65. Los Hermanos: “Todo Carnaval Tem Seu Fim”

Todo dia um ninguém José acorda já deitado
Todo dia ainda de pé o Zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado
De que o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer
Pra ver deitar o novo


No final de 1999, uma canção invadiu as rádios, um rock cheio de guitarras e refrão contagiante: “Anna Júlia”. Os autores, uns tais de Los Hermanos, eram uma banda formada por cinco rapazes, alguns barbudos, lançando um álbum epônimo. A revista Showbizz, na época, o saudou como “o melhor disco de estreia de uma banda nacional em muito tempo”.

Dali a pouco, outra canção começou a ser tocada, “Primavera”. Embora com andamento mais lento, trazia uma característica em comum com a estouradíssima “Anna Júlia”: o tom melodramático, a abordagem da paixão enquanto sofrimento (passiopathos), e uma forte influência sonora da jovem guarda.

Pela resenha da Showbizz, fiquei sabendo que isso era só um aspecto  banda, pois aquela edição trazia o alerta: Los Hermanos era um disco de hardcore/punk rock, tragando para esse universo pesado o tema das emoções à flor da pele (uma característica latina que fazia o nome da banda parecer mais apropriado) e antigos gêneros cancionais românticos, como a modinha e o bolero.

Infelizmente, a maior parte do público acabou não conhecendo a faceta acelerada da banda, ou a escutou superficialmente (“Quem Sabe”, o terceiro single do álbum e representante legítimo de seu lado roqueiro, tocou bem, mas não chegou a invadir as paradas de sucesso). Eu mesmo parei nessas três canções, por pura falta de acesso ao restante do material. Curiosamente, as três estavam presentes em três CDs que vieram encartados com edições da própria Showbizz e da 89 – revista rock, que eu colecionava.

Passou 1999, veio 2000 e nada de material novo da banda. Até que veio à tona o segundo álbum, O bloco do eu sozinho (2001). E me lembro das reações da imprensa: o disco era fantástico, fenomenal, magnífico, o melhor do rock nacional, surpreendente, perfeito, etc. É lógico que não botei muita fé mas, de tanto ler elogios aqui e ali, acabei baixando três canções: “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, “Sentimental” e “Fingi Na Hora Rir”. Gostei, mas não empolguei.

Uma amiga do ensino médio, Priscila, era fonte de minha admiração por conta de seu conhecimento musical. Baixista, gostava de rock dos anos 1960 e de algumas brasilidades. Lembro dela detonando os Los Hermanos, ainda em meados de 2002, para reconhecer, em janeiro do ano seguinte, que O bloco do eu sozinho era um disco incrível. Mas nem assim, com a chancela de uma especialista, me comovi. Permaneci, por um bom tempo, com meu repertório “interno” restrito àquelas seis canções, três do primeiro, três do segundo disco dos Hermanos.

Era 2004 e a banda havia lançado Ventura no ano anterior. Disco também saudado como excelente pela mídia especializada. Os rapazes tinham se retirado para um sítio, na pré-produção do álbum, gravando ali algumas demos que logo vazariam para a rede. Acabei conhecendo uma dessas versões prévias, a de “O Pouco Que Sobrou”. Novamente, gostei, e apenas isso. E, no meio do ano, a banda foi tocar no Sesc São Carlos. Com uma turma da graduação, fui conferir, sem grandes expectativas.

No meio do show, eu já estava embasbacado com o volume daquele som, com as guitarras de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante e, especialmente, com as harmonias dos sopros. Trombei a Priscila e gritei para ela, no meio de “Sétimo Andar”:

– Que incrível! Uma bossa-nova ska!

– Isso é Los Hermanos! – respondeu minha amiga.

Ainda naquele ano, fui a uma loja decidido a comprar O bloco do eu sozinho, e voltei com o CD embaixo do braço, para rodá-lo por muitas semanas no meu aparelho. Por alguma razão, jamais cheguei a adquirir o Ventura – comprei-o, é verdade, mas como presente de aniversário para outra Priscilla, que eu namorava à época – e achei o quarto disco da banda, (2005) em promoção (dez mangos) em 2007. (Já o Los hermanos foi praticamente roubado de meu primo André, até que ambos reconhecemos que o disco era mais meu do que dele, e está comigo até hoje).

Hoje, considero Los Hermanos minha banda favorita dos anos 1990. Não só pelas canções que me emocionam até hoje, mas também pela sabedoria: souberam quando parar, antes de cometer discos menos brilhantes.

los-hermanos.jpg
Los Hermanos: um quarteto que, com sua bossa-ska, oxigenou o rock nacional e a própria MPB.

