51. Blues Etílicos: “O Sol Também Me Levanta”

O sol me acorda e ainda é cedo
Eu fico logo de mal humor
A minha cabeça ta rodando,
De onde é que vem esse tambor?
É de manha e eu tô numa ressaca,
Eu me arrasto até o banheiro
Me sentindo enjoado, enfio a cara no chuveiro
É nessas horas que eu digo pra mim mesmo:
Nunca mais eu vou beber
Mas vem caindo a tardinha…
Preparo outra caipirinha


post de hoje é comemorativo. Em quase dois meses de 365 Canções Brasileiras, conseguimos manter a disciplina de um post por dia, abordando 50 canções de 50 diferentes cancionistas. Ao todo, foram mencionados, nessas postagens, exatos 260 diferentes artistas brasileiros, entre instrumentistas, conjuntos, cantores ou compositores.

blog se converteu, rapidamente, em uma ferramenta para diversas finalidades.

Primeiro, para que eu mesmo revisse minha “história musical”, se posso assim nomear o processo de definição de minhas preferências. Perspectiva que meu colega Leonardo Davino, que manteve o blog 365 Canções em 2010 (ao que parece, minha inspiração “inconsciente”), explicitou em uma de nossas conversas: “este trabalho diário é tanto um exercício de disciplina intelectual e foco (em meio ao caos dispersivo da vida contemporânea) e uma prestação de contas com as canções que nos formaram, formaram nosso gosto musical”. Aliás, como alguns posts mostram, as canções têm proporcionado oportunidades não apenas para lançar um olhar sobre meu passado cancional, mas sobre meu passado de forma geral – trazendo, aqui, personagens e estórias que, ainda que pontualmente, merecem ser lembrados.

Em segundo lugar, os posts têm exigido exatamente essa disciplina intelectual de que fala Davino. Sempre quando possível, procuro acompanhar as reflexões postadas com a leitura e a divulgação de estudos que, emanados de diferentes instituições, e sob diferentes perspectivas teórico-metodológicas, também tematizaram a canção popular brasileira. Dessa forma, o blog se tornou um espaço para valorizar e divulgar a produção acadêmica sobre o tema. Modéstia à parte, penso que essa é uma das mais importantes contribuições do 365 Canções Brasileiras, principalmente neste momento histórico de obscurantismo e depreciação do conhecimento científico.

E em terceiro lugar, o blog se tornou um espaço para a convivência e para o diálogo com diferentes interlocutores. Nossos frequentadores incluem os amigos de São Carlos e de Santo André, mas também os criadores de outros blogs que frequento (como o próprio Davino e seu novo Lendo Canção, o Léo Nogueira de O X do Poema, e o Túlio Villaça do Sobre a Canção, entre outros), além dos autores dos trabalhos acadêmicos mencionados em alguns posts (que sempre são avisados quando suas produções são aqui citadas). Fico contente também em perceber que o blog passou a ser frequentado por gente que não conheço, mas que têm me dado uma força enorme pra prosseguir, curtindo os posts, deixando comentários encorajadores ou simplesmente se tornando seguidores. Um grande obrigado a todos vocês!

Nossa perspectiva é, assim, manter o ritmo diário para os próximos 314 posts, aproximando os leitores de outras canções, outros artistas, entre nomes já consolidados e novidades que forem pintando. Infelizmente, não participo de redes sociais, o que dificulta um pouco a divulgação do projeto. No entanto, acho que posso contar com o auxílio de nossa audiência para fazê-lo. Hoje em dia, é fácil até mesmo chegar aos artistas aqui mencionados (coisa que já aconteceu), o que aumentaria o alcance do blog e contribuiria para uma de suas principais finalidades: externar meu reconhecimento e minha admiração pela obras que (en)cantam.

Sigamos em frente.


“O Sol Também Me Levanta” é uma canção relativamente bem conhecida do Blues Etílicos, conjunto que costumava ouvir muito, no início dos anos 2000. O disco San-Ho-Zay (1990), que conheci fuçando na coleção de um tio, rodou bastante lá em casa, à época – e ficava embasbacado com a versão do conjunto para “If I Have Possession Over Judgement Day”, de Robert Johnson, que fechava o álbum.

Àquela época, São Carlos era um ambiente especialmente propício a quem curtisse tudo o que se associa ao blues – que, como o choro, é mais que um gênero, estando mais próximo de um conceito guarda-chuva que abriga diversos estilos, do boogie ao r&b. Tínhamos ali, além do Sanca Blues Festival (de que falo no post sobre “Infinito De Pé”), shows de nossa banda bluseira local, o Blues The Ville, por todos os bons palcos.

Com o título inspirado no romance O sol também se levanta, de Hemingway, a canção de hoje explora um dos temas mais martelados pelo conjunto (que é, provavelmente, o maior expoente do blues no Brasil): a boa velha cachaça. No caso, a faixa não fala da própria, mas dos efeitos de seu abuso – e, na verdade, a conheci pelo título de “Ressaca”, que seria até mais apropriado -, quando rompe a aurora e vem o arrependimento sempre seguido da promessa mais descumprida da história da humanidade, “Nunca mais eu vou beber”.

Um divertido e despretencioso acoustic blues, mas de fácil identificação. Composta pelo vocalista/gaitista Flávio Guimarães e pelo baixista Cláudio Bedran, “O Sol Também Me Levanta” consta no álbum Dente de ouro (1996). Como não encontrei nenhum registro da versão original no YouTube, trouxe como vídeo de abertura do post uma divertida dramatização, usando um fantoche, que o youtuber Tiago Dias criou. Meu agradecimento a ele!

blues-etilicos.jpg
Blues Etílicos: entre um copo e outro, mais de 30 anos produzindo um blues encorpado e com suaves notas de Brasil.

Fuçando no Sound Cloud, encontrei uma boa cover elétrica para “O Sol Também Me Levanta”, por Pablo Coelho e Léo Netto. Não conheço os rapazes, mas gostei bastante da releitura, que você pode conferir clicando aqui.

No DVD Ao vivo no Bolshoi Pub (2012), o Blues Etílicos também fez uma versão elétrica para esse clássico. Veja:

6 comentários

  1. ”Lendo Canção” com Davino,li todos os posts,e cheguei aqui lendo Túlio Villaça,outro craque na matéria.Quanto ao tema da música,eu prefiro nem comentar,babado forte.

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  2. Já assisti a um show do blues etílicos, sem dúvidas a melhor banda de blues no quesito originalidade. Tocaram, além dessa, diversas outras músicas próprias e versões fodas de “blueses” clássicos, incluindo a minha favorita : Louco da cidade. Fazia um tempo que eu não ouvia, vou dar uma viajada na discografia deles hoje. Valeu Rafa

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    1. Também já fui a um show, bem pequeno e intimista, no Sesc São Carlos, acho que em 2012. Excelentes! Não lembro se tocaram “O Louco Da Cidade”, que também curto muito, mas teve uma outra favorita minha: “Misty Mountain”.

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