57. Daniel Gonzaga: “Poeira”

Eu tô trancado, meio morto, meio vivo, num lugar que não é meu
Feito maluco esperando um paraíso que Deus prometeu
Às vezes chove, às vezes racho o crânio com o calor que faz aqui
E o mais estranho é sendo o mundo tão grande e eu não ter pra aonde ir


A família Gonzaga é arretada. Luiz Gonzaga, o rei do baião, pai de Gonzaguinha (que “dispensa apresentação”, conforme depoimento de Gonzagão reproduzido ao final do filme Gonzaga de pai pra filho), pai de Daniel Gonzaga.

Daniel estreou em disco em 1996, com Sob o sol. Não sei como fui conhecer o álbum, o que aconteceu apenas em 2015. E também não sei por qual razão acabei encontrando um exemplar num sebo de Santo André, ao final de 2017. O que importa é que tenho essa raridade em casa, e posso dizer: a obra faz jus ao sobrenome Gonzaga.

A canção que abre Sob o sol é uma balada rock de sabor agreste, como entrega a própria cada do disco. No tom de Ré Menor, a canção assusta: primeiro, pelo tom sombrio imposto pelas guitarras; depois, pela semelhança entre o timbre de Daniel e o de seu pai. Parece que estamos ouvindo o próprio Gonzaguinha, como que transladado para o universo roqueiro.

A letra é confessional e serve para apresentar o próprio Daniel ao público. No refrão, o cantor mostra consciência da tarefa inglória que é dar continuidade ao legado de seu sobrenome: “Sair desse lugar é tão difícil, é um pé numa armadilha / É tão difícil conseguir sobreviver sem um lugar ao sol”. Parece, também, compreender que o próprio destino de Gonzaguinha já fora determinado, de certa forma, pela herança de Gonzagão: “Eu não nasci, fui consequência de uma vida que meu pai não escolheu / A culpa não é minha, o sonho continua sendo meu / Amigo me diz o quê que eu faço aqui”.

Entre o eterno retorno nietzschiano e a náusea existencialista, temos aí um artista se abrindo aos ouvintes, expondo seus medos e suas angústias. Muito mais bonito e autêntico do que os valentões, por aí, que só topam se expor calculando milimetricamente os trejeitos e o figurino de forma a reforçarem sua suposta heterossexualidade.

Daniel Gonzaga
Daniel Gonzaga, conduzindo o legado iniciado pelo rei do baião e buscando seu lugar ao sol.

Além de seu talento como cantor e compositor, Daniel tem outra faceta: a de pesquisador da música brasileira. Conheça seu projeto mais substancioso nesse sentido, a Biblioteca do Ritmos, uma espécie de museu virtual que colige uma enorme quantidade de ritmos brasileiros, alguns em franca extinção. Acho que o Brasil (e o mundo) ainda serão muito gratos a essa iniciativa, no futuro! Não tem como não ser fã desse cara.

Não deixe de conferir, também, o texto de meu colega Léo Nogueira, em O X do Poema, que traz algumas belas palavras sobre Sob o sol, e outras surpresas.

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