43. Wilson Simonal: “Resposta” ou “Aleluia, Aleluia (E Ainda Tem Mais)”

Quem dera que Paris fosse tropical
Tivesse uma nega Teresa, muita alegria e carnaval
Sou da paz e do amor
Minha mentalidade é mediana
Mas eu não devo nada a ninguém
Eu tô na minha
Por isso gosto de andar de trem


Mikhail Mikhailovich Bakhtin, na obra Estética da criação verbal (Tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997), traz o texto “O gêneros do discurso”, que aborda a teoria do enunciado concreto, elaborada por um círculo de estudiosos soviéticos nos anos 1920 – entre eles, Valentin Nikolaevich Voloshinov, autor de Marxismo e filosofia da linguagem.

Segundo esses autores, apesar de a língua lidar com entidades abstratas como palavras e orações, seu efeito comunicativo concreto se deve a um conceito diverso, o enunciado. Os enunciados são as unidades de sentido que permitem as trocas verbais. Todo enunciado, assim, responde a um enunciado anterior, antecipa uma resposta posterior e, efetivamente, é respondido por ela – mesmo que esta venha na forma de silêncio, que também não deixa de ser um enunciado. Um enunciado é, simplesmente, um elo na cadeia da comunicação verbal.

Assim, um enunciado pode ser demarcado, abstratamente, por uma oração ou mesmo uma única palavra (uma resposta lacônica do tipo “Sim!” ou “Não…” é enunciativa). Brait e Melo (“Enunciado/enunciado concreto/enunciação. In: Brait, B. (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2012), revisando conceitos na obra de Bakhtin, afirmam que o chamado enunciado concreto, ao longo de seus diversos textos e em diferentes traduções, será “substituído ou fundido na idéia de palavra, de texto, de discurso […], o que não causa nenhum problema à sua compreensão […]” (p. 67).

É o caso de nos perguntarmos se um enunciado pode assumir também a forma de uma canção. E acredito que um bom conhecedor do cancioneiro brasileiro dirá que a resposta é sim – lembrando o notório episódio de réplicas e tréplicas entre Noel Rosa e Wilson Batista, que gerou clássicos como “Lenço No Pescoço” e “Palpite Infeliz” – para saber mais, acesse o Portal Vermelho.


A canção de hoje também protagonizou um diálogo – ou seria uma troca de farpas? – entre grandes nomes da música brasileira. Hoje, como o foco é a polêmica, não vou fazer análises nem comentários aprofundados sobre as canções tematizadas.

Embora alguns considerem que essa polêmica – cujos principais envolvidos foram, de um lado, Jorge Ben e Wilson Simonal, e de outro, Juca Chaves – tenha se desenvolvido entre 1969 e 1972, o período do embate foi mais curto, cessando em 1970, como esclarece o Arquivo do Sambarock.

Então tudo começa com “País Tropical”, a conhecidíssima canção de Jorge Ben, lançada em 1969 por Simonal e, no mesmo ano, gravada também por Gal Costa e pelo próprio Jorge. A letra dispensa transcrições, sendo um dos grandes clássicos do que um dia se tornaria o samba-rock:

Nessa versão, ao contrário do estilo popularizado por Jorge Ben, a levada é conduzida pelo piano de César Camargo Mariano, que também assina o arranjo.

É lógico que uma obra tão ufanista, em plena vigência do AI-5, não passaria despercebida por uma personalidade matreira como a de Juca Chaves. Ainda no exílio na Europa, o compositor carioca responderia a “País Tropical” com uma sátira: o compacto Paris Tropical/E no fundo era igual às outras (1970).

Juca, ao mesmo tempo, ri de sua situação e da aparente incoveniência de uma exaltação tão descarada das belezas naturais do Brasil. Os personagens de “País Tropical” são simplesmente engolidos pela zombaria de Juquinha em “Paris Tropical”: “Alô Brasil, alô Simonal / Moro e namoro em Paris tropical / Tereza empregadinha, eu sou seu patrão / Vendi meu Fusca e o meu violão / Tenho um Jaguar, só ouço Bach / Eu como estrogonofe em lugar de feijão / Mas que Patropi [que] nada, isto é que é um vidão! / Alô Brasil, alô Jorge Ben / Eu vou de metrô, você vai de trem”. Ouça e se divirta:

A resposta não tardaria, e viria com o próprio título de “Resposta” ou, dependendo da versão, “Aleluia, Aleluia (E Ainda Tem Mais)”. A canção foi registrada em um compacto pelo Trio Mocotó, e aparece também EP Simonal (1970). Nessa troca enunciativa, se podemos assim chamar, observa-se que Wilson se converteu numa espécie de porta-voz de Jorge Ben.

