63. Gang 90 & Absurdettes: “Telefone”

São três horas da manhã
Você me liga
Pra falar coisas que só a gente entende
São três horas da manhã
Você me chama
E com seu papo poesia me transcende


Meu amigo Marco Antonio, dia desses, aproveitou uma oportunidade única: foi conferir a volta aos palcos de Gang 90 & Absurdettes, um dos conjuntos mais icônicos da new wave brasileira. Após a morte prematura de seu fundador, Júlio Barroso, em 1984 (com apenas 30 anos), a Gang tentou se manter na ativa por mais alguns anos, mas logo foi desativada. O retorno do conjunto, assim, matou saudade de muita gente e rendeu algumas estórias narradas pelos remanescentes, que o Marco fez questão de me contar.

Assim, quem conferiu esse show no Sesc Pompéia pôde compreender a origem de algumas canções, entre elas, “Telefone”, um dos maiores sucessos do conjunto. Segue o relato conciso do meu informante Marco, sobre a faixa do álbum Essa tal de Gang 90 & Absurdettes (1983), composta por Júlio e Márcio Vaccari: “Julio fez para Lucia Turnbull quando ela estava longe. Nesta hora do show a própria Lucia que estava na plateia foi chamada ao placo para dançar a música”.

E eu perdi isso!

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Julio Barroso com as Absurdettes: um agitador cultural no BRock, crindo muito mais do que uma versão topiniquim dos B52’s.

“Telefone” é uma canção simples, com letra nada misteriosa: temos apenas a voz enunciativa se dirigindo para a pessoa amada, ao telefone, às três horas da manhã, o que a certifica de que “Ó, meu amor / Isso é amor”, como canta exaustivamente o refrão.

Vale mais a pena, aqui, falarmos sobre as regravações da canção.

Embora seja o registro mais antigo de todos os que irei comentar, a versão do Skank foi a última a ser divulgada, sendo apresentada no disco Skank 91 (2012), uma compilação de composições próprias e algumas covers, oriundas de gravações demos prévias ao primeiro disco da banda mineira, Skank (1992). A releitura é a exata cara desse álbum de estreia – que é puro reggae, mas já com a brasilidade que marcaria principalmente o lançamento seguinte, Calango (1994) – e poderia muito bem estar lá, ao lado das já classicas “In(Dig)Nação” e “O Homem Q Sabia Demais”. Um atrativo dessa versão é o acréscimo de alguns versos: “Você me liga me altera, me acende / Nossa voz no telefone está tão longe / Falo alto delirando não se importe / Há um pique ante de eu dizer teu nome / Desligaram sem aviso é um corte/ Minha voz está perdida nesse fone / Fica vibrando tão sozinha não se importe / Eu ainda estou pensando no seu nome / Essa onda de amor não há quem corte”. Ouça:

Como já disse no post sobre “Quanto Vale A Liberdade?”, a passagem dos anos 1990 pro novo século foi marcada por uma inundação de discos de regravações, por parte de bandas já consolidadas no rock nacional. O Ira! não escapou a essa tendência, mas pelo menos apareceu com Isso é amor (1999), provavelmente o melhor de todos esses lançamentos. “Telefone” está lá – e seu refrão intitula o álbum -, numa versão incrível, que corrige todas as esquisitices oitentistas do arranjo original. Gosto da forma como a harmonia foi alterada para um tom menor, retornando ao tom maior no refrão, o que acrescenta uma aura de mistério para as estrofes, praticamente recitadas por Nasi. Temos ainda os belas camadas de violões e guitarras de Edgard Scandurra e, como se não bastasse, uma participação especialíssima: Fernanda Takai é quem canta (meigamente) o refrão. Não canso de dizer: o Ira! acertou demais a mão nesse álbum. Veja se estou certo:

Por fim, há a versão do conjunto de música infantil Pequeno Cidadão, no álbum Vem dançar (2008). Novamente, Scandurra pilota as (nervosas) guitarras, com a presença também de Taciana Barros, uma das absurdettes originais. Agora, quem canta o refrão são os filhos dos artistas! A versão é incrível: transformada em um rock inquieto, preserva diversos elementos do arranjo original, ao mesmo tempo em que traz um frescor inusitado para uma canção que poderia soar datada hoje em dia, nesse mundo cheio de smartphones. A animação do clipe é também muito bacana, ao mesmo tempo singela e sofisticada, como a própria “Telefone”. Delicie-se:


Além das regravações, “Telefone” marcou a adolescência de muita gente na voz de Érika Martins, com seu conjunto Penélope, ao final dos anos 1990. “Holiday”, talvez o maior hit da banda, em Mi casa, su casa (1999), cita um bom pedaço da canção da Gang 90 em sua introdução. Já é clássico! Ouça:

E, muito mais recentemente, Ciro Pessoa (que já foi integrante dos Titãs, nos primórdios da banda) montou o conjunto Flying Chair que, em seu álbum de estreia – Flying Chair (2017) – apresenta a canção “Nosso Amor Exposto na Luz do Sol”. Nela, como em “Holiday” da Penélope, Ciro homenageia o amigo Júlio Barroso com uma citação incidental a “Telefone”:

5 comentários

  1. Queridíssimo, foi um show lindo esse da Gang. A boa nova é que a mensagem da Gang 90 continua viva para muito além das nossas mentes e corações.

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