60. Nação Zumbi: “Um Sonho”

Estão comendo o mundo pelas beiradas
Roendo tudo, quase não sobra nada
Respirei fundo, achando que ainda começava
Um grito no escuro, um encontro sem hora marcada
Ontem eu tive esse sonho
Nele encontrava com você
Não sei se sonhava o meu sonho
Ou se o sonho que eu sonhava era seu


Em algum momento, eu teria que pautar a Nação Zumbi neste blog. Afinal, a banda, ainda com Chico Science, foi uma das mais inventivas criações sonoras que marcou o Brasil dos anos 1990. Da lama ao caos (1994) e Afrociberdelia (1996) são dois clássicos que não merecem ser esquecidos jamais, e não apenas pela ideia fazer um rock sem bateria propriamente dita, substituída pela percussão do maracatu, mas principalmente por flagrar um instantâneo de um Brasil que custa a mudar.

Confesso, porém, que das grandes bandas da época, a Nação é uma ausência imperdoável em minha discoteca. Pra ser franco, sempre fui mais fã da banda irmã, Mundo Livre S/A (ou mundo livre s/a, como queiram), que parecia mesclar melhor o contexto recifense com outras influências, como o samba.

Mas eis que a sempre amiga Julia me apresenta “Um Sonho” (criação de Jorge Du Peixe, Dengue, Lúcio Maia e Pupillo), som do recente Nação zumbi (2014), e temos um caso de paixão à primeira audição. A faixa tem uma atmosfera solar, quase etérea, ressaltando os climas construídos com dois canais de guitarra – e me parece ser Lúcio Maia tocando numa Telecaster, se meus ouvidos andam bons.

O que me chamou a atenção foi mesmo a letra, que trata de um assunto que aprecio muito: os sonhos. Quem me conhece sabe que mantive, por quase sete anos, um caderno de sonhos com todos os relatos noturnos possíveis. Deve haver algo como umas 3.000 viagens oníricas registradas, já que era comum que eu conseguisse lembrar de 3 a 5 sonhos por sono.

A letra de “Um Sonho”, mais precisamente, fala sobre um tipo específico de onirismo: o falso despertar. Você acorda, se levanta, faz xixi, escova os dentes, toma banho, prepara o café da manhã e sai pra trabalhar. Pega a condução, chega ao serviço, começa a rotina… e acorda. Você estava sonhando ainda, apenas sonhou que acordou! Ou, como diz a canção da Nação Zumbi, “Um sonho dentro de um sonho / E eu ainda nem sei se acordei / Desse sonho quero imagem e som / Pra saber o que foi que aconteceu”.

nacao-zumbi.jpg
Nação Zumbi, mantendo vivo o sonho de trazer a boa música de Recife para o resto do mundo.

O sonho dentro do sonho é a premissa do filme Inception (2010), além de outros títulos com narrativas gnósticas, conforme propõe Wilson Ferreira em seu bacana Cinema Secreto: Cinegnose. Por sinal, há dois filmes marcantes sobre o tema, os dois de 2001: Vanilla sky, que começa justamente com um falso despertar; e Waking life, de um dos meus diretores favoritos, Richard Linklater – e, nesse caso, o falso despertar é um verdadeiro pesadelo!

Em meus cadernos de sonhos, encontrei alguns relatos envolvendo o fenômeno. Como minha rotina, à época, envolvia já relatar os sonhos logo depois de acordar, os falsos despertares geralmente abrangiam o processo de relatar sonhos, coisa até demorada. Tudo isso só pra acordar, novamente, e perceber que teria que relatar tudo de novo… inclusive o falso despertar.

Trouxe dois excertos, como curiosidade, com as respectivas traduções.

O primeiro é bem lacônico…

falso-despertar-1.jpg
“05.02.10 – Falso despertar: acho que acordei”.

…e o segundo, um pouco menos:

falso-derpertar-2.jpg
“4/08/08.  #1 Após passarmos por um tranqüilo vôo, sem chacoalhões, estávamos em procedimento de pouso, anunciado pela aeromoça. Durante a descida, no entanto, um problema leva o avião a necessitar de uma manobra inesperada na pista. Pista… exatamente como a entrada do [bairro] Santa Maria na [rodovia] Washington Luiz – a pista e o matagal nos arredores. A aeromoça, de nervosismo, se engasgou. A tripulação foi se alarmando, quando então eu percebi que quem dirigia o avião poderia estar sendo a própria aeromoça, sentada no assento atrás do meu. Pensava na situação quase como se ela fosse normal. Pensava também que havia sido uma boa escolha meu assento de viagem, pois estava no fundo e sairia primeiro do avião. #2 Em Curitiba, visito um bar e encontro o Caio e o Bobs [por onde andam?] almoçando. Os cumprimento pelo antebraço, achando normal encontrá-los no Paraná, pois o Caio estudou em Londrina. #3 Falso despertar: acordo e escrevo o sonho acima”. Esses sonhos têm muito a ver com esses meados de 2008, quando fiz minha primeira viagem de avião… justamente para Curitiba.
Acho que devia retomar as anotações de sonhos… mas fica pro ano que vem. Já terei muito o que escrever em 2019, não é mesmo?


Sobre o clipe de “Um Sonho”, uma curiosidade: produzido por Pio Figueiroa, o vídeo traz como protagonistas o casal Louise “Lula” Taynã (filha de Chico Science) e Ramon Lira (filho do atual vocalista da Nação, Jorge Du Peixe). Visualmente, o trabalho ficou impecável. A narrativa também é bonita e tem um final inesperado. Veja com atenção.

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