68. Zizi Possi: “Asa Morena”

Me faz pequena
Asa Morena
Me alivia a dor
Aliviando a dor que mata
Me faz ser teu amor
Me toma no crescer
De um beijo muito louco
Me implodindo aos poucos
No universo a desvendar
A vastidão do teu amor


No início de 2016, amargava uma solitária tarde de sábado em Santo André quando recebi a visita de um casal muito especial: meus amigos, irmãos e companheiros de jornada, Liliane e Daniel “Scooby”. Os dois moravam em Campinas, à época, estavam noivos e vieram pessoalmente me fazer um convite irrecusável: eu seria padrinho de casamento!

Além da felicidade transmitida pelo convite, aquela tarde foi especialmente alegre. Curtimos algumas horinhas de samba e cerveja (sem álcool, porque eu estava abstêmio e o Scooby era o motorista da rodada… de fato, não lembro se a Lili fez o sacrifício de nos acompanhar ou se preferiu uma caipirinha) perto de casa e, logo, teríamos que partir. Eu iria para São Carlos fazer uma rápida visita à família; os dois retornariam a Campinas.

Para encutar minha viagem, a Lili sugeriu que fosse junto com eles para Campinas de carro, tomando um ônibus de lá para São Carlos. Pareceu uma ótima ideia, e lá fomos nós. O horário estava mais ou menos justo mas, segundo nossos cálculos, seria possível chegar sem atrasos.

A certa altura da Bandeirantes, uma entradinha errada e… tivemos que andar até um retorno, o que prolongou a viagem, pelo menos, em 20 km. Resultado: ao chegar a Campinas, tocamos para a rodoviária no limite da velocidade (e da prudência), perfazendo um verdadeiro rally campineiro.

Chegando ao terminal rodoviário, desci do carro correndo, mal tendo tempo de abraçar meus amigos e agradecer pela aventura. Na plataforma, o ônibus já estava de motores ligados e pronto para partir.

Hoje damos risadas dessa estória, mas a verdade é que, ainda na Bandeirantes, entre uma conversa e outra sobre golpe, eleições de 2018 (pareciam tão longe!) e universidade, estávamos, isso sim, bastante tensos!

A programação da rádio, por outro lado, parecia captar nossa preocupação, e apresentou uma playlist de canções plácidas, serenas, calmantes. Uma delas foi “Asa Morena”, cantada por Zizi Possi e tema do post de hoje. Lembro da Lili saudando a Zizi:

– Essa música é bonita! – e aumentou o volume do aparelho.


“Asa Morena” abre o disco de mesmo nome da cantora paulistana, lançado em 1982. Seu autor é um riograndense chamado Zé Caradípia que, em seu Facebook, reproduz o texto de Isaac Souza, que destrincha o emaranhado de imagens expostas na letra:

Esta canção é tão perfeita neste aspecto que o seu sentido parece ser mesmo independente do significado das palavras. A Asa Morena pode muito bem ser branca ou negra, ou nem mesmo existir, ou ser alguém ainda por vir – a alma é levada não a entender uma história contada, mas a sentir como se já a tivesse vivido, mesmo sem saber de que fatos ela é feita, e agora se abandona a uma doce e melancólica saudade. Aquele quê mal definido que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não por que, de que falou Camões, ele pulsa nos versos desta canção. Sua harmonia cheia de acordes diminutos, dominâncias e resoluções deceptivas traz aos nervos a impressão de que algo em nossa vida está incompleto, a ruptura natural de nosso coração é sublimada, o sangue se aquece e corre veloz pelas artérias que se apaixonam pelo fato de se descobrirem capazes de amar.

