41. Zé Tapera e Teodoro: “Japonês No Saravá”

Um japonês muito rico
Um famoso fazendeiro
Começou a namorar
A filha de um brasileiro
Somente pra passar tempo
Um namoro passageiro
O amor da pobre moça
Era puro e verdadeiro
Japonês não quis casar
Deixou a moça chorar
Preferiu viver solteiro


O que é o mundo sertanejo? Esse mundo existe mesmo? É aquele da atual “sofrência”, dos cowboys conquistadores, das mulheres sedutoras, das festas regadas a álcool, como falam as canções que se afirmam pertencentes a esse gênero?

Como egresso do interior e ex-morador dos limites entre a zona urbana e a rural, posso assegurar que o mundo dito sertanejo é bem diferente do que o senso comum pensa ser, ainda mais se tomar como referência o tipo de música que tem dominado as rádios, nos últimos anos.

Não, o mundo sertanejo não é esse pastiche de velho oeste. Na verdade, os “sertões” interioranos, onde se fala o dialeto caipira, não têm essa cara de colônia estadunidense. E arrisco-me a dizer que, nessa faceta do Brasil profundo, estão expostas as origens do nosso povo, que muitos vivem a negar.

Nas cidades em que as plantações e criações de gado estão mais integradas à paisagem, mais próximas dos moradores, muitas tradições ancestrais permanecem sendo reproduzidas e orientando as práticas culturais da população. Essas tradições aparecem como folclore e manifestações artísticas mais pontuais, mas permeiam o cotidiano de forma difusa, na forma de crendices e rituais. A criança está com um incômodo no estômago? Que a mãe leve à benzedeira. Apareceu uma verruga na pele? Tem uma simpatia que resolve. Problemas de relacionamento, dificuldade em conquistar a pessoa amada? Faça uma oração para o santo adequado.

Misturam-se, nesse caldeirão, práticas de um catolicismo popular, uma sabedoria antiga com origens indígenas e uma ligação profunda com o sobrenatural e as forças da natureza, herança dos cultos aos orixás. Essa é praticamente a definição do sincretismo da umbanda.

Bom, o atual cancioneiro sertanejo não fala de nada disso. Assim, para confirmarmos essa tese de que o interior não é esse Brasil branco que as duplas atuais cantam, precisamos ir às discotecas verdadeiramente caipiras. E lá encontraremos muitos indícios que ajudam a sustentar nossas proposições. Alguns exemplos: Tião Carreiro e Pardinho têm canções como “Preto Velho” e “Sete Flechas”; os próprios Pena Branca e Xavantinho aparecem com nomes de caboclos, posando com guias e roupas brancas na capa de seu primeiro álbum, que traz “Frango Assado” (sobre um despacho) e “Que Terreiro É Esse”, dos versos “Boa noite meu pai / Salve a sua banda / Que terreiro é esse / Bota fogo na fundanga” (além de “Cuitelinho”, que já trouxemos ao blog); Inezita Barroso gravou, em 1975, o álbum Inezita em todos os cantos, que já abre com um ponto afiadíssimo sobre Ogum, muito cantado nas giras; entre outros e outros… como é o caso da obra de Zé Tapera e Teodoro.


A dupla formada pelo paulista José Sonigo, o Zé Tapera, e Aldair Teodoro da Silva, paranense, esteve na ativa entre 1965 e 1980. Seu repertório é formado sobretudo por modas, ranchos, havendo também xotes, boleros e guarânias.

Ainda sustentando a tese exposta na seção anterior, são diversas as canções da dupla que mencionam os cultos afrobrasileiros, o que é entregue por títulos como “Bolo De Saravá”, “Terreiro De Saravá” e “Despacho De Macumba”, além dos personagens que visitam os terreiros, o “Japonês No Saravá”, o “Corinthiano No Saravá” e o “Motorista No Saravá”.

