67. Jorge Ben: “O Homem Da Gravata Florida”

Lá vem o homem da gravata florida
Meu deus do céu… que gravata mais linda
Que gravata sensacional
Olha os detalhes da gravata…
Que combinação de cores
Que perfeição tropical
Olha que rosa lindo
Azul turquesa se desfolhando
Sob os singelos cravos


Jorge Ben Jor, quando era ainda apenas Jorge Ben, já era um caso a ser estudado. E hoje, então, mais ainda. Tanto que Alam do Nascimento o fez, com sua dissertação “Para animar a festa” a musica de Jorge Ben Jor (2008. 136 p. Dissertação (Mestrado em Música) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2008). O autor assim se refere ao álbum que abriga a canção de hoje:

A Tábua de Esmeralda, gravado em 1974 pela Philips, atingiu o primeiro lugar nas paradas de sucesso e nas pesquisas de vendagens de disco, feitas pelo IBOPE, no mês de agosto de 74 na cidade do Rio de Janeiro. Este disco, mesmo gravado antes de África Brasil, já apresenta uma notável influência da soul music, e em duas faixas – “O Homem da Gravata Florida” e “Brother” – ouve-se uma guitarra elétrica, não tocada por Jorge, que faz levada de funk e sola com fraseado que lembra o blues. Nos temas das letras observam-se, entre outros, a temática lírico-amorosa, a alquimia – “Os Alquimistas Estão Chegando”, tratados herméticos de filosofia – “Hermes Trismegisto” – e a chegada do líder negro Zumbi dos Palmares (p. 42).

Mas infelizmente é impossível resumir A tábua de esmeralda em tão poucas linhas. Dá pra dizer, apenas, que se trata de um dos melhores álbuns da canção popular mundial, sem exageros. Uma verdadeira alquimia musical, capaz de converter os sons brutos, rudimentares e agrestes do Brasil(-África) modal, em uma das mais notáveis conjunções entre o ritmo ao violão (com uma mão direita que vale ouro, como diz “Do Ben”, canção do Skank gravada no seu álbum de 1998, Siderado) e o canto, ora mais anasalado, ora mais malandro, mas sempre imprevisível.

A tábua de esmeralda é um disco conceitual, tematizando a alquimia – e com o devido respeito que só seria possível a um iniciado. Não a banaliza, nem a idealiza: apenas diz o que ela é sem, em absoluto, dizer qualquer coisa sobre ela. Sabe-se apenas que é praticada pelos alquimistas – químicos magos – “discretos e silenciosos”. E, entre uma menção ou outra a personagens, aparentemente, estranhos ao universo alquímico – como o próprio Zumbi dos Palmares, na faixa que leva seu nome, ou o suiço Erich von Däniken, escritor de Eram os deuses astronautas, citado em “Errare Humanum Est” – aparecerão, esparsamente, três grandes nomes dessa (suprema) arte. O mais óbvio é Hermes Trismegisto (três vezes grande), possível avatar do deus egípcio Toth, que teria registrado o significado da alquimia “Com uma ponta de diamante / Em uma lâmina de esmeralda” (na fantástica “Hermes Trismegisto E A Sua Celeste Tábua De Esmeralda”). Menos explícita é a menção a Nicolas Flamel, o famoso alquimista, que é “O Namorado Da Viúva”. Mas o primeiro a ser citado, ainda no lado-A, é Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, aquele que está além do médico Celso – o Paracelso, ninguém menos que o “O Homem Da Gravata Florida”.

A respeito disso, é interessante observar como esta canção, de que vou falar hoje, possui dois títulos, dependendo de sua fonte de consulta. No encarte da versão em LP que orgulhosamente ostento em meu escritório caseiro (e no selo do bolachão), nada de novo:

o-homem-da-gravata-florida.jpg

Mas quem prestou atenção à contracapa do vinilzão, descobriu o título alternativo:

a-gravata-florida-de-paracelso.jpg

Assim, “O Homem Da Gravata Florida” é também “A Gravata Florida De Paracelso”, eliminando qualquer dúvida sobre a identidade do engravatado.

