56. Gal Costa: “Vaca Profana”

Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Inscrevo, assim, minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da man…


Já expus aqui algumas ideias sobre lançamentos que dariam bons itens para apreciadores da MPB. Infelizmente, não disponho dos recursos, nem da competência, para concretizar tais projetos. Um deles seria um álbum jocosamente intitulado Caetano canta (as) mulheres, ou algo do tipo, em que todas as canções do compositor baiano, dirigidas às suas musas, seriam interpretadas por cantoras – se mais jovens ou mais consolidadas, ficaria a critério do produtor.

O repertório desse álbum teria coisas como “Tigresa” (ao que parece, remetida a Sônia Braga), “Maria Bethânia”, “A Luz De Tieta”, “Você É Linda”, “Três Travestis” (por que não?) e, certamente, a canção de hoje, “Vaca Profana”.

“Vaca Profana” é uma composição de Caetano entregue a Gal Costa para ser registrada em seu álbum Profana (1984), abrindo-o. Como muitas das gravações de Gal, é um baita de um rock (e, se duvidar de mim, ouça também “O Revolver Do Meu Sonho”, no mesmo disco), com guitarras distorcidas – cortesia do sempre criativo e preciso Paulo Rafael – e um piano que acrescenta um ar bluesy. O que prejudica um pouco o peso da canção é a produção oitentista, mas relevemos.

Como muitas das letras de Caetano – e o paralelo mais óbvio que me vem à mente é “Sampa” -, temos nessa um mar de referências. Tanto que o próprio encarte de Profana trata de trazer uma espécie de glossário, explicando o que foi a Movida Madrileña ou o que são ramblas.

Existem muitas interpretações sobre o denso conteúdo da letra. A melhor que li é a de Fernando Medeiros, no blog Ao Correr da Pena. O autor, em certo momento, traz para sua análise alguns dos elementos realçados pela letra, como as palavras vaca, manada e cornos, e identificando os simbolismos associados a elas, propõe:

associando tais símbolos numa possível leitura representativa ou numa possível imagem metafórica […], percebe-se que a vaca, portanto, era e ainda é, para alguns, divina e elevada. O que ela dá ou produz, o leite, é símbolo de sua fertilidade e, assim, também de sua divindade. Seus cornos, como símbolo de elevação e superioridade, a vaca os colocando para fora e acima da manada, eleva-os ainda mais, eleva e engrandece ainda mais sua divindade, sua realeza (temporal e celestial) e sua sacralidade, por ser divina e representar tais elementos. E ainda estão pra fora e acima da manada. Acima.

Se a vaca vem associada à ideia de renovação, e a nossa vaca profana põe seus cornos pra fora e acima da manada, e se a manada é a via láctea, nesse contexto celestial e divino, de superação e de superioridade, a vaca então comanda a manada a partir da elevação de seus chifres, como referência e reverência, conduzindo e incentivando a manada a segui-la com confiança e certeza no caminho. Assim como as mães, em seu instinto materno fazem (ou seja, comandam), a vaca, que é a grande mãe divina (Magna Mater Divina), também o faz.

Além dessas considerações, outros autores também nos auxiliam a compreender a conjunção de imagens e de paisagens na letra de Caetano:

Se no início o sagrado é profano, com a vaca pondo “seus cornos pra fora e acima da manada“, ou seja, vivendo-se além dos limites impostos pelas pessoas comuns, da manada, com o narrador pedindo para a Vaca Profana, a “Dona das divinas tetas”, derramar “o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas“, no final, completamente modificado ao longo de sua vida, amadurecido pela sua vivência e jornadas através das “ramblas do planeta”, pelo cosmopolismo de São Paulo, Paris e New York, deixa de implicar com os caretas do mundo – “sem mágoas, estamos aí” – e se identifica como um. Ele, que antes combatia a hipocrisia, a normalidade e o senso comum dos caretas, julgando-os como errados através da contracultura da “movida Madrileña“, da excentricidade de “Thelonius Monk” e seus “blues” originais, da genialidade de Picasso e de sua arte cubista, que tanta influência exerceu na criação da “torre traçada por Gaudi“, agora reconhece que “também sabe ser careta” e que “de perto, ninguém é normal” (foda este trecho!). Pois, além da intimidade exterior, através da qual podemos ver os defeitos, manias, medos e taras dos outros, podemos, através da intimidade interior e do autoconhecimento, largar nossa máscara e reconhecer nossas falhas e imperfeições.

Ele enxerga sua sombra, cresce, percebe que também erra, deixando assim de julgar as pessoas. Sente compaixão, por ele e pelos outros. Aí relaxa e pede uma Orchata de chufa, si us plau”. E, por fim, pede também que a “Deusa de assombrosas tetas” não apenas derrame “gotas de leite bom na minha cara“, mas também e principalmente uma “chuva do mesmo bom sobre os caretas…”

Simplesmente genial… (Blog do cadulessa).

