59. João Nogueira: “Espelho”

Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz


“Espelho” está presente no disco de mesmo nome de João Nogueira, lançado em 1977. Composição de João com Paulo César Pinheiro, a faixa traz o ritmo do samba-canção e uma formação de regional de choro, com violão de 7 cordas, flauta e bandolim.

A canção traz um eu-lírico narrando sua trajetória desde a infância, à sombra do pai, sua principal referência. Mas, um dia, o sujeito se vê órfão, ao mesmo tempo em que a vida passa a lhe cobrar cada vez mais: “Assim, sem perceber, eu era adulto já”. E olhando tudo em retrospectiva, ele se certifica de que, à luz de todos esses percalços, sua trajetória seria motivo de orgulho para o finado pai: “Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade / E orgulho de seu filho ser igual seu pai / Pois me beijaram a boca e me tornei poeta”.

O percurso narrativo, se a canção tivesse sido escrita por qualquer outro autor, estaria encerrado aí. Mas Paulo César Pinheiro é um letrista de primeira, e sabe explorar os recursos estéticos para aumentar a pungência de uma obra que poderia ser, apenas, um relato saudosista de um filho que perde seu pai na tenra idade. Assim, “Espelho” não termina de forma triunfante, com o filho que se reconhece na figura paterna e a conjunção completa entre sujeito e objeto (outro sujeito). Não. A canção é encerrada de forma tensa: “Mas tão habituado com o adverso / Eu temo se um dia me machuca o verso / E o meu medo maior é o espelho se quebrar”. E, apesar de todo o percurso narrativo estar recheado de proezas da voz enunciadora – e geralmente associadas a certa virilidade masculina, como o jogo de futebol, as brigas de rua e as conquistas amorosas –, o final confessa sua insegurança, o temor de não conseguir cumprir a missão de dar continuidade ao legado do pai, de ser menos que ele.

Um sentimento, diga-se de passagem, que acomete todo filho que admira seu pai, e que eu vivo diariamente, para ser franco.


O mais impressionante de “Espelho” é a forma como a canção acabou atualizada na voz do filho de João Nogueira, Diogo Nogueira, que a incorporou a seu repertório ao vivo. João morreu em 2000 e, no ano seguinte, Diogo teve seu primeiro registro como cantor no tributo João Nogueira, através do espelho. Daí em diante, se tornou um dos nomes mais importantes da nova geração brasileira do samba, não apenas relendo o repertório do pai – aproveitando-se do fato de que seus timbres são quase idênticos –, mas também criando e dando voz a novos e velhos sambistas.

Pois bem, a voz que enuncia em “Espelho” parece ser mais a voz de Diego do que a do próprio João. Como se Paulo César Pinheiro tivesse profetizado que, com a morte do amigo e parceiro, seu filho Diogo é que se veria atirado à missão de escapar à sombra do pai e não fazer “o espelho se quebrar”. A passagem sobre o futebol é de arrepiar: “E me abracei na bola e pensei ser um dia / Um craque da pelota ao me tornar rapaz / Um dia chutei mal e machuquei o dedo / E sem ter mais o velho pra tirar o medo / Foi mais uma vontade que ficou pra trás”. Os fãs sabem que Diogo chegou a jogar nas categorias de base do Flamengo, e que sua promissora carreira futebolística foi prematuramente encerrada com uma contusão.

É como se tudo estivesse predestinado desde a letra de “Espelho”, e Diogo não tivesse outro destino senão dar continuidade ao legado do pai. Curiosamente, falei sobre isso também no post de anteontem, que trouxe mas uma estória de sucessão geracional no campo da música, com a família Gonzaga.

joao-nogueira.jpg
João Nogueira, o espelho do filho Diogo.

“Espelho” possui muitas versões.

Uma especialíssima é a registrada em Pirajá – Esquina Carioca – Uma noite com a raiz do samba (1999), numa apresentação que reuniu grandes bambas. Participam da faixa ao menos três nomes de peso: ao violão, Moacyr Luz (já tematizado aqui, com sua “Vida Da Minha Vida”); Pedro Amorim, tocando bandolim (e em breve teremos um post dedicado a ele); e a voz macia de Teresa Cristina, no coro. Ouça:

Gosto muito também do registro emocionante (e emocionado) de Diogo cantando “Espelho” no Sambabook João Nogueira (2012), com a participação do monstro Joel Nascimento no bandolim:


Mas não para por aí.

“Espelho” narra o filho diante do desafio de espelhar seu pai. Só que esse filho se torna pai também… e eis que João Nogueira e Paulo César Pinheiro nos apresentam esse novo ponto de vista em “Além Do Espelho”.

A letra é linda e traz diversas lições. Destaco a segunda estrofe, que explora a vertiginosa imagem de um espelho refletindo outro: “Sempre que um filho meu me dá um beijo / Sei que o amor do meu pai não se perdeu / Só de olhar seu olhar já sei seu desejo / Assim como meu pai sabia o meu / Mas meu pai foi-se embora num cortejo / E no espelho chorei porque doeu / Só que vendo meu filho agora eu vejo / Ele é o espelho do espelho que sou eu”.

O final da obra é apoteótico e traz de volta a coda de “Espelho” – “E o meu medo maior é o espelho se quebrar…” –, mas agora sob o ponto de vista do pai, temendo que, um dia, deixe de ser referência para seu filho.

Ouça a versão do disco Além do espelho (1992):

Em 2015, o cantor, compositor, instrumentista e ator fluminense Alfredo Del-Penho lançou Samba sujo, que traz uma belíssima versão de “Além Do Espelho”, corrigindo os excessos do arranjo original de João Nogueira. Aqui, a canção ressurge com elementos de “Espelho”, como que fechando um ciclo:

E por falar em ciclo, o disco em parceria entre João e Paulo César, intitulado justamente Parceria (1994), abre com “Espelho” e é encerrado com sua continuação. Ouça as duas versões, cruas como todo bom samba, abaixo:

7 comentários

    1. Belíssima. Chegamos a tocar na roda de samba das sextas-feiras, aquela que começou em 2012, lembra? Mas “Espelho” entrou no repertório em 2015 mais ou menos, quando o Serjão já tinha ido embora, e eu também ia. O conjunto toca até hoje sem nós, e João Nogueira é sempre lembrado nos sons da nova turma.

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