Quanto à canção propriamente dita, temos mais um som balançado, que ameaça uma levada de piano (como em “País Tropical”), mas logo cede a palhetadas de guitarra, combinadas com bons fraseados de sopros. O som é expansivo, efusivo, vibrante, comunicando uma mensagem alegre, que contrasta com a letra, cheia de verdadeiros “dedos na cara” de Juca Chaves. E termina com a maior provocação de todas: a zombaria com o nariz avantajado de Juquinha:  “Pois eu sou um amante, um amante do meu país / Eu sei onde é o meu lugar, eu sei onde eu ponho o meu nariz! / Eu sei onde é o meu lugar, eu sei onde eu ponho o meu nariz!”.

A dissertação de mestrado de Gustavo Ferreira (Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga: Wilson Simonal e os limites de um memória tropical. 2007. 300 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, 2007) explica a menção à “mentalidade mediana”, termo que já vinha desde “País Tropical”, e que Simonal traz de volta em “Resposta”:

Embora pareçam ingênuas, tanto Resposta quanto País Tropical possuem um ponto em comum: ambas fazem apologia ao homem comum, de “mentalidade mediana”, que pode “não ser um band leader / mas lá em casa [s]eus camaradinhas [o] respeitam”. Por “mentalidade mediana” o compositor não queria dizer pouco inteligente, mas um pensamento comum, hegemônico entre os populares. Jorge Ben parece captar muito mais a essência, a alma do brasileiro, do que qualquer outro compositor. O sujeito comum cantado por Simonal estava empolgado com o discurso nacionalista do governo, amante da natureza, das festas e do esporte no país, e que não leva desaforo pra casa (p. 188-189).

“Resposta” deixa muito claro que, realmente, não há desaforos a se levar. E Juca parece ter entendido a lição: de modo a apaziguar o ânimos, lançou o compacto Take me back to Piauí/Vou viver num arco-íris, ainda em 1970. Como fizera em “Paris Tropical”, Juquinha novamente se apropria das marcas estilísticas típicas do som de Simonal e de Jorge Ben, trazendo um samba-jazz encorpado por uma big-band, além de uma cuíca super malandra.

Mas será que a ideia era encerrar a polêmica de uma vez por todas, reconhecendo um equívoco? Penso que Juca foi mesmo é tremendamente irônico. Acompanhe a letra: “Hey hey, dee dee, take me back to Piauí / Adeus Paris tropical, adeus Brigite Bardot / O champanhe me fez mal, caviar já me enjoou / Simonal que estava certo, na razão do Patropi / Eu também que sou esperto vou viver no Piauí! / […] Minha terra tem Chacrinha que é louco como ninguém / Tem Juca, tem Teixeirinha, tem dona Hebe também / Tem maçã, laranja e figo / Banana, quem não comeu? / Manga não, manga é um perigo / Quem provou quase morreu! / […] Mudo meu ponto de vista, mudando de profissão / Pois a moda agora é artista / Ser júri em televisão / Tomar banho só de cuia / Comer jaca todo mês / Aleluia, aleluia vou morrer na BR-3!”.

Nessa nova sátira, sobra até para o diretor Carlos Manga (em seu imbróglio com Cidinha Campos) e aparecem outros personagens da “minha terra” (referência à “Canção Do Exílio” de Gonçalves Dias) –  reduzida a seus programas de auditório (repare nas menções a Hebe Camargo e a Chacrinha) e a belezas naturais esterotipadas (vide a lista de frutos, em que não poderia faltar a banana). Ouça:

O que será que Simonal e Jorge Ben pensaram de tudo isso? Acho que, no fim das contas, todos os envolvidos deram uma sonora gargalhada!

wilson-simonal.jpg
Simonal: da polêmica com Juca Chaves, herdamos um diálogo com quatro incríveis enunciados-canções.

Não deixe de conferir o registro do Trio Mocotó, a que se intitula “Aleluia, Aleluia”, trazendo versos que não são cantados na versão de Simonal:

Ouça também o que Juca faz com “Paris Tropical” no espetáculo O pequeno notável: “Alô Brasil, alô meu Pelé / Eu bebo champanhe, você bebe café / Alô Brasil, alô meu Edu / Eu tomo champanhe e você toma…” (aos 18’03”):


Um dos compactos de Simonal, à época, trazia “País Tropical” como lado-B. O lado-A era minha favorita desse controverso cantor, “Nem Vem Que Não Tem”. Ela foi sugerida como tema do blog pelo meu querido Gustavo Metzker. Foi uma ótima sugestão! Mas tenho certeza que meu chapa irá perdoar e entender o porquê de preferirmos falar sobre “Resposta”. Assim, tive uma desculpa para explorar mais a obra de Juca Chaves, para além de “A Cúmplice”, trazendo à baila também Jorge Ben – que receberá um post só dele, em breve.

Minhas desculpas/agradecimentos, Metzker!

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