças à emoção transmitida pelo vocal grave de Zélia. O andamento mais lento também favorece o processo de passionalização. Confira:

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