54. MPB-4: “Partido Alto”

Diz que deu, diz que Deus, diz que Deus dará
Não vou duvidar, ô nega
E se Deus não dá, como é que vai ficar, ô nega
Diz que deu, diz que dá, e se Deus negar, ô nega
Eu vou me indignar e chega, Deus dará, Deus dará


Como prometido no post sobre “Pesadelo”, trago aqui outro clássico presente no álbum Cicatrizes (1972), dos sempre necessários MPB-4: “Partido Alto”, composição de Chico Buarque. A canção apareceu em Cicatrizes e, no mesmo ano, na trilha do filme Quando o carnaval chegar, de Carlos Diegues, assinada pelo próprio Chico.

Existem muitas versões dessa canção e falaremos de algumas delas ao final do post. O que interessa destacar, por enquanto, são as questões referentes à letra.

Em primeiro lugar, o título da obra já delimita seu universo: o partido alto. É difícil definir o conceito de partido, já que suas origens são longínquas e, desde então, se construíram diferentes entendimentos a respeito dele. Duas definições mais comuns são:

  1. O ritmo quebrado que é tocado no pandeiro, que restringe a participação das platinelas e foca no revezamento de sons graves e agudos (estes, com tapas secos no couro). Quando se está em uma roda de samba, é comum ouvir o cantor pedir para o pandeirista: “Agora manda um partidinho: tum-tá-tum-tum-tá-tum-tum-tum-tum-tá…”
  2. Uma estrutura formal para o samba, baseada no desafio improvisado entre os cantores participantes, em que os improvisos são sempre alternados com um refrão fixo.

O “Partido Alto” de Chico se encaixa na definição 2, auxiliada pelo fato de que o MPB-4 é um quarteto, o que possibilita que cada uma das vozes atue como um desafiante nesse jogo de improvisar.

mpb4-chico.jpg
O MPB-4 com Chico, em 1967, fazendo a roda viva da música brasileira girar.

Isso nos conduz ao segundo ponto de interesse. Chico compôs, inicialmente, quatro estrofes, além do refrão. Assim, o arranjo do quarteto vocálico distribuiu cada um de seus membros por uma estrofe, e todos cantariam o refrão. Não sobrou nada para o próprio Chico! E então veja a estória contada pelo saudoso Magro, do MPB-4, no programa Samba na Gamboa em (2012):

Magro: O “Partido Alto” tinha quatro versos. Na verdade, a gente foi gravar o “Partido Alto” como um coro. Aí o pessoal da… da… Phillips, PolyGram, Universal – é tanto nome que essa gravadora teve que eu já não sei mais qual é! [risos]… então eles gostaram e aí a gente, em vez de coro, passou a ser o artista principal. E aí a gente saiu cantando e aí cantava com… nos shows com o Chico a gente cantava. E só… a música só tem quatro versos… e aí ele sobrava, ele não cantava. Aí ele foi e resolveu fazer um verso pra ele. Só que isso tem muita… é… relação com o tempo que a gente vivia, que era um tempo bravo… uma censura muito forte, a ditadura muito pesada e ele, muito censurado. Então ele fez um verso pra cantar no fim do “Partido Alto”, dos nossos quatro versos […]

Assim, “Partido Alto” passou a ter cinco estrofes, sendo a última a menos conhecida de todas. Além desse detalhe, existe a própria censura nas estrofes mais conhecidas, que originalmente possuíam conotações mais fechadas e diretas. Abaixo, dispomos num quadro a letra, com seus intérpretes (nas diversas encarnações do MPB-4) e as alterações da censura em destaque:

intérprete

estrofe

todos refrão
Magro/Paulo Malaguti Deus é um cara gozador, adora brincadeira / Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro / Mas achou muito engraçado me botar cabreiro / Na barriga da miséria nasci brasileiro [batuqueiro] / Eu sou do Rio de Janeiro
Ruy/Dalmo Jesus Cristo ainda me paga, um dia ainda me explica / Como é que pôs no mundo essa pouca titica [pobre coisica] / Vou correr o mundo afora, dar uma canjica / Que é pra ver se alguém me embala ao ronco da cuíca / E aquele abraço pra quem fica
Aquiles Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio / Pele e osso simplesmente, quase sem recheio / Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio / Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio / Que eu já tô de saco cheio
Miltinho Deus me deu mão de veludo pra fazer carícia / Deus me deu muita saudade e muita preguiça / Deus me deu perna cumprida e muita malícia / Pra correr atrás da bola e fugir da polícia / Um dia ainda sou notícia
Chico Buarque Deus me fez um cara surdo, cego e censurado / Submisso, submerso, subalimentado / Mas um dia o vento vira e é bom tomar cuidado / Pois a coisa fica feia também pro seu lado / Passe bem, muito obrigado!

