48. Joyce: “Pesadelo”

Quando o muro separa, uma ponte une
Se a vingança encara, o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua, ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí


Algumas canções são simplesmente necessárias. Cabem perfeitamente em seu tempo histórico, traduzindo o sentimento de todos que o atravessam. Depois, podem até perder a atualidade, mas não perdem a pertinência, nem sua importância frente à história.

Se a marcha histórica, o movimento da produção e reprodução das condições de existência do homem, fosse linear, poderíamos imobilizar algumas dessas obras numa espécie de “museu da canção”, onde atrairiam a curiosidade dos visitantes, tornando-se marcos ou monumentos à práxis de todos que nos antecederam.

Mas não é bem assim. A história não é uma linha reta e seu movimento pode ser descrito com mais precisão a partir da metáfora da espiral: para algum lugar estamos indo, mas fica o sentimento de déjà-vu, repetindo-se os mesmos erros de outrora, como a se humanidade patinasse em sua jornada.

E, por conta disso, precisamos, de tempos em tempos, resgatar algumas canções, que voltam a ser atuais – podendo orientar a reflexão ou mesmo a ação para que, aí sim, possamos fazer a história andar novamente.

“Pesadelo” é uma canção assim, e basta ler os versos da epígrafe do post para se convencer de sua atualidade. Se a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa, como diria Marx, não temos nada a celebrar. Mas podemos, sim, admirar a sensibilidade de um compositor como Paulo César Pinheiro que, junto de Maurício Tapajós, criou um dos grandes hinos brasileiros da resistência a todo e qualquer autoritarismo.

A obra apareceu, pela primeira vez, no disco Cicatrizes (1972), do MPB-4. Espantosamente, foi gravada sem qualquer intervenção da censura, e isso já na época do AI-5. É o próprio Paulo César Pinheiro quem explica o porquê disso, em entrevista a Luiz Nascimento, do portal A Nova Democracia:

AND – Algumas músicas claramente contra o regime passavam, outras, que não tinham esse teor, eram vetadas. Por que isso?
Uma lupa se voltava sobre o que era dito pelas pessoas marcadas. Outras, não. Músicas de carnaval, aquelas rotuladas de “brega”, sempre passavam batidas, eram carimbadas e liberadas. Certa vez aconteceu um fato curioso com uma música, minha e do Maurício Tapajós, chamada Pesadelo, que virou um hino de guerra. Quando fizemos a música, mostramos para o pessoal do MPB-4: “Não adianta nem pensar na gravação; não vai dar nem pé”. E a gente disse: “Se passar, vocês gravam?”. Um pouco descrentes, eles responderam sim.

Fui contratado pela Odeon e fiz um disco em 72. Comecei a entender o funcionamento das gravadoras, e via como elas mandavam as músicas para a censura. Num determinado momento, a censura nem aceitava mais a letra escrita, queriam a gravação, porque na gravação poderia conter uma segunda intenção. Então eu disse: “Olha, eu vou fazer uma malandragem. Vou mandar essa música no meio de um bolo que a Odeon sempre manda.” Era um período em que havia muito material para mandar. Tinha um disco do Agnaldo Timóteo, com aquelas canções derramadas, e outras coisas românticas. Pedi a um funcionário da casa que enfiasse Pesadelo no meio desses discos. Assim, a música veio liberada. E o MPB-4 a gravou.

Mesmo depois de liberada, as pessoas tinham medo de gravar, mas o MPB-4 sempre foi valente. Apesar disso, toda vez que eles cantavam Pesadelo, ninguém entendia como tinha passado pela censura. As emissoras de rádio começaram a não tocá-la.

AND – E qual a música desse período que mais te marcou?
Pesadelo, sem dúvida. Contaram que durante a Guerrilha do Araguaia, na selva, eles cantavam Pesadelo. Dizem ter sido a música que mais ajudou, nessa fase de luta armada, a todos eles, a mais forte politicamente que a gente fez, e a única direta, sem subterfúgios, sem metáforas, que passou.