Mas quem foi Paracelso, afinal? Nas aulas de História da Química, lemos alguns textos sobre esse curiosíssimo personagem renascentista. Nascido na Suiça, praticava a medicina, à época, ainda presa à doutrina hipocrática humoral, mas ousando desafiar o saber tradicional a partir de ferramentas teórico-práticas do contexto alquímico. Influenciado por concepções alquímicas árabes, pensou a matéria como constituída por três princípios, o feminino (mercúrio), o masculino (enxofre) e o princípio neutro, que permitiria a comunhão dos opostos (o sal). Mais ainda, entendeu que a atividade farmacológica estaria relacionada à composição da matéria que constituísse o medicamento receitado, uma concepção banal na atualidade, mas revolucionária nos tempos de Paracelso. Por isso ele é considerado o pai da iatroquímica, a química terapêutica. Além de tudo, o alquimista suiço foi também um personagem polêmico, notável por sua impulsividade e suas “surtadas”. Existe um livrinho divertido, mas bastante impreciso (e incorreto) em termos historiográficos, com o pretensioso título O sonho de Mendeleiev: a verdadeira história da química (de Paul Strathern, publicado pela Zahar em 2002), que traz um capítulo sobre Paracelso, de que vale a pena lermos alguns excertos. Por exemplo, sobre sua personalidade, é transcrito um relato do discípulo Oporinus:

Sua cozinha chamejava com fogo constante; seu álcali, oleum sublimati, rex praecipitae, óleo de arsênio, crocus martis, ou seu miraculoso opodeldoque, ou Deus sabe que concocção. Certa feita quase me matou. Disse-me para olhar a solução alcoólica em seu alambique e empurrou meu nariz para junto dele de tal modo que a fumaça me entrou pela boca e o nariz. Desmaiei com o vapor virulento… Ele se gabava de ser capaz de profetizar grandes coisas e conhecer grandes segredos e mistérios. Assim, nunca ousei bisbilhotar seus assuntos, pois me sentia apavorado (p. 78).

Mais importante é um longo parágrafo que aparece algumas páginas antes, e que transmite uma ideia mais precisa sobre a importância desse personagem para a história da alquimia (e da química):

[…] Paracelso perambulou pelas estradas reais e vicinais da Europa. Às vezes ganhava seu sustento como cirurgião militar, às vezes clinicava como médico itinerante. Ocasionalmente, era chamado para atender um nobre enfermo e era ricamente recompensado por seu incômodo; outras vezes era reduzido a mascatear remédios caseiros na praça do mercado. Desse modo viajou até a Holanda, a Escócia, depois foi à Rússia e chegou até Constantinopla. Nunca temendo embelezar a verdade, afirmou ter viajado até mais longe ainda, ao Egito, à Terra Santa e à Pérsia. Mais tarde, porém, num momento pouco característico de modéstia, admitiu: “Não visitei nem a Ásia nem a África, embora isso tenha sido relatado.” E onde quer que fosse adquiria conhecimento local – especialmente de compostos químicos e seus efeitos, remédios de velhas comadres, práticas alquímicas. E onde quer que fosse as pessoas se lembravam dele. Segundo um contemporâneo: “Ele vivia como um porco e parecia um pastor de carneiros. Encontrava seu maior prazer na companhia da ralé mais dissoluta e passava a maior parte do seu tempo bêbado.” Mas outros que o conheceram ficaram tão impressionados que o chamaram “o Hermes alemão”, “nobre e amado príncipe da sabedoria”, “o rei de todo conhecimento”. Paracelso iria sempre inspirar essas reações contraditórias e, curiosamente, seus ensinamentos refletem isso. A figura rude, orgulhosa, era indubitavelmente a de um charlatão; mas seu legado de idéias científicas, embora por vezes inarticuladas e com freqüência não originais, apontou o caminho para o futuro. Aqueles foram os primeiros passos do atoleiro da Idade Média para o solo firme do método científico. Talvez o homem fosse necessário para a obra (p. 69).

paracelso.jpg
Paracelso aos 47 anos.

E a canção propriamente dita?