A versão do MPB-4 é clássica e dificilmente superável. Mas existem interpretações digníssimas de nota.

A primeira é de Caetano Veloso, ainda em 1972, em Caetano e Chico juntos e ao vivo. Aqui, o arranjo desenrola a canção por um andamento mais lento, com as baixarias do violão original sendo substituídas por frases graves mais curtas, surgindo como pesados riffs. Se o refrão pergunta “E se Deus negar?”, já temos a resposta: sim, Deus negou, nada muda, nada mudou, e a vida prossegue monótona:

Mais tarde, Chico também regravaria a canção no Ao vivo – Paris – Le Zenith (1990), devolvendo-a ao universo do samba. Universo, aliás, que é devidamente valorizado em releituras de outros artistas, como a de Ney Matogrosso em Um brasileiro (1996), conduzida como um verdadeiro partidinho; e na inusitada versão de Cássia Eller, cheia de malandragem, em seu Acústico MTV (2001). Acabou se tornando uma das aparições mais conhecidas da composição:

Outros ainda gravaram a canção, e segue uma lista:

  • O cantor carioca Tony Platão, em seu álbum homônimo de 1994, canta “Partido Alto” como um samba-rock todo guitarreiro e com um andamento lento, com transposições do registro vocal para as alturas operísticas que caracterizam o canto do ex-vocalista do Hojerizah;
  • Paulo Ricardo (!) canta com o MPB-4 uma boa versão no disco Casa de samba – vol. 2 (1997). Infelizmente, o cantor do RPM não interpreta a estrofe “proibida” de Chico, o que seria uma ótima ideia, apenas repetindo a parte que cabe ao Magro. O andamento é acelerado e quase pagodeiro;
  • Jorge Aragão incorpora muito balanço à obra, e canta da forma gostosa como é usual, em E aí? (2006). Destaque para cuíca!;
  • Mônica Salmazo, em Noites de gala, samba na rua (2007), traz um arranjo de ótimo gosto, com cavacos, flautas e um baixo acústico que confere um toque especial ao início da canção. Noites de gala ao vivo (2009) recupera o mesmíssimo arranjo;
  • A cantora soteropolitana Nega Jaci traz um registro inspirado no arranjo de Cássia Eller, em Canta Chico & Elis e revisita a MPB (2015). O diferencial é a presença de (excelentes) guitarras substituindo os violões. Vale a pena ouvir;
  • Fora essas, existem outras que pouco diferem, em termos de arranjo, da versão original do MPB-4 (e outras mais, de que não quis falar para não alongar muito a lista, já enorme).

E como curiosidades, temos versões instrumentais, todas excelentes:

  • O Aquilo Del Nisso, em Chico Buarque instrumental (1994), transforma a canção em uma luxuosa suíte com ótimas passagens de contrabaixo e saxofone, inclusive com uma inesperada aceleração no andamento, a certa altura, já que a versão parece partir do arranjo de Caetano;
  • Os franceses Noël Akchoté e Sarah Murcia, no disco epônimo da dupla, de 2016, transformam “Partido Alto” em uma divertida vinheta, com incríveis variações de Sarah, ao baixo acústico, sobre a melodia de Chico;
  • O disco Chico Buarque instrumental (2018) também brinca com a canção, dessa vez, com um arranjo levemente jazzístico.

Mas façamos justiça aos desbravadores da canção, ouvindo versões recentíssimas do MPB-4 (em O sonho, a vida, a roda viva!, de 2016, finalmente com a estrofe do “proibidão”)…

…e do próprio Chico, inacreditavelmente criativo a essa altura do campeonato, em Caravanas ao vivo (2018):

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