62. Luiz Carlos da Vila: “Samba Que Nem Rita À Dora”

O Chico falou que a Rita levou
O sorriso dele e o assunto
Eu sofri seu sofrer, mas pergunto
Se o meu ele ia aguentar
A quem tanto queria um presunto
Dei meu corpo morrendo de amar
Onde havia horizonte defunto
Pois o sol a brilhar


Luiz Carlos da Vila foi um dos grandes sambistas da Vila Isabel, tendo nos deixado em 2008.

Uma de suas composições mais conhecidos é “Samba Que Nem Rita À Dora”, relativamente famosa na voz de Seu Jorge, e composta pelo próprio Luiz Carlos e por Jane Pereira. Gravada em Raças Brasil (1995), a canção é uma espécie de resposta ao samba “A Rita”, que Chico Buarque lançou em seu primeiro LP, em 1966.

Existem diversas lendas e interpretações sobre o caráter de “A Rita”. Circula por aí a informação de que Rita fora uma moça por quem Chico se enamorou, para logo depois descobrir que ela havia falecido, emudecendo o cantor e seu violão, como diz a letra. Há quem interprete que “A Rita” disfarça uma crítica “À ditadura”, o que acho pouco plausível. De qualquer forma, nesse sucesso, Chico fala de uma Rita que, ao abandoná-lo, leva consigo não apenas os objetos que recebera (ou não) do amante, mas também coisas menos materiais: “A Rita levou meu sorriso / […] Levou os meus planos, meus pobres enganos, os meus vinte anos e o meu coração”. Ouça:

Como toda estória contada numa roda de amigos, sempre há aquele que aparece para confrontar: “Ah, mas isso não é nada!” Pois é isso o que Luiz Carlos parece fazer com “Samba Que Nem Rita À Dora”. Apesar de certo compadecimento com relação ao colega sambista, a voz da canção logo começa a contar vantagem… ou desvantagem: “O Chico falou que a Rita levou / O sorriso dele e o assunto / Eu sofri seu sofrer, mas pergunto / Se o meu ele ia aguentar”. E começa a narrar tudo o que Dora lhe fez, pintando-a como uma musa ingrata que levou não apenas bens materiais ou imateriais, como a Rita fizera com Chico: “Acontece ô Chico / Você mesmo disse / Que a Rita levou o que era de direito / Acontece que a Dora sem ter o direito / Levou tudo que eu já iria lhe dar”.

A estória de Luiz Carlos com Dora tem outra diferença em relação ao caso de Chico com Rita. Na composição de 1966, temos uma visão exclusivamente subjetiva e, portanto, pra lá de suspeita – e a voz da canção tem seu momento de vacilação, ao entregar que a “A Rita matou nosso amor de vingança“, ou seja, ninguém ali é santo. Já os desencontros com Dora são observados por um terceiro personagem, que poderia vir a confirmar a queixa do eu-lírico: “Num instante eu tirei / Suas mãos lá do tanque / Presenteei / Máquina de lavar / Contratei pra passar / Dona Sebastiana / Testemunha ocular do esforço que eu fiz / Para ver tudo azul”.

É interessante notar que “Samba Que Nem Rita À Dora” (e perceba o trocadilho com “À Dora” e “adora”) cita a harmonia de “A Rita”, apresentando-se como uma convincente gafieira.

Você pode ler mais sobre essas “Ritas” da MPB num ótimo post em As Mulheres Cantadas.

luiz-carlos-da-vila.jpg
Luiz Carlos da Vila, cantando a Dora como Chico deve ter adorado.

Como já disse, “Samba Que Nem Rita À Dora” foi gravada por Seu Jorge, em sua estreia solo, Samba esporte fino (2001). O arranjo é praticamente idêntico ao proposto por Luiz Carlos seis anos antes:

Em 2006, Luiz Carlos regravou ao vivo o samba, em seu Um cantar à vontade – ao vivo:. Versão definitiva, para mim:


A estória não para aí. Ana Carolina, com Edu Krieger, compuseram “Resposta À Rita”, presente no disco #AC (2013) da cantora mineira. Como o título entrega, temos aqui a própria Rita respondendo ao Chico de 1966. Sinceramente, gostei do tributo, mas acho que a canção-resposta soou óbvia e muito menos criativa do que a proposta de Luiz Carlos, já que Ana Carolina e Krieger apenas replicam – literalmente – os versos buarquianos, preservando intacta a harmonia de “A Rita”. No entanto, o próprio Chico avalizou a homenagem, participando de seu videoclipe… então o leitor que faça seu julgamento:

2 comentários

    1. Eis-me aqui, dois anos após a postagem, encontrando um comentário do querido Ademar, e que deixei passar sem responder. Saudade da prosa musical que trocávamos por aqui!
      E sim, “A Rita” continua rendendo, 50 anos depois. E há de render muito mais, porque Chico é eterno.

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