40. Titãs: “Miséria”

Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Índio, mulato, preto, branco
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Filhos, amigos, amantes, parentes
Riquezas são diferentes


Perdão pelo trocadilho, mas a verdade é que a trilogia titânica Cabeça dinossauro (1986), Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987) e Õ blésq blom (1989) está envolta em uma aura mitológica, o que só contribui para realçar o caráter épico desses álbuns fundamentais do BRock.

A canção de hoje, do disco de 1989, é uma dessas peças atravessadas por estórias que, até hoje, estimulam o imaginário dos fãs. E os personagens centrais disso tudo, no post de hoje, nem serão os próprios Titãs, mas o casal Mauro e Quitéria. Eles são os “repentistas” pernambucanos cujos versos deram origem ao título Õ blésq blom, e que protagonizam a abertura e o encerramento do álbum.

Assim, antes de mais nada, para acompanhar o post, você deve escutar Mauro, Quitéria e os Titãs. Clique no vídeo acima, iniciado com a faixa de abertura do disco (“Introdução Por Mário E Quitéria”), que serve como introdução para “Miséria”. E depois de escutar atentamente a faixa, ouçamos os próprios envolvidos narrarem como se deu o encontro histórico entre o simpático casal de Recife e a banda paulista, por meio de um excerto do documentário A vida até parece uma festa (2008):

Para facilitar, vou transcrever o trecho que nos interessa, em que os titãs Paulo Miklos e Tony Bellotto descrevem o encontro com o casal:

Miklos: Estávamos nós, os Titãs, em excursão pelo Nordeste, em Recife, hospedados num hotel na praia de Boa Viagem, e de manhã cedo saímos pra ir à praia. E, de repente, eu comecei a ouvir de longe, lá… […] e dava pra só ouvir uma voz forte, de alguém cantando alguma coisa e tal. Então eu fiquei assim, olhando, meio esperando pra ver o que que é aquilo – “porque é um vendedor ou alguma coisa desse tipo”, eu pensei, né.

Bellotto: Então o Paulo subiu correndo pegar um gravador, um break que ele tinha, e eu corri pra alcançar os dois, que já tavam na frente, lá cantando.

E o que cantava o casal? Exatamente o que se ouve antes de “Miséria” e no vídeo acima, um amontoado de palavras que misturam vários idiomas mas que, incrivelmente, resultam em enunciados mais ou menos inteligíveis: como canta Mauro, ele era “o rei do rock”, um pioneiro nas telas de cinema, que cantava para todo o mundo. Quitéria apenas completa algumas palavras, mas exerce mesmo a função de “metrônomo”, ditando o ritmo para o improviso do marido. E, ao que parece, o “pioneiro do rock” não teve muito sucesso: apesar de sua universalidade – pois cantava em “speak english”, em italiano e japonês -, acabou mesmo é tendo que percorrer a praia de Boa Viagem atrás de alguns trocados.

Tudo indica que a estória narrada acima não passa de ficção, mas convenhamos: é pra lá de verossímil. Afinal, sempre saem notícias por aí do ex-galã que hoje é morador de rua, da ex-modelo que vive na Cracolândia, do ex-jogador de futebol que hoje está na… miséria.

titas.jpg
Titãs, um grande octeto à época de Õ blésq blom.

E é disso que trata a canção dos Titãs.

Não há o que desvendar sobre a harmonia, baseada em um único acorde de Fá Sustenido Menor (que cede a uma variação apenas no fim da faixa), proporcionando, assim, um caráter modal a esse reggae quadrado, bem ao feitio do canto de Mauro e Quitéria.

Assim, podemos dar mais atenção à letra que, como é de praxe nas composições de Arnaldo Antunes, se desenvolve a partir da enumeração de elementos: “Índio, mulato, preto, branco / Filhos, amigos, amantes, parentes / Fracos, doentes, aflitos, carentes / Cores, raças, castas, crenças”.

Além da enumeração, existe a oposição entre o singular e o plural: em qualquer canto, miséria é/riquezas são. O que nos conduz novamente ao caráter cosmopolita do canto de Mauro: em português, em javanês, em japonês, em inglês, em italiano, em esperanto… seu canto é o canto da miséria. Em qualquer canto (do mundo), em qualquer língua, a miséria é: universalizada, atinge a todos, e é a mesma miséria. Riquezas são: quantos bilionários existem no mundo? Alguns poucos… afinal, o patrimônio dos 26 mais ricos do mundo é igual ao dos 3,8 bilhões mais pobres. A riqueza é plural por ser uma marca distintiva. A miséria é singular, pois é a mesma em qualquer canto, em qualquer língua, e tem sempre a mesma origem.

Há muito o que dizer sobre isso, em tempos de reforma previdenciária e reforma trabalhista, ou quando se diz que é duro ser empresário no Brasil. O interessante a se observar, sobre os discursos que esses assuntos fazem aflorar, é o baixíssimo grau de consciência, principalmente por parte da classe média, acerca de sua posição na sociedade. Esse foi um insight a que eu e Julia, certo dia, chegamos, e que se resume à figura abaixo:

miseria-riquezas.jpg

A classe média, em seu discurso contra os vagabundos, os subornados pelo Bolsa Família, os alienados, os sem-terra e sem-teto, os consumidores da baixa cultura do funk… não se percebe mais próxima de todos esses excluídos, a quem manifesta ojeriza. Pois para os 26 mais ricos – donos de imensas propriedades, empresas, terras, mansões -, os que julgam viver luxuosamente num apartamento de 90 m² de condomínio fechado não são mais que miseráveis também.