Hoje é quarta-feira de cinzas e nada mais apropriado que ouvir “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, faixa de abertura de O bloco do eu sozinho.

Assim, a banda havia estreado com um disco pra cima, falando de pierrôs e colombinas – com muita dor de corno, é verdade, mas mesmo assim festivo, como um ébrio traído que vai para a avenida esquecer suas desventuras sentimentais – e experimentado um sucesso avassalador. Finda a festa, a ressaca. E é esse o clima da faixa (e do Bloco), que abre com o som solitário de um trombone. Logo, entram as pesadas guitarras, mas não parece ser a mesma banda de Los hermanos: o andamento é arrastado, vacilante, monótono.

Só na introdução, há duas possíveis referências. Há quem a considere ter sido chupada de “London Calling”, clássico do Clash: 

Eu já considero a introdução mais parecida (pra não dizer idêntica) com “Getchoo”, do Weezer – que são os Los Hermanos de Los Angeles. Tire a prova:

A letra é praticamente um manifesto sobre os novos rumos estéticos dos Los Hermanos, como se a banda quisesse justificar tamanhas rupturas para com os caminhos iniciados na estreia. Há ainda resquícios daquela fase no ska de “Deixa Estar” e no hardcore “Tão Sozinho” (a primeira canção composta pela banda), mas o Bloco é um inacreditável salto evolutivo, e “Todo Carnaval Tem Seu Fim” não é a faixa de abertura à toa.

Gosto muito a inversão semiótica que aparece no verso “Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada”, em que significado e significante se intercambiam – uma importante pista para se compreender outros versos desta canção (e mesmo de outras do álbum). Hoje vivemos em um mundo em que o real parece ter que se enquadrar nos signos, e não o contrário. Nada mais pós-moderno! Chega-se ao paroxismo de o futuro inteiro de um país ser subsumido pelo que ocorre na virtualidade das redes sociais… E me parece que os Hermanos já estavam conscientes dos efeitos desses simulacros, ao menos na esfera da produção cultural. Antes incensados como a salvação do rock e da MPB, teriam que enfrentar novos percalços, já que o Bloco não era nada radiofônico e, pior, contradizia quase tudo o que havia em Los hermanos… como que atestando que aquelas dores e lágrimas foram só o ponto mais alto (ou mais baixo) de um Carnaval que, como todo Carnaval, teria que acabar mais cedo ou mais tarde, cedendo à dura realidade “De que o dia insiste em nascer / Mas o dia insiste em nascer / Pra ver deitar o novo”.

Por isso, não se pode cair no canto da sereia da indústria cultural, que quer eleger the next big thing mas, na verdade, deseja sempre o mesmo produto, apenas com embalagem diferente. “Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco / Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco / Toda escolha é feita por quem acorda já deitado / Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado / E pinta o estandarte de azul / E põe suas estrelas no azul /Pra que mudar?”. Quem decide qual samba com refrão grudento (“Ô Anna Júliaaaaaaa….”) deve tocar em qual carnaval é quem, do conforto de seu divã, espera manter tudo tal e qual, sempre azul… mas os Los Hermanos, contrariando essa lógica, aparecem com Bloco, um disco que, se não é vermelho, é sépia e escrito em prosa, sem refrães fáceis. Basta ver o encarte:

todo-carnaval-tem-seu-fim.jpg

E por falar em refrão, temos aqui um grito de liberdade (ou de guerra?): “Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz!”


Existem várias versões oficiais ao vivo de “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, nos diversos DVDs da banda.

Há a versão acústica do Luau MTV (2002), que você escuta no minuto 22’21”: 

As duas versões elétricas de shows são parecidas: a do Ao vivo no Cine Íris (2004) e a do Ao vivo na Fundição Progresso (2012). Fique com esta última, cheia punch: 

Por fim, destaco a releitura do grupo carioca Do Amor, no tributo Re-trato. Uma versão inusitada e carnavalesca. Vale a pena escutar: 

 

2 comentários

  1. Ai, confesso que nunca dei uma chance verdadeira ao Los Hermanos…. posso citar umas 5 musicas (com certeza nenhuma delas é “Anna Julia”- que aliás fez minha infancia bem irritante se vc considerar q minha amiga inseparável da época era uma Ana 🙄) e só! Seria esse um post capaz de me fazer ir atrás desses álbuns? Hahha vou confiar em vc, meu amigo, vou confiar!

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  2. Ouvi algumas vezes achando-o insonso,depois peguei o fio da meada e adorei,vale a pena conhecer Los Hermanos.

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