Pablo da Costa e Silva, para a série O Livro do Disco da editora Cobogó, com um título dedicado ao A tábua de esmeralda, reserva um capítulo a “Paracelso e a perfeição tropical”, que é assim iniciado:

“O homem da gravata florida” […] é uma das canções mais desconcertantes de Jorge Ben. Estranha e misteriosa mesmo para os padrões já bastante ecléticos do repertório de A tábua de esmeralda, traz uma letra com um dos personagens mais curiosos da música brasileira, criando a partir dele uma pequena narrativa de caráter surreal. Tudo na canção para concorrer para uma sensação de deslocamento e nonsense. Não há nada que se pareça com ela. Jorge Ben a compôs em homenagem ao famoso Paracelso […], descrito pelo místico e escritor Mainly Hall como “príncipe dos alquimistas e filósofos herméticos, possuidor verdadeiro do Segredo Real (a Pedra Filosofal e o Elixir da Vida)” […]. Sugiro que essa canção constitui uma espécie de alegoria benjoriana, na qual ressoam não apenas questões centrais de sua poética e de sua visão de mundo, mas também alguns ecos ou estilhaços das doutrinas do próprio Paracelso. Em outras palavras, talvez seja possível flagrar nas imagens cantadas e nos encadeamentos dos raciocínios que a canção propõe alguns pontos de contato com elementos que remontam à sensibilidade medieval do “homem da gravata florida”. Como no próprio processo alquímico do amálgama […], Jorge Ben pode ter incorporado em sua poética – por estudo, afinidade ou mera casualidade -, alguns traços da filosofia e mesmo da cosmovisão contidas nos escritos de Paracelso. Uma vez incorporados, esses traços passam a conviver com o conjunto de interesses do artista (p. 57-58).

Só não transcrevo mais passagens para instigar o leitor a adquirir o livro em questão, um dos melhores da O Livro do Disco. Mas entrará nessa prosa muita coisa importante: a relação de Jorge Ben com o modalismo, a homologação entre o “homem-he-he-he-he-he-hem” e o “cé-hé-hé-hé-hé-hé-hé-hé-héu” e a importância do aspecto cósmico em A tábua de esmeralda. Chamo a atenção, apenas, para uma frase curta do autor: após as relações de homologia, “o foco da canção passa a se concentrar no misterioso objeto” (p. 66, grifo meu), a própria gravata. Ora, segundo Mircea Eliadeestudioso dos mitos, para um alquimista, um objeto nunca é só um objeto…

jorge-ben.jpg
Jorge Ben vive num mundo modal. Um mundo infantil, pré-tudo. Mundo de encantos e encantamentos. Opera nas palavras e na música como um mago ou alquimista opera na matéria.

Para entender os mistérios de “O Homem Da Gravata Florida”, só entregando-se à escuta cuidadosa desse (en)canto.


Temos muitas versões para a canção de hoje, todas interessantes.

Uma de minhas favoritas é a dos Los Sebosos Postizos – alter ego da Nação Zumbi – no excelente disco-tributo Los Sebosos Postizos Interpretam Jorge Ben Jor (2012):

Já Valeria Sattamini, em Samba blim (2014), propõe uma releitura cheia de balanço. O timbre gostoso da moça também facilita bastante o trabalho:

A banda “internacional” Zuco 103 também cantou a canção para Paracelso, numa versão toda estilosa, com órgãos insanos e quase atordoantes, além de uma ponte inacreditável para os versos enxertados: “Tem margarida / Tem brinco de princesa / Rosas, jóias, cores, cores!”. Que psicodelia! Pire:

Por fim, há uma versão especialíssima do Cidade Negra, cantando com o próprio Jorge, em seu disco-auto-tributo Musicas para tocar em elevador (1997). Aqui, o homem da gravata florida resolve se envolver com Jah e volta piradaço para um reggae. Surpreendentemente bom:


E se você acredita em magia, alquimia, mistérios antigos, numerologia, sincronicidades, etc., ouça mais uma historieta. Eu acabava de concluir este post quando a Cristiane me enviou o seguinte flagra de um ser mágico (como acreditavam os antigos egípcios), trajado como um legítimo alquimista da Tábua de esmeralda… fique com Abelardo e sua gravata, se não florida, ao menos colorida:

o-gato-da-gravata-colorida.jpg
Lá vem o gato… da gravata colorida!

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