Se essa mesma classe média tivesse a percepção mais aguçada sobre sua situação no contínuo miséria-riquezas, talvez ela manifestasse maior empatia para com os excluídos em situação de extrema pobreza, os alijados dos direitos básicos à saúde, à educação e à segurança. E talvez pudéssemos nos aproximar do conceito amplamente generalizado, mas profundamente falso, de brasileiro solidário, caloroso, o homem cordial de que Sérgio Buarque de Holanda falou em Raízes do Brasil.

Lições que nos ensinaram Mauro e Quitéria, que já não estão mais conosco (relatos afirmam que ambos faleceram ainda no início dos anos 1990), e que os Titãs souberam transformar em arte.


O jornal catarinense Zero, em 1989, preparou uma matéria sobre esse lendário álbum dos Titãs, ressaltando a participação de Mauro e Quitéria (acesse aqui; a matéria está na p. 14). Intitulado “Som inteiro, e não pela metade” – em referência a “Comida”, do Jesus não tem dentes no país dos banguelas -, o texto prova como podem existir críticos musicais bem informados por aí. Digo isso porque conheci “Miséria” justamente em uma aula de Português – e como se chamava aquela jovem e entusiasmada professora da 8ª série, que substituiu a Dona Marli… Alessandra? -, em que a letra dessa canção foi colocada lado a lado com “Comida”. Hoje, a mim, parece óbvio que as duas canções tratam do mesmo assunto, mas não sei se seria capaz de encontrar esses elos caso não tivesse visto/ouvido as canções na escola.

O lide da matéria é também bastante curioso e, por seu caráter artístico (Arnaldo Antunes teria adorado!), pouco comum de se observar em jornais: “Õ Titãs cometem blésq disco blom da década”. Ainda, o jornalista (Ivaldo Brasil Jr.) apresentou uma tentativa de transliteração dos versos da “Introdução Por Mauro E Quitéria,” em um box, que reproduzo abaixo:

Õ blésq blom
neon neon right
come one nion hei
o nion blésq au right
diz que diz
õ blésq blom
ele era um pioneiro
é na tela de cinema
no ni dé o rei do rock
vou nimbora rindioma
ele bera ispiqui english
vou me blast blergh inglês
ô no last siparar Inglaterra
ele diz que a fila avança
tem a base nucleal
só nidera lá de Londres
ela diz que a fila avança
eu falava italiano
eu falava ispiqui
sonidera ispiqui
onibari na Espanha
ele eri um rei

Segundo os Titãs, “õ blésq blom” significa “os primeiros homens que andaram sobre a terra”. Para saber mais sobre o encontro Titãs/Mauro e Quitéria, assim como o destino dos dois personagens, leia a seguinte reportagem.


O encontro da banda com o casal, em Õ blésq blom, rendeu frutos para além do álbum de 1989. Em 1996, no disco Domingo, a banda apresentou a faixa “Rock Americano”, que se propõe a homenagear/emprestar o “idioma” dos cantos de Mauro e Quitéria, com uma levada reggae que lembra um pouco “Miséria”:

Dois anos mais tarde, após o imenso sucesso do Acústico MTV (1997), a banda lançaria mais um disco de regravações mais ou menos acústicas, Volume dois. “Miséria”, que havia ficado de fora do show anterior, está lá. O interessante é que a canção ganhou uma nova dinâmica, sendo conduzida por uma levada de berimbau. O que faz todo sentido: muito da miséria que nos rodeia tem uma íntima relação com o escravismo do Brasil colônia. Mentalidade, tristemente, atualizada até hoje. Ao final da faixa, uma citação ao próprio “Rock Americano”:

“Miséria” também chegou a ser tocada em vários shows dos Titãs. Existe uma performance incrível da banda no Rock in Rio de 1991. Aqui, os dois vocalistas/compositores da canção, Sérgio Britto e Paulo Miklos, junto com Arnaldo Antunes, se revezam para emular os versos sampleados de Mauro e Quitéria, no meio do canção – “Õ blésq blom / Õ blésq blom, hey! / É na tela de cinema / É na tela de cinema”. As danças e a postura do palco, dos Titãs daquela época, eram um show à parte… veja:

E como já foi falado neste blog, lá atrás, Adriana Calcanhotto regravou “Miséria”, em um medley com “Milagres” (do Barão Vermelho), no disco Senhas (1992). Ornou! Ouça:

4 comentários

  1. ”Miséria é miséria em qualquer parte,riquezas são diferentes”,não tinha me pegado na citação do singular e plural dos dois pólos da sociedade.

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    1. Também vivo sendo surpreendido por interpretações de velhas canções que encontro por aí! Às vezes, era algo evidente, e não tínhamos reparado, não é mesmo?
      Grato por este e pelos outros comentários!

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