50. Cólera: “Quanto Vale A Liberdade?”

Quanto vale a liberdade?
Pra vocês ela tem um preço
Quanto vale a confiança?
Não quero esperar
Não acredito no seu dinheiro
Onde está o seu caráter
Deve estar perdido em algum beco
Horas você enlouquece
E depois quer fugir
Se refugia como um animal


O Cólera, uma das mais importantes bandas do punk nacional, parece ter nascido para confrontar todos os estereótipos associados ao gênero/movimento – apresentando um discurso que ia do ecologismo ao pacifismo de forma geral, como fica claro na canção “Pela Paz”, dos versos “Eu me importo, eu me importo / Pela paz, pela paz / Pela paz em todo mundo!”, nos shows, cantados em diversas línguas.

“Pela Paz” está no álbum clássico do conjunto, intitulado justamente Pela paz em todo mundo (1986). Nada mal para quem transitava, à época, por uma cena segmentada em diversas gangues, cujos conflitos já levaram a verdadeiras tragédias. Muitas estórias dessa época estão registradas no livro Dias de luta: o rock e o Brasil dos anos 80, de Ricardo Alexandre (2ª ed. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2013) – que frequentemente trago ao blog por um motivo simples: a obra tem índice remissivo!

No mesmo livro, Ricardo Alexandre traz uma descrição desse curioso personagem que foi  Edson “Redson” Lopes Pozzi (guitarra e vocais), que encarnava o Cólera junto de seu irmão Carlos “Pierre” Lopes Pozzi (bateria), mais o baixista Val:

Redson vinha do Capão Redondo, região barra-pesada da zona sul, e era completamente diferente do perfil punk reinante até então. Homossexual, tinha aversão a brigas de gangues e a violência de qualquer tipo, devorava livros sobre yoga, era fã de Lobsang Rampa e de Ignácio de Loyola Brandão. Havia estudado até a oitava série, trabalhava como office boy em um escritório de advocacia no Centro da cidade e editava um fanzine sobre discos voadores. […]

Heroicamente, Redson montou sua própria gravadora, Ataque Frontal, organizou a coletânea Sub e, na sequência, lançou o primeiro disco do Cólera, Tente mudar o amanhã (1985). Logo, o grupo radicalizou na proposta pacifista, incluindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos no encarte do LP Pela paz (1986) e organizando passeatas antiviolência. De todas as principais bandas de sua época, o Cólera foi, sem dúvida, a mais persistente e fiel às origens – Redson preferiu criar um grupo paralelo de new romantic, o Rosa Luxemburgo, a interferir na proposta inicial do trio (p. 63-79).

É uma pena que alguém tão interessante – e, hoje em dia, tão necessário à cultura brasileira – tenha partido tão cedo: nascido em 1962, Redson nos deixou em 2011.

colera
Redson: levando o punk e o hardcore a falarem de paz para todo o mundo.

“Quanto Vale A Liberdade?” apareceu pela primeira vez na coletânea Sub (1983). Trata-se de um hardcore simples e direto, um grito contra toda forma de autoritarismo e mercantilização de valores, como o bem supremo de todo punk, a liberdade.

Curiosamente, hoje é possível ler a faixa não apenas como um grito de liberdade, mas como um grito de independência. Existe a anedota de que os integrantes das bandas de Brasília, especialmente a Legião Urbana e a Plebe Rude, não mediram esforços para que o amigo Redson pudesse ser contratado pela gravadora EMI-Odeon (que lançara, também, os Paralamas do Sucesso). Prado, em sua tese de doutorado (“Caminho para a morte” na metrópole – cultura punk: fanzines, rock, política e mídia. 2016. 316 f. Tese (Doutorado em História Social) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2016), trascreve um depoimento do próprio Redson sobre essa situação:

Quando a gente estourou em 1985, a Wamer, RCA, várias gravadoras procuraram a gente, com a proposta lógica de lançar. A Warner já tinha lançado os Inocentes […] mas eu tinha a Ataque Frontal, e o Cólera era a banda mais forte da Ataque Frontal tanto em vendas quanto em divulgação: era a que mais tocava e a que mais aparecia na rádio e TV. Não tinha o porquê da gente sair da Ataque Frontal e ir para uma Warner, sair do que era seguro para uma coisa insegura. Quando as bandas de Brasília vieram para São Paulo, fiquei amigo da galera da Legião, Plebe Rude, a gente pegou um grau de amizade muito legal. O pessoal da Legião, da Plebe foram na EMI, e vendo a nossa situação, porra, o Cólera tem que acontecer também, e aí eles fizeram na gravadora um esquema para contratar o Cólera. Deixaram tudo pronto, tudo certo, era só assinar o contrato. E eu disse que não! “Porra, mas vocês não falaram nada”. “A pente quis fazer uma surpresa!” “Putz, mas que surpresa, um cavalo de Tróia”. […] eu disse “não” sem pensar duas vezes (p. 180).

Assim, à luz do passado da banda punk paulistana, “Quanto Vale A Liberdade?” pode ser compreendida também como um manifesto pela independência artística – embora a letra tenha sido escrita em outro contexto, o que não deixa de ser um sintoma da extrema coerência com que Redson conduziu sua carreira. Os versos seguintes não mentem: “Quanto vale a liberdade? / Pra vocês ela tem um preço / Quanto vale a confiança? / Não quero esperar / Não acredito no seu dinheiro/ […] Dia após dia eu procuro ir em frente / Vê se me entende / Não há razão, não há razão / […] Agora eu sei que não há preço / Mas me sinto acorrentado / Dia após dia, e não há razão, não há razão”.


Existe uma versão alternativa para “Quanto Vale A Liberdade”, menos tosca que aquela de 1983. Lançada em Caos mental geral (1998), preserva os riffs e o andamento acelerado da gravação original:

Dois anos depois, quando o Brasil vivia uma febre de discos de regravações, os Inocentes lançaram O barulho dos Inocentes, relendo clássicos do punk brasileiro. Não poderiam faltar os amigos do Cólera, representados por uma versão especialíssima para “Quanto Vale A Liberdade?”. Assumindo agora tons épicos e um andamento mais cadenciado, Clemente e companhia aproveitaram a ocasião para homenagear também o próprio Redson, fã assumido de música clássica, trazendo para o arranjo uma orquestra de câmara. Ficou, no mínimo, emocionante:

Mais recentemente, a banda paulista A Ferramenta também prestou tributo a esse clássico do Cólera, apresentando uma boa versão que começa punk e depois se envereda por um caminho mais hardcore, no disco Sementes (2016). Confira:

6 comentários

  1. Eu acho a versão “tosca” do SUB maravilhosa ! Hahahahah. Era para o SUB ser um disco apenas do Cólera, porém, o Redson resolveu chamar a galera das outras bandas (ratos, psikóze e fogo cruzado), pra registrar os sons que eles já tocavam ao vivo. Cólera é demais, descanse em PAZ Redson.

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