Hoje, escolhi falar sobre o primeiro desses personagens, presente na composição de Teodoro com João Gonçalves e lançada no disco O homem do sol (1978). O “Japonês No Saravá” é um camponês bem sucedido, mas com problemas na vida amorosa. Começou a namorar uma brasileira (“Somente pra passar tempo”) e acabou iludindo a pobre moça, que preparou um feitiço como vingança. Sua lavoura começa, então, a definhar, e o japonês não vê escolha senão se consultar com um babalorixá, que tem a receita para o fim dessas desventuras.

As imitações, principalmente a do japonês, são de rachar o bico, e podem ser conferidas em outros momentos do repertório da dupla. A propósito, o japonês tem nome: Taka Kara Nocoxo!

ze-tapera-e-teodoro.jpg
Zé Tapera e Teodoro, mostrando que o mundo da roça deve muito à herança indígena e negra que inspira a umbanda.

Quem pensa que a canção trata de dois universos que, definitivamente, não têm nada a ver – e daí proviria o efeito cômico da narrativa – precisava ter um dedinho de prosa comigo. Gostaria de estudar mais o assunto, mas adianto que já tenho bons elementos para trabalhar a hipótese de que há uma proximidade insuspeita entre a espiritualidade típica do povo japonês e os rituais iorubás. Particularmente, penso haver nítidas semelhanças entre a religião nacional do Japão, o xintoísmo, e o candomblé. As principais são: ambas envolvem a reverência a entidades relacionadas às forças da natureza (os kami e os orixás) e, além disso, ambas mantêm vivos os rituais de oferendas a essas entidades/forças.

Outro ponto de contato está na umbanda. Atualmente, vem sendo cada vez mais comum encontrar terreiros que convidam entidades da chamada “linha do oriente”. No post sobre “Onde O Brasil Aprendeu A Liberdade”, falei um pouquinho sobre isso, sugerindo a referência de Alberto Marsicano e Lurdes de Campos Vieira, A linha do oriente na umbanda (2. ed. São Paulo: Madras, 2010). No livro, há um capítulo sobre a Legião dos Chineses, Tibetanos, Japoneses e Mongóis, que abrange um conjunto de entidades muito diversas, incluindo acupunturistas e antigos mestres do zen-budismo. Por exemplo, Marsciano e Vieira falam sobre a curiosa figura de Tibiri, o Japonês (p. 69):

Na Umbanda, apresenta-se uma entidade de nome Tibiri, o japonês. Tibiri, no idioma nipônico, significa de grão em grão, de gota em gota. Os pontos cantados a seguir indicam que Tibiri é uma entidade da linha de ação e trabalho dos marinheiros, portanto, sob a regência de Mãe Iemanjá, na irradiação de Ogum.

Marinheiro, marinheiro
Olha as costas do mar…
É o japonês, e o japonês!
Olha as costas do mar,
Que vem do oriente!

Aqui, achei uma versão muito bonita desse ponto, que vale um conferes:


Depois do fim da dupla Zé Tapera e Teodoro, Aldair continuou na ativa, agora com a dupla Teodoro & Sampaio, que teve duas “encarnações”: a primeira, com Gentil Aparecido da Silva, mais tarde, substituído por Alcino Alves de Freitas – e que atualmente cedeu lugar ao Sampaio original.

Teodoro & Sampaio tocaram bastante no final dos anos 1990 e, no disco Viola em noite de lua (1998), um sucesso trouxe de volta o Taka Kara Nocoxo: a faixa – country no último, mas engraçada, vai – “Peão Japonês”. Como nipodescendente, eu poderia ficar ofendido com tanta zoeira e com os estereótipos que essas canções veiculam. Mas não tem jeito, dou mesmo é risada. Ria também:

2 comentários

  1. Meu pai e os mais velhos gostavam dessas moda,os jovens pra-frentex curtiam só ”música-internacional”,depois eu descobri que boa parte daquele repertório eram cantados e produzidos por brasileiros com nomes de gringo,nos enganaram direitinho.

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