Não há nada mais cândido do que o pedido contido na primeira frase da canção: ” Me faz pequena asa morena”. Esse desejo de ser pequeno, essa coragem de se entregar que, em vez de diminuir, liberta; essa decisão irrevogável de pertencer inteiramente: ser pequena, mas ser capaz de voar. Ela se entrega, mas ela se completa quando o sul e o norte do seu corpo (e corpo é alma) se unem, tomados num gesto forte que revela a mais pura emoção. Quem não se sente implodido por esta erupção de sensações que não tem nome nem destino?
É disso que são feitos os sonhos, e é disso que se faz a arte. Um jeito tão sub-reptício de falar, uma sutileza extrema que corta como lâmina de diamante e separa juntas e medulas, alma e espírito. Nessa maravilha, as palavras e as notas se tocam e se prendem, um amálgama eterno. E, amalgamadas, elas deslizam pela nossa carne até atingir o coração que é contaminado por sua beleza, torna-se dependente dela, jamais será feliz sem ela outra vez. E, “aliviando a dor que mata, me faz ser teu amor”.

O texto consegue ser quase tão magnífico quanto a canção! Depois, o Blog do Renato Menezes publicou a reação do próprio Zé Caradípia ao texto de Isaac:

Olá, Isaac.
Buscando pelo significado de Asa Morena no Google, para variar, cheguei ao teu blog. Sim, sou gaúcho e compus Asa Morena há exatos 30 anos na casa de minha mãe em Viamão, RS, depois de assistir ao mestre Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, numa entrevista para um jornal de meio-dia. Logo veio-me a idéia, assim, tranquila de… por que não compor uma asa morena? E foi assim que nasceu esta canção que tão bem soubeste explicitar à luz de um conhecimento muito especial que possuis. Fiquei aqui lendo feliz e emocionado a um texto que desconhecia sobre uma de minhas mais apreciadas e conhecidas músicas. Parabéns pelo texto que de maneira apaixonada e desprendida expuseste a mim e a tantos outros personagens webmaníacos que, certamente, raramente se deparam com tal profundidade e clareza de visão sobre uma obra de arte um tanto abstrata, mas bastante possível de ser vivida e experienciada por músicos como você. Forte abraço!

Pois “Asa Morena” é tudo isso de que falam Isaac e o próprio autor, na voz com o límpido timbre de mezzo-soprano de Zizi. Uma espécie de xote abstrato, uma resposta “pela tangente” à “Asa Branca” – que é literalmente solar. “Asa Morena”, sua contrapartida lunar, teria que ser, necessariamente, fugidia, metafísica… e, ainda assim, carnal, sedutora, misteriosa.

zizi-possi.jpg
Zizi Possi, respondendo à “Asa Branca” com uma envolvente “Asa Morena”.

Num revival do programa Globo de ouro, clássico dos anos 1980, Zizi reapresenta “Asa Morena” ao vivo, numa versão belíssima, adornada por um naipe de metais. O arranjo é fiel ao original, reproduzindo até o curto, mas marcante, solo de guitarra – tocada pelo Kiko do Roupa Nova, no disco de 1982. Zizi é um fenômeno: além de linda, encantadora e dona de uma técnica vocal inigualável, tem um incrível controle do palco. Preste atenção à leveza dos gestos da intérprete, que realçam os pontos mais marcantes da letra – coisa de quem tem formação em teatro, outro trunfo dessa maravilhosa cantora:

Gosto muito de assistir também ao seguinte registro, de uma homenagem à Zizi no Projeto Notas Contemporâneas, em 2014, no Museu da Imagem e Som (São Paulo). “Asa Morena” é entoada pela cantora Débora Reis e Zizi, de início, apenas assiste sentada. Mas logo é convidada a participar, roubando a cena. Que presença! Veja:

6 comentários

    1. Ué, achei que seria a Didi quem comentaria!
      De toda forma, você tem talento com as palavras! Você bem que podia fazer o blog 365 canções brasileiras 2020, que tal?
      Abração, irmãozinho.

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  1. Demorei mas cheguei! Ah que post maravilhoso, li com sorriso no rosto! A música é linda, Zizi excepcional e a lembrança desse dia um mix que saudade e risada com todo o acontecido! Grande abraço!

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  2. ”Asa Morena” é uma das campeãs em flasback e Karaokês da vida – Nunca imaginei que a canção tivesse alguma relação com ”Asa Branca”.

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