45. Transmissor: “Bonina”

Dizem por aí amor, que você
Tem estado em outro alguém, mais além
Dizem por aí meu bem, que o azul
Se trocado por anil, não dá tom
Eu pinto o amor com cor demais, sementes
Pra toda hora que eu olhar, a bonina nascer


Não sou lá uma pessoa que se deixa levar por fortes emoções. Mas se há algo que me irrita, são os comentários, no YouTube, em clipes de canções antigas. É sempre a mesma ladainha: “naquela época a música era boa”, “havia canções de verdade”, “hoje as pessoas só ouvem Anitta e Pabblo Vittar”, “nasci na época errada”… Aaaarrrgh!

Sempre que leio coisas assim, me vêm mil pensamentos: por que perder tempo lançando tanta energia negativa no ar? Para quê desqualificar o artista de quem não gostamos, em vez de enaltecer as qualidades do som que curtimos? Essas pessoas não percebem que – como me ensinou um sábio, olhe só, comentário no YouTube… – a melhor época para se nascer é sempre HOJE, pois podemos escutar todos os sons do momento e do passado, sem restrições?

E, ao ler tais comentários, lembro também dessa banda mineira que merecia, de fato, ser mais conhecida, o Transmissor – que vem criando canções de altíssima qualidade, aqui e agora.

Conheci o som deles por meio de alguma leitura sobre o Clube da Esquina, em que o autor do texto dizia reconhecer ecos de Milton, Lô Borges e companhia nas canções. Na verdade, já conhecia o conjunto pela sua releitura da linda “Pois É”, dos Los Hermanos, no disco-tributo Re-trato (2012). Aliás: também conhecia o guitarrista-baixista Henrique Matheus, que à época integrava a banda de Lô, e que vi ao vivo em São Carlos.

De qualquer forma, não liguei o(s) nome(s) à(s) pessoa(s), e fui logo ouvir o disco Nacional (2011) atrás desses ecos esquinenses. Não me decepcionei, pelo contrário: até me enamorei por uma canção com enorme apelo pop, uma introdução meio à The Cure e uma melodia bem legião-urbanesca, “Bonina”.

Achei tudo ótimo nessa faixa: os timbres do instrumental, o encaixe lírico-melódico e as qualidades poéticas do texto cantado. A letra fala sobre separação, surgindo como uma espécie de atualização de “Trocando Em Miúdos” de Chico Buarque: a voz que canta mantém resquícios materiais (as fotos) e imateriais (a cor) de uma pessoa (des)amada – entregando no refrão que “Quero devolver, só se você lembrar / A cor que mais gostei, de te ver usar / Leva pra você, já me cansei de olhar / As fotos que tirei, eu guardo só pra distrair”.

transmissor.jpg
O conjunto belo-horizontino Transmissor, atualizando grandes referências da música brasileira e mostrando que o “hoje” – ao contrário do que crê o senso comum – ainda produz canções memoráveis.

Como se não bastassem todas as qualidades da própria canção – composta por Jennifer Souza, Leonardo Marques e Ludmila Fonseca –, existem também os méritos de Marinho Antunes, o diretor do videoclipe de “Bonina”. As cenas mesclam imagens da banda tocando, sendo flagrada por uma fotógrafa, com passagens no estúdio de revelação das fotos (na verdade, o mesmo espaço em que a banda toca, mas cenograficamente rearranjado), que ganham vida com o efeito de motion track.

O que chama atenção, no clipe, é a abundância de cores quentes, especialmente o vermelho que ilumina a revelação dos negativos, em contraste com as menções, na letra, aos melancólicos azul e anil. E o bom, do vídeo no YouTube, é que todos os comentários são elogiosos, embora nenhum seja tão divertido quanto este:

comentario-transmissor.jpg


Veja que o Transmissor é competente também nos palcos. A versão ao vivo de “Bonina” (aqui, em um show em Brasília) é fiel ao registro original e, ouso dizer, soa até melhor:

3 comentários

  1. Eu sou uma pessoa altamente irritável,mas quando leio comentários enaltecendo o passado eu só acho engraçado e até dou like.Mas é claro que mostra uma grande ignorância,eles comparam Elis Regina e Tom Jobim à Anitta e Pabllo não sei das quantas,e esquecem,ou melhor,não sabem que há uma Mônica Salmaso e um Zé Manoel entre outros.

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  2. Caramba! Jamais pensei achar por aqui um relato de “Bonina”, música belíssima e que está entre as minhas preferidas da vida há vários anos. Infelizmente a maioria das pessoas adota uma postura preguiçosa com relação a música e se deixam levar por esses argumentos rasos de que não existe mais música de qualidade sendo feita atualmente. O problema é que hoje temos que ir atrás. Se ouvirmos só o que toca na grande mídia ou em uma versão mais moderna o que os algorítimos sugerem, fica difícil. Existem diversas bandas meio rock, meio pop, meio mpb, que habitam ou habitaram o chamando “underground” nacional que são verdadeiras pérolas, a exemplo da Transmissor. Apenas para citar algumas: Apanhador Só, Poléxia, Wonkavision, El Efecto, Violins, Pullovers, Ludov, Moptop. Gram, Terno Rei, Dingo Bells, O Terno, Parafusa e mais um monte que certamente estou esquecendo agora.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Denis. Que legal que o tema da postagem surpreendeu você, tratando de uma canção de sua predileção. Eu também adoro “Bonina” e não canso de assistir ao videoclipe.
      E é exatamente isso que você expõe tão bem em seu comentário: a produção cancional brasileira continua pujante e com excelente qualidade, mas as grandes canções, e o artistas merecedores de uma escuta atenciosa, não têm chegado facilmente ao grande público.
      As bandas que você elenca são um exemplo de como há ainda muitos ótimos sons a se conhecer por aí. Quando eu frequentava festivais, tinha um acesso relativamente fácil a isso (por exemplo, foi num festival que assisti a um excelente show do Apanhador Só, acho que num já longínquo 2010!). Com a pandemia e a suspensão dos festivais, mais um obstáculo surgiu…
      Não tem jeito, o negócio é garimpar na internet e abrir-se à descoberta do novo, que, como diria Belchior, “sempre vem”!
      Abraços e grato pelo comentário.

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