47. Guilherme Arantes: “Nave Errante”

Minha casa é uma nave
E eu trafego só
Sem contato com viv’alma, no silêncio frio das trevas
Na jornada, uma pane
E eu não volto mais
Vou através da galáxia
Se não entrar n’alguma órbita


Guilherme Arantes é um artista que marcou diferentes fases de minha vida. Lembro de algumas canções que tocaram muito em rádios, nos tempos de molequinho (por exemplo, “Cheia De Charme”); depois, afetou-me especialmente “Hora De Partir O Coração”, seu grande hit de 1996, época em que ganhei meus primeiros discos e passava horas escutando FMs; e anos depois, o cantor e pianista paulistano embalaria minha estreia no magistério, quando roubei a coletânea dupla Bis, de meu pai ou minha mãe.

Nessa época, Guilherme fez um belo show em São Carlos, cantando quase tudo o que eu queria escutar: “Meu Mundo E Nada Mais”, “Pedacinhos”, “Coisas Do Brasil”, “Planeta Água”… menos uma canção que eu já imaginava que não estaria no repertório, mas não custava me esgoelar pedindo: “Naaaaave Erraaaaanteeeee”! Não colou. Mas, sem crise.


“Nave Errante” abre o lado-B do epônimo LP de estreia do cantor (egresso do conjunto Moto Perpétuo), de 1976. É uma canção pop, com refrão marcante e três minutos de duração. Mas, sob a superfície dessa fórmula para o sucesso radiofônico, há muito mais do que um hit oitentista.

Em primeiro lugar, ressalte-se o instrumental, grandioso, estravagante, épico. Além do próprio Guilherme Arantes no piano e nos sintetizadores, temos ao menos três grandes participações na condução da faixa: Eurico, o Kiko do Roupa Nova, adorna a faixa com belos fraseados de guitarra, desde a introdução; Nando, também do Roupa Nova, faz uma linha de baixo que não se resume a acompanhar o pulso, mas invade a região aguda do instrumento, propondo um verdadeiro contraponto à melodia; e Altamiro Carrilho, o maior nome da flauta transversal no Brasil, também participa, embora de modo mais discreto. Sem contar a presença do naipe de metais e da orquestração. Esmero demais para uma simples canção pop, não é mesmo?

Depois, temos a letra, que fala sobre uma viagem no espaço sideral. Exercício de ficção científica ou metáfora para a solidão? O refrão é o ápice da desorientação, do erro (no sentido do verbo errar, vagar sem rumo): “Oh! Terra, oh! Terra, / Onde é que estou? / Me sinto sempre mais distante / Oh! Terra, oh! Terra, / Onde é que estou? / Fechado nesta nave errante, errante”. Sob o ponto de vista do assombro que acomete o sujeito, ganha força a hipótese da metáfora. Por outro lado, a segunda parte da canção não corrobora essa proposição, pois traz de volta os elementos literais da viagem espacial: “São cruéis os milenares astros / Com seres mortais / Eles não se importam muito comigo / Porque são velhos demais”. Nesse momento, Guilherme canta em falsete, o que ressalta seu aturdimento e sua pequenez diante dos corpos celestes por que passa.

Ora, por que não combinar a metáfora com a interpretação literal? Não estamos todos, em realidade, vagando por uma nave errante pelo espaço sideral, estupefatos com a imensidão galática que atravessamos sem rumo, por entre astros de tamanhos descomunais, e solitários, sem sinais de outros “seres mortais”, que (se existem) parecem não se importar conosco?

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Guilherme Arantes: do Moto Perpétuo às viagens intergaláticas, um talento que nenhuma lei da física pode explicar.

Destaco ainda, sobre a letra, as expressões “viv’alma” e “n’alguma”, contrações muito mais típicas no português de Portugal, o que acrescenta outra camada de sentido à jornada narrativa do sujeito enunciador – que vaga pelo espaço sideral como erravam os portugueses, com suas imensas embarcações, à espera de chegar a seu destino, mesmo que fosse o destino… errado.

Por fim, para além do instrumental e da letra, temos as qualidades harmônicas de “Nave Errante”, que se aventura – estou tentado a dizer, novamente, erra – pelo campo harmônico de Mi Maior, explorando a própria escala jônica, mas incorporando recursos como o baixo pedal e acordes invertidos aqui e ali (como E/G#, A/C# e D/F#). No entanto,  espantosa e abruptamente, a harmonia é modulada para o campo de Sol Maior bem no meio do refrão, destacando, na letra, o assombro do sujeito que se vê sem direção e, pior, sem ninguém que possa orientá-lo em sua jornada.

Perplexo não está apenas o sujeito da canção… mas quem a ouve, tamanha a riqueza semiótica nela condensada, e o investimento em termos de arranjo e execução.

Guilherme é insuperável.

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