O registro do MPB-4 é um dos grandes clássicos do conjunto vocal, e teremos nova oportunidade, neste blog, de falar sobre outro petardo de Cicatrizes – mas não vou adiantar qual. Por ora, ouça a versão originalíssima de “Pesadelo”:

Em termos composicionais, “Pesadelo” é um samba que se desenvolve harmonicamente sobre um único acorde (D7/9), cedendo a uma variação breve apenas no verso que fala sobre o “o braço do Cristo”, e logo retornando ao modalismo. Nesse aspecto, e conhecendo a interesse de Paulo César pela capoeira, leio a canção como uma espécie de jogo-de-luta-dançada (como alguns acadêmicos costumam se referir à luta negra que se desenvolveu no Brasil). Para cada ataque, uma reação que é, ao mesmo tempo, defesa e novo ataque: a capoeira é um círculo, é a roda. (A roda da história?). Assim, graficamente, temos a seguinte distribuição entre os ataques do regime (que chamarei de polo negativo) e as reações/contra-ataques da resistência (o polo positivo):

negativo positivo
Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem, me agarra alguém vem, me solta
Você vai na marra ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
Você corta um verso eu escrevo outro
Você me prende vivo eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha o verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí

Observando a distribuição acima, fica patente que luta se desenvolve em diversos rounds ou jogos. Os versos “Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando / Que medo você tem de nós, olha aí”, pela referência ao retroceder, representa uma vitória do campo negativo. Mas após uma nova troca de ataques, a voz que permanece é mesmo a voz da história, que vence a batalha e encerra a luta como um todo, acenando não mais para o ontem mas, agora, para “o dia de amanhã”.

Anos depois da gravação do MPB-4, a cantora carioca Joyce – hoje, Joyce Moreno – também registrou a canção, em seu disco Passarinho urbano (1976), lançado inicialmente na Itália. Considero essa a melhor versão, conduzida apenas com o auxílio do violão da cantora, inicialmente dedilhando e, depois, introduzindo a batida do samba. Aqui, há o revezamento de dois acordes, o que potencializa o clima da letra, com o embate negativo/positivo.

Gosto também da maneira como Joyce demarca o “olha aí” – antecedido de um silêncio, na primeira vez em que é cantado, e depois sussurrado, ao final da canção. O arranjo, assim, valoriza o canto enquanto forma de resistência, ora mais silenciosa, ora mais expansiva, mas (quase) sempre clandestina.

E, por sinal, Passarinho urbano reúne, junto de “Pesadelo”, outras grandes canções de nossos compositores. A obra merece uma avaliação mais séria e uma audição atenta, principalmente nos tempos que estamos vivendo.

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Joyce, a bela voz que potencializou o canto clandestino de “Pesadelo”.

“Pesadelo” foi regravada por muita gente. As versões variam de ótimas a curiosas. Por exemplo, no disco Banquete dos mendigos (1974) – organizado por Jards Macalé em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos – consta um pot-pourri defendido pelo MPB-4 e por Chico Buarque, mesclando a canção de Pinheiro e Tapajós a “Quando O Carnaval Chegar” e “Bom Conselho”. Mais recentemente, destaco as boas versões de Gisele Meira, registrada em E um verso vem vindo (2009) e Daíra Sabóia, em Flor (2014).

Mas há dois grandes destaques a se fazer, referentes às translações de “Pesadelo” para o universo do rock – gênero contestador por excelência e, por isso, ambiente mais que favorável a recriações que intensifiquem o caráter combativo sugerido pela letra.

Assim, temos a clássica releitura dos Inocentes em seu essencial Adeus Carne (1987), talvez o primeiro disco punk conceitual da música brasileira:

Bem mais recentemente, a cantora Marya Bravo gravou um álbum apenas com obras como “Pesadelo”, notáveis por sua contraposição à ditadura civil-militar iniciada em 1964. O disco recebeu o nome de Comportamento geral – canções da resistência, sendo lançado nas plataformas virtuais em 2014 e recebendo uma versão física em 2016. Há ali, por exemplo, uma boa versão para “Cartomante”, que acabou me escapando no post sobre a canção (se bem que, nessa releitura, o final apoteótico da queda dos reis tenha soado menos poderoso). Já a canção de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós recebeu um arranjo nervoso e um belo videoclipe:

Por fim, até para valorizar um lançamento recentíssimo, trago a versão de Renato Braz, no ótimo Canto guerreiro – levantados do chão (2018), com a participação de Eduardo Gudin no violão:

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