Ou então:

«Vaca Profana» foi lançada em 1984 e composta para Gal Costa, sendo considerada uma verdadeira ode à Espanha, especialmente à Catalunha. Tem uma poesia belíssima mas de difícil interpretação, que retrata os movimentos artísticos em voga na altura. Nessa canção, Caetano começa por exaltar a necessidade de viver acima das pessoas comuns, daquilo que é considerado normal (“Vaca profana põe teus cornos/Pra fora e acima da manada”). Não se identifica com o senso comum, com a normalidade da vida e mesmo quando confessa à sua irmã a vontade de encontrar o amor, ressalva que não o vê de forma convencional; antes pelo contrário, pretende-o excêntrico, ao estilo Thelonious Monk (“Quero que pinte um amor Bethânia/Stevie Wonder, andaluz/Como o que tive em Tel Aviv/Perto do mar, longe da Cruz/Mas em composição cubista/Meu mundo Thelonius Monk’s blues”). O próprio título da canção é uma provocação de Caetano a tudo aquilo que massivamente se julga sagrado. Entretanto, avesso ao que até então critica, talvez mais amadurecido ou como resultado de um demorado processo de autoconhecimento, Caetano acaba por reconhecer que muitas vezes ele próprio age consoante as pessoas “caretas” que tanto censura ao longo da canção (“Mas eu também sei ser careta/De perto ninguém é normal”). Por fim, de forma absolutamente magistral, despe-se da arrogância e, humildemente, compadece-se, por ele e pelos outros (“Gotas de leite bom na minha cara/Chuva do mesmo bom sobre os caretas”).
É, sem dúvida, uma canção que reflete bem um percurso de crescimento pessoal do Caetano veloso (Nos meus alfarrábios).

Ou, de forma mais concisa,

Escrita por Caetano Veloso, e gravada por Gal Costa no álbum “Profana”, em 1984, a canção “Vaca Profana” é um emaranhado de referências à cultura pop e aos grandes nomes da avant-garde europeia, podendo ser analisada sob os mais diversos prismas (Música na Vida).

Como mencionam alguns dos ouvintes/leitores que buscam interpretar a letra/poema, chama muito a atenção o percurso evolutivo do eu-lírico. Como vocês sabem, gosto muito de esquemas, diagramas, tabelas e quadros, e tentarei assim dispor os versos – que sempre finalizam as estrofes – de forma a explicitar essa progressão:

versos

a mim

aos caretas

Derrama o leite bom na minha cara / E o leite mau na cara dos caretas + + + – – –
La leche buena toda en mi garganta / La mala leche para los “puretas” + + + – –
Teu bom só para o oco, minha falta / E o resto inunde as almas dos caretas ++
Quero teu leite todo em minha alma / Nada de leite mau para os caretas ++
Gotas de leite bom na minha cara / Chuva do mesmo bom sobre os caretas + +++

Percebe-se, assim, a evolução para um desapego cada vez maior, acompanhado de uma empatia igualmente crescente. Mas em relação a quê?

Como disse no início do post, considero “Vaca Profana” como canto/cantada que se dirige à própria Gal. Portanto, no início da canção, apresenta-se um eu-lírico – o próprio Caetano – como um sujeito possessivo, egoísta, que deseja a vaca profana e seu “leite bom” inteiramente para si. No entanto, em sua jornada existencial por diversos lugares e culturas (em que o ponto de partida é a Catalunha, por onde Caetano deve ter passeado durante seu exílio), esse provincianismo vai se desarmando, crescendo a percepção de que, diante de um mundo tão povoado de cores e tribos, “de perto, ninguém é normal”, e que “eu também sei ser careta”. Assim, a vaca profana, inicialmente negada aos caretas, acaba sendo é mesmo receitada a eles, até porque o sujeito também faz parte dessa tribo, como é obrigado a reconhecer. O final da canção é, assim, festivo, celebrativo: imperam os valores eufóricos, positivos (veja a tabela acima), superando-se todas as negatividades.

Que todos se fartem com o precioso leite sagrado da vaca profana! E viva ela, Gal.

gal-costa.jpg
Gal Costa, a voz de uma mulher sagrada, deusa cantada por Caetano.

Além da versão original, é um clássico o registro do próprio Caetano, voz-e-violão, em Totalmente demais (1986): 

Muitos anos depois, Caê apresentaria “Vaca Profana” como número no show que fez com Maria Gadú, registrado em Multishow ao vivo (2011). Gosto muito desse registro e penso que, em alguns momentos, Gadú não fica nada a dever à própria Gal enquanto intérprete:

Além dessas versões, alguns artistas menos conhecidos também registraram a canção. Por exemplo, o cantor Fênix, com seu timbre feminino, resgata a atmosfera rocker da versão original em Ciranda do mundo ao vivo, também de 2011. Já Paulo Ho, no Estúdio showlivre (2018), apresenta uma releitura minimalista e levemente eletrônica.

A curiosidade maior é mesmo a versão em castelhano de Jorge Zima, em Benditos ateos (2013), marcada por boas guitarras e por um dueto com Jenny Nager. Espertamente, os intérpretes compreenderam a mensagem de Caetano, e fizeram do encerramento da canção uma verdadeira festa:

5 comentários

  1. Adoro ”Vaca Profana” e todo álbum de Gal – Quanto às musas de Caetano, ”Trem das Cores” foi literalmente dedicada a atriz Sônia Braga,uma viagem de trem que os dois fizeram quando namoraram.

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    1. Mais uma para meu projeto que nunca sairá do papel!
      Acho que já escutei falar dessa estória de “Trem Das Cores” – que, aliás, é uma de minhas favoritas, e cogitei trazer ao blog. Mas não lembrava. Obrigado pelo toque!
      Anos atrás, ouvi uma versão ao vivo incrível dela:

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      1. Só agora estou lendo a resposta.Há algumas entrevistas da atriz falando sobre o assunto,quanto à musica é uma das minhas favoritas.

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