44. Lulu Santos: “Papo Cabeça”

Como vai você hoje em dia?
Espero que esteja tudo bem
Eu ando tentando ver o lado zen
O que é que nos ensinam
Nossos mesmos velhos males


Meu colega Léo Nogueira criou recentemente uma nova série em seu O X do Poema: Minhas Top5. A estreia dessa nova coluna trouxe ninguém menos que Lulu Santos, o artífice do pop(-rock) nacional. Eu não poderia concordar mais com as cinco canções eleitas pelo Léo: “De Repente, Califórnia”, “Tão Bem”, “Tempos Modernos”, “Tudo Azul” e “O Último Romântico” (talvez minha favorita, ao lado de “A Cura”).

Assim, como já temos excelentes comentários sobre essas obras, escolhi uma outra para tratar aqui, nem sempre lembrada nas listas de 5, 10, 20 mais: “Papo Cabeça”.

Lembro que, aos 11 anos, quando comecei a explorar os K7s que meu pai gravara no seu período de dekassegui no Japão, havia descoberto uma fita só com Legião Urbana, com o Dois (1986) na íntegra, mais algumas faixas do ao vivo Música p/ acampamentos (1992). Gostava muito de pular de “Eduardo E Monica”, no lado-A, para “‘Índios'”, no lado-B, pois a localização das faixas era próxima: encerrada uma, bastava inverter a fita para começar a escutar a outra, e aí era um ciclo sem fim.

Mas nas vezes em que escutava a fita toda, algo me chamava a atenção: para completar o tempo de gravação, meu pai inserira um fragmento de canção que não pertencia à Legião, com guitarras triunfantes, variando sobre um acorde maior, até entrarem os vocais de Lulu Santos: era justamente “Papo Cabeça”.

Minha maior frustração era a interrupção da faixa, que durava só um minuto naquela fitinha. Mais tarde, descobri que meu pai havia comprado, também no Japão, uma coletânea de Lulu, Satisfação (1992), com uma capa pra lá de pintosa:

satisfacao.jpg

Fui correndo ouvir o CD atrás da canção de título desconhecido… e nada. Foi bom para (re)conhecer outras canções, das quais eu lembrava vagamente por terem sido bem tocadas, como “Casa (O Eterno Retorno)” e “Minha Vida”, mas não tinha a que eu buscava.

(Provavelmente, fiz uma audição apressada e mal-feita, pois a faixa está sim presente na coletânea).

Foi só com os tempos da internet que acabei descobrindo que a tal canção se chamava “Papo Cabeça”, e finalmente pude escutá-la (à vontade) inteira.


“Papo Cabeça” foi lançada no álbum Honolulu, de 1990.

Como disse, a canção começa com bons sons de guitarra, como é de praxe na obra desse exímio músico que é Lulu. Quando a banda passa a acompanhá-lo, ouve-se também uma bela gaita de boca ao fundo. Certa vez, escutando a faixa, pensei: “Só pode ser o Milton Guedes!”… Na mosca!

A letra ensaia um diálogo, iniciando com a pergunta “Como vai você hoje em dia?”. O que me remete a “Sinal Fechado” de Paulinho da Viola: “- Olá, como vai? / – Eu vou indo, e você, tudo bem? / – Tudo bem, eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você?”. Mas, no caso de Lulu, o diálogo mais parece um monólogo, pois as respostas do interlocutor são antecipadas pelo sujeito enunciador, que aproveita a conversa informal para fazer um discurso exortativo, positivo, quase de auto-ajuda, culminando no refrão: “Pois sempre houve espinhos / Nas rosas de qualquer jardim / E se há calor no ninho / Há pedras no caminho / E ainda assim é belo”.

Em certo momento, aparece a menção ao zen-budismo, também referenciado em outro clássico de Lulu, “Como Uma Onda (Zen Surfismo)”. Em “Papo Cabeça”, a voz da canção confessa: “Eu ando tentando ver o lado zen / O que é que nos ensinam / Nossos mesmos velhos males”. A tentativa de transmutar os percalços da vida em aprendizados – enunciada nesse último fragmento transcrito, assim como no refrão – é, de fato, uma postura zen. O que é zen, de Francisco Handa (São Paulo: Brasiliense, 1991), fala sobre esse aspecto do budismo japonês. Compare os versos de Lulu com essas palavras de Handa, especialmente ao final do excerto:

Inúmeras vezes, nas palestras do Sôokan Aoki, em plena cerimônia fúnebre […], ele alertava com objetividade os crentes: “Estamos caminhando em direção ao dia de nossa morte”. Ninguém desejava ouvir palavras tão ásperas. Soavam piores que a especulação filosófica de Heidegger: “O homem é um ser para a morte”.

