42. Ana Rita Simonka, Ratnabali Adhikari, Edgar Silva: “Mais Filhos De Gandhi”

Mais, maior sofrimento é o mais pequeno
Torre alta, bahia, mais catedral
Brinca o inferno de areia passando o tempo
Concha fala de um mar mais que água e sal

Eu preciso um jardim para descansar
Teu amor mais me deu, me tirou daqui
Fruto novo arrebenta em qualquer lugar
Olha nego, teu enredo é mais que carnaval

Nada um continente através do mar
Torre guarda um sinal do que separou
Mais que fóssil da América em Madagasgar
Mais que eu danço, sou mais do “O Que é Mais” criou

Mais que quer viver o homem, mais ancestral
Tanto mais quanto mais for de mais valor
Afoxé de baiano, mais filho e o pai
Mais mãe preta o santo consolador

Mais não sei, mais quem sou, mais não sei dizer
Pescador quando sai mais azul levou
Alá tem um jardim, verdejante estou
Canto, Gandhi tem filho em mais um lugar


Como disse no post passado, o diálogo oriente-ocidente sempre me interessou. Até porque sou um filho desse diálogo, não é mesmo?

Pois numa das buscas por sonoridades que sintetizassem esses dois mundos, deparei-me com um disco bastante incomum. Trata-se da obra Bossa Nova Delhi (2000), da cantora, instrumentista, compositora e dançarina Ana Rita Simonka, em colaboração com o instrumentista brasileiro Edgar Silva e com a cantora indiana Ratnabali Adhikari.

Na verdade, conheci primeiro a canção de hoje, “Mais Filhos De Gandhi”, que me hipnotizou à primeira audição: trata-se de um inusitado afoxé hindu, se podemos definir asssim. Fiquei tão interessado que adquiri, imediatamente, o Bossa Nova Delhi, mais outros dois registros de Ana Rita, os álbuns Mantra 1 (2002) e Mantra 2 (2007). Fiquei fã!

Em Bossa Nova Delhi, após exaustiva pesquisa e imersão na cultura indiana, o trio Ana Rita, Edgar e Ratnabali apresenta dez faixas que combinam as escalas dos ragas e ritmos da terra do yoga com a musicalidade do Brasil, expressa na própria bossa, na toada, no xaxado, no samba, na embolada e na ciranda. Assim, no disco há tablas, kalimbas, harmônios e sítaras combinados com violões, violas caipiras, pandeiros, tamborins e caxixis.

Ana Rita tem uma voz bonita, com um timbre límpido e bastante apropriado tanto para as canções mais mântricas, quanto as mais sincopadas – como o belo samba “Marinheiro Sem Par” e o tema de hoje, “Mais Filhos De Gandhi”.

Dessa vez, transcrevi a letra na íntegra na epígrafe do post, dada a dificuldade de encontrá-la por aí. Basicamente, a canção fala sobre a síntese entre culturas diferentes e sobre as ressonâncias que um pensamento, um gesto ou um ato (como os atos de Mahatma Gandhi), do outro lado do mundo, podem vir a expressar em outro continente (como no bloco afro-baiano Filhos de Gandhi).

No fim, tudo se explica pela unidade que perpassa o universo, constituído pelos mesmos elementos primordiais, os quais são apreendidos como distintos por conta de nossos órgãos sensoriais e pela incessante ação do pensamento analítico – que tudo destrincha e decompõe, mas esquece de fazer o caminho contrário, integrativo, sintético, holístico.

ana-rita-simonka
Ana Rita Simonka: entre um asana e outro, o yoga (união) do oriente com o ocidente.

Ao final da canção, Ana Rita e Ratnabali perfazem um belo dueto com um canto de louvação a Rama, um dos avatares de Vishnu: “Jai jai raghupati raghava rajaram / Patita pawana sita ram / Sita ram jaia sita ram /Bhajo mana piare sita ram”. O encarte traz uma possível tradução:  “Seja louvado o nome de Rama – ele é o senhor, é o amado de Sita. Cante o nome de Rama!”


Bossa Nova Delhi traz também um conteúdo multimídia – o que hoje soa como velharia mas, em 2000, era a coisa mais moderna do mundo – com explicações sobre o processo de composição e gravação de todas as faixas.

Sobre “Mais Filhos De Gandhi”, transcrevo as explicações completas:

A palavra “mais”, que permeia toda a letra da canção, é uma forma de ressaltar a síntese que anima todo o tipo de sincretismo, criando um canto de somatórias – onde o tempo e a distância não são impecilhos para a concretização das mensagens, e das atitudes siginificativas. Assim, o poema evoca também as Catedrais de Salvador, e não esquece de citar o Jardim de Alá – famosa praia assim batizada pelos primeiros escravos muçulmanos, impressionados com a sua beleza – reunindo num mesmo sentido o homem e a obra da natureza.

O ritmo do violão é inspirado em Afoxé, combinado com o toque indiano Kaharwa – utilizado em Bajans (cantos devocionais). O refrão final é Ragupat Ragava, uma canção muito conhecida e tradicional da Índia. Foi escolhida por ser a preferida de Gandhi, uma vez que o texto fala sobre fé e igualdade, não importando a religião, mas sim, a crença. A melodia foi adaptada para ser inserida no That que inspirou a composição, That Kafi.


Em 2012, o Sesc São Carlos realizou um incrível festival de yoga, do qual participei ativamente. Uma das atividades foi uma aula-recital de mantras com a própria Ana Rita, de quem peguei mais um autógrafo para nossa galeria:

cd-mantra.jpg

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