52. Lô Borges: “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”

Cheguei a tempo de te ver acordar
Eu vim correndo à frente do sol
Abri a porta e antes de entrar
Revi a vida inteira
Pensei em tudo que é possível falar
Que sirva apenas para nós dois
Sinais de bem, desejos vitais
Pequenos fragmentos de luz


Desde sua estreia em disco, no antológico Clube da esquina (1972), Lô Borges não se comportou como um autor muito prolífico, tendo lançado relativamente poucos álbuns. Se, portanto, sua produção cancional não é marcada pela ênfase na quantidade, o mesmo não se pode dizer sobre o aspecto qualitativo. Diversas obras suas mais recentes atestam que os dons do garoto Salomão, enquanto cancionista, não se esgotaram com o peso dos anos – pelo contrário, se aprimoraram.

“Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” é uma dessas pérolas, uma balada pop perfeita. Com letra do irmão Márcio Borges, traz as assinaturas de Lô enquanto um dos mais interessantes harmonistas do Brasil. Vejamos. A canção é baseada no campo de Sol Maior, acorde que marca a introdução, conduzindo ao relativo Mi Menor sobre o qual são cantados os versos iniciais. No entanto, este Em vai sendo lentamente transformado até chegar ao acorde da dominante (Ré Maior), com graus descendentes na escala cromática: Em → Em/D# → Em/D → C#mb5/7 → Cmaj7 → G/B → Am7 → D/F#. Observe que as notas próximas do campo de Dó (subdominante), e mesmo o Ré Maior, são tingidos por sétimas, sétimas maiores e inversões, o que confere um lindo colorido à sequência. Assim, a harmonia traz a sensação de movimento, acompanhando a sucessão de imagens na própria letra.

Esse tipo de encadeamento harmônico é relativamente comum na obra de Lô, sendo encontrado, por exemplo, desde lá atrás, com “Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo” (1972), até “Dois Rios” (2003) – esta, gravada inicialmente pelo Skank. Lembra também as brincadeiras fractais nas harmonias de Philip Glass, sendo o exemplo mais concreto, ao meu ver, a obra para piano Metamorphosis, especialmente a peça “Metamorphosis 1”. Perceba que Lô também opera verdadeiras metamorfoses harmônicas, até que a pupa da tônica se transmute na borboleta da dominante.

O mesmo ocorre também em “Onde A Gente Está”, que o Songbook Lô Borges chega a considerar como uma continuação de “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”, devido à semelhança harmônica. Compare as canções:

Sobre a letra de Márcio Borges, nada como ouvir a explicação do próprio, dada no DVD do registro ao vivo Intimidade (2008):

“Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”: uma música lírica, uma música de amor, falando de sentimentos reais, sobre pessoas de carne e osso. Amor.

Paulinho Moska, que regravou a canção no tributo Mar azul (2015), organizado por Fernando Neumayer e Luís Martino para homenagear o Clube da Esquina, também nos ajuda a compreender a letra e o enigmático título da canção:

São muitos os motivos que me levaram a escolher essa música. Acho que ela teve uma capacidade de me “pegar” na rádio. Eu ouvi a primeira vez e imediatamente grudei na letra, o assunto (o amor) e a frase: “quem sabe isso quer dizer amor”… A ideia de que o amor não se define, né… várias… várias coisas… várias imagens pra dizer “quem sabe isso quer dizer amor”… E também que o amor é a estrada em que o sonho acontece. Certamente foi isso que me pegou. Eu sou do amor. Eu escrevo muito sobre o amor. Eu uso essa linguagem. Amor é Deus pra mim. Eu tenho uma relação assim, muito forte… é… com a palavra amor e com… enfim, com todos os sentidos. Então acho que me pegou por aí. A surpresa de ser uma música pop, também. Ela é beatle. Eu sou louco por canção de rádio. Fui criado assim e…. e essa canção foi uma canção de rádio. Ela me surpreendeu dentro de um automóvel.

lo-borges.jpg
Lô Borges, o gênio por trás das harmonias nada ortodoxas das canções do clube, na esquina entre a beatlemania e a bossa-nova.

A canção apareceu pela primeira vez no disco Pietá (2002) de Milton Nascimento, portanto, um ano antes de constar na obra de Lô, no álbum Um dia e meio (2003). Gosto até mais dessa versão do Bituca, com o violão do próprio Lô e um bom solo de guitarra de Samuel Rosa:

Existe também o já mencionado registro ao vivo de Intimidade (2008), e uma performance voz-e-violão no programa Zoombido, do Moska – e acho que essas gravações pouco acrescentam, em termos interpretativos. Passemos às versões por outros artistas.

Como já foi falado, o próprio Moska defendeu a canção em Mar azul, com uma interpretação intensa e emocionante, apenas ao violão:

Entre outras regravações, temos:

  • A de Bruna Caram, no álbum Feriado pessoal (2009), adornada por bons solos de guitarra aqui e ali;
  • A de Tom Chris, em Quando quiser me ouvir (2015), com uma slide guitar pra lá de invocada, e mesclada de forma surpreendentemente orgânica com “O Sol”, dos também mineiros Jota Quest;
  • A do cantor Bauxita, no disco-tributo Clube aos 40 (2014), com um sotaque beatle ainda mais pronunciado (ouça os teclados e tente não pensar em “Strawberry Fields Forever”);
  • A dos Ledjembergs, em Amanhecei-vos (2012), definitivamente levada para o território do rock, e também com uma citação aos fab-four (“Something”);
  • E a de Roberta Campos, no álbum Varrendo a lua (2009), a mais inventiva de todas, com ousadas alterações na melodia. Fique com ela:

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