As palavras do Sôokan Aoki eram justamente para causar “náusea” entre os presentes. Assiste-se à morte do outro, vai-se ao seu enterro e ao culto em sua intenção. Ninguém pensa na própria morte. Essa “náusea” causa tremor ao saber que um dia vamos morrer. A lição zen é que vivamos intensamente dia-a-dia, como se a cada dia fôssemos morrer. Saber viver ninguém ensina. Cada um aprende por experiência própria (p. 20-21).

Pois “Papo Cabeça” fala justamente sobre isso: o aprendizado com a própria experiência, o mergulhar na vida. Surge, aí, um paradoxo – bem ao feitio, aliás, da sabedoria zen com seus koans: “Eu tô indo à vida / Com a determinação de um trem / Como um faminto em um prato de comida”, diz o sujeito da canção. Ora, o homem caminha em direção à morte, e isso é natural. O antídoto para essa náusea existencial, para o sofrimento inerente à vida (detectado pela primeira das Quatro Nobres Verdades afirmadas pelo Buda histórico, Sidarta Gautama), é não se deixar paralisar por isso: apenas viver, sem obstáculos na mente, sem se deter diante do que, afinal, é inevitável. Eis o caminho para a iluminação: entregar-se à vida, ao aqui e agora, com a determinação de um trem, com fome de viver.

Assim, note como a dialética vida/morte orienta o caminho para a felicidade. Note também como esse caminho – apontado por outras tradições espirituais como árduo e sofrido, cercado de renúncias, culpas, expiações e julgamentos – é proposto em termos modestos, pela sabedoria zen. Um mestre zen, perguntado sobre a via para a iluminação, apenas respondeu: “Quando estiver com fome, coma; quando estiver com sono, durma”.

Lulu Santos captou essa visão. A partir de um momento prosaico do dia-a-dia, um papo casual, discorre sobre uma doutrina de imensa sabedoria, transmitindo uma mensagem cabeça.

lulu-santos.jpg
Lulu Santos: em suas canções, a via zen para a felicidade.

Em seu Acústico MTV II (2010), Lulu releu “Papo Cabeça” com uma introdução meditativa, oriental – ressaltando que a canção transmite um ensinamento zen. Fora isso, o arranjo é praticamente idêntico ao original de 1990:

E recentemente, o tributo O funk canta Lulu (2018), organizado pelo DJ Sany Pitbull, trouxe uma releitura bacana de “Papo Cabeça”, defendida por Naldo Benny. Ouça:

5 comentários

  1. Vou copiar aqui o que te respondi em meu blogue:

    [
    Salve, Miyage san! Como vai?

    Acabo de ler seu texto. Fiquei contente em saber que nasceu furto do meu e sobretudo gostei de ver o modo como tratou da canção “Papo Cabeça”, que é realmente muito bonita, mas às vezes fica esquecida/espremida entre tantos hits lulu-santeiros. Gostei do espaço. Voltarei a passar por lá.

    Em tempo — e por falar em tempo —, em relação à coluna “Canções em Colisão”, pretendo retomá-la, já tenho inclusive duas ideias (e quatro canções) em colisão. O que tem me faltado é o supracitado… tempo, tempo, tempo, tempo…

    Abração,
    レオ。
    ]

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    1. Grande Léo… que honra receber sua visita aqui! E que bom que gostou do texto. É difícil chegar perto da qualidade de seus escritos, mas vamos nos inspirando e furtando/frutando as boas ideias alheias!
      Sobre as Canções em Colisão, abordamos uma espécie de “colisão quádrupla” aqui mesmo, no post sobre Simonal. Realmente é muito interessante mostrar como uma canção pode dialogar – ou discutir – com outra. Essa coluna vai dar samba, tenho certeza.
      Abraço do Miyage-san

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  2. Me lembrei de quando comprava fita K-7 pirata,sempre tinha no final um trecho de alguma música,era sempre as melhores.Quanto ao post,um dos melhores textos sobre uma música que eu não conhecia.

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    1. Muito obrigado pelo elogio e pela audiência fiel! Gosto de lembrar dessas estórias do bom e velho cassete, até pra dar mais valor às facilidades digitais de hoje. Quanto à canção, uma pérola do repertório de Lulu.

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