39. Miúcha e Tom Jobim: “Falando De Amor”

Se eu pudesse por um dia
Esse amor essa alegria
Eu te juro, te daria
Se pudesse esse amor todo dia
Chega perto, vem sem medo
Chega mais, meu coração
Vem ouvir esse segredo
Escondido num choro-canção


Miúcha nos deixou há algumas semanas; o maestro Antônio Carlos Jobim, há muito mais tempo – e lembro como o Brasil ficou de luto naquele 1994, que não fora nada fácil (pois, apesar de ganharmos a Copa, perdemos também o Senna).

(E lá vem clichê) Embora não estejam mais conosco, esses artistas formidáveis legaram, ao Brasil e ao mundo, obras que serão reverenciadas por muitas gerações. O disco conjunto de ambos, Miúcha e Tom Jobim (1979), é uma dessas criações sublimes, que guarda uma pérola do cancioneiro nacional: “Falando De Amor”.


Para compreender essa canção, é preciso um mínimo de familiaridade com o gênero de que o compositor (o próprio Tom) se vale para transmitir sua mensagem. Nesse caso, estamos falando do choro ou, mais precisamente, do choro-canção.

O choro é um estilo com assinaturas tão evidentes que, para um ouvinte experiente, nem seria necessário escutar a canção para reconhecer o gênero a que ela pertence. Bastaria ler a letra, começando pelo título da obra: “Falando De Amor”.

Lição número um: muitos choros são nomeados com verbos no gerúndio – a exemplo de “Chorando Baixinho”, “Saracoteando” e o combo-triplo de Ernesto Nazareth, “Gemendo, Rindo E Pulando”. Outra característica é o discurso metalinguístico, que também acomete vários choros-canções. Em “Falando De Amor”, a metalinguagem já entrega o ouro logo de cara: “Vem ouvir esse segredo / Escondido num choro-canção”.

Mas “Falando De Amor” vai muito além das amarras estilísticas impostas pelo gênero. Como disse, elas são apenas o contexto a partir do qual se podem tecer algumas considerações. Uma característica da canção, e de certa forma estranha ao choro, é seu caráter de diálogo, como se duas pessoas estivessem conversando – verdadeiramente, falando de amor.

Nesse sentido, é curioso ver a distribuição dos versos entre os intérpretes masculino (Tom) e feminino (Miúcha). Para fazê-lo, vamos usar as cores da moda, o azul para o menino e o rosa para a menina, além do roxo, quando as duas vozes cantam juntas:

Se eu pudesse por um dia / Esse amor essa alegria / Eu te juro, te daria / Se pudesse esse amor todo dia / Chega perto, vem sem medo / Chega mais, meu coração / Vem ouvir esse segredo / Escondido num choro-canção / Se soubesses como eu gosto / Do teu cheiro, teu jeito de flor / Não negavas um beijinho / A quem anda perdido de amor / Chora flauta, chora pinho / Choro eu, o teu cantor / Chora manso, bem baixinho / Esse choro falando de amor / Quando passas tão bonita / Nessa rua banhada de sol / Minha alma segue aflita / E eu me esqueço até do futebol / Vem depressa, vem sem medo / Foi pra ti meu coração / Que eu guardei esse segredo / Escondido num choro-canção / Lá no fundo do meu coração

Com essa distribuição, fica evidente que, entre os personagens que dialogam, existe:

  1. A figura masculina, marcada por um sentimento de impotência (“Eu te juro, te daria / Se pudesse esse amor todo dia”), medo (“Minha alma segue aflita”) e desorientação (“E eu me esqueço até do futebol”), diante da pessoa amada.
  2. A figura feminina, que é efetivamente quem toma a ação. Assim, à personagem mulher cabem predicados opostos àqueles do homem. Ela é desenvolta (“Chega perto, vem sem medo / Chega mais, meu coração”) e encorajadora, inclusive auxiliando a voz masculina a expressar seus sentimentos, o que ocorre nas partes em que as duas vozes cantam juntas.

Uma leitura mais ousada incorporaria o caráter metalinguístico da canção à proposta interpretativa acima. Nesse caso, temos uma mulher compositora de um choro-canção, que pinta, em sua obra, o personagem masculino, a quem dedica a declaração de amor (o qual já não é mais tão secreto). Considerando o momento em que a canção foi composta e apresentada, considero essa interpretação questionável – embora interessante, do ponto de vista do empoderamento feminino.

Me parece mais plausível a narrativa seguinte: a personagem feminina encoraja o homem a se expressar no choro – com toda a dubiedade que a palavra “choro” carrega – para revelar-se mais sensível, mais sentimental, mais… delicado. A propósito, a delicadeza também é uma assinatura estilística, podendo ser notada nos títulos de algumas peças, que trazem diminutivos como “Brasileirinho”, “Carioquinha”, “Pedacinhos Do Céu”, “Benzinho” e tantos outros – e, aliás, eu ganharia tempo simplesmente afirmando a existência do choro “Delicado”, de Waldir Azevedo.

O resultado desse convite, dessa insinuação, é a completa comunhão ao fim do percurso narrativo, cujo segredo compartilhado “Lá no fundo do meu [ou dos nossos] coração [corações]” é o símbolo maior.

miucha-tom-jobim.jpg
Miúcha e Tom: juntos para falar de amor.

Existem muitas gravações de “Falando De Amor”, que se dividem entre as canções propriamente ditas e as releituras instrumentais. Como são tantas, e para não ser injusto com poucos (sendo injusto com muitos), vou dispor apenas um exemplo de cada.

Representando a vertente canção, existe a maravilhosa interpretação dos conjuntos vocais Quarteto em Cy e MPB-4, registrada no disco Bate-boca: as músicas de Tom Jobim & Chico Buarque (1997). Essa linda versão, cheia de cordas, tem o violão de Paulo Jobim (filho de tom) e foi abertura da novela global Por amor. E como ficam lindas as vozes dos dois quartetos juntas/juntos! Ouça:

E representando a vertente instrumental, temos o espetacular encontro entre Armandinho Macedo e o saudoso Paulo Moura (que já vi tocar a poucos metros, ensaiando no gramado em frente à biblioteca central da Unicamp, preparando-se para um show da parte cultural do Encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em 2008). Esse achado está no disco Afro bossa nova, lançado pela Biscoito Fino em 2009, ou seja, pouco tempo antes da partida desse grande maestro do sopro. Já Armandinho, este permanece muito vivo e na ativa. Escute e deleite-se:

1 comentário

  1. Eu conheci a música num LP(?) da novela ”Chega-Mais” na voz de Ney Matogrosso,acabou sendo a minha versão-favorita.

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