69. Raimundos: “Sereia Da Pedreira”

É dose vê-la pelada e não fazer nada, é dose
Menina, pare com isso antes que eu goze
Porra, que diabo que eu não faço por um irmão
Tentação é ver ela molhadinha na minha frente
Fico imaginando seu rabo quente
Me dizendo: “Sim! Vem que hoje eu sou só pra você”
Ilusão é nesse mundo querer ser dono de alguém
Minha sereia linda, eu só te quero bem
E se você me quiser, vem que tem


Confesso que demorei a engrenar nas “raimundeiras”. Escutava tocar alguma coisa na rádio, logo que foi lançado o debut da banda, Raimundos (1994). Lembro também de cantar, com os coleguinhas de 4ª série, voltando da escola para casa, “Selim” – deixando os idosos da pacata Vila Prado horrorizados, pois éramos um bando de pivetes sonhando em ser “o banquinho da bicicleta / Pra ficar bem no meio das pernas / E sentir o seu ânus suar”.

Mas quando comecei a adquirir (e, sobretudo, a escutar, emprestar e gravar) álbuns, apesar de nutrir minhas simpatias pelas bandas dos anos 1990 (as dos anos 1980 sempre foram as preferidas), não conseguia engolir o quarteto de Brasília. Tanto que, quando Rodolfo Abrantes se desligou do conjunto, não me comovi.

Foi apenas por volta de 2008 que comecei a ceder, dando uma chance aos rapazes com a audição do elogiadíssimo Raimundos – que, em 1999, fora eleito o disco nacional da década, pela revista Showbizz. E, de fato, escutando com a mente aberta, sem preconceitos, acabei me viciando nesse discaço, com clássicos como “Puteiro Em João Pessoa”, “Nega Jurema” e “Cintura Fina” (a favorita).

A partir daí, a banda me interessou mais e mais. Embora seu terceiro lançamento, Lapadas do povo (1997), não tenha me empolgado tanto (provavelmente, pela nordestinidade escassa, em comparação com a estreia), cheguei a escutar bastante o segundo álbum, Lavô, tá novo (1995), onde está a canção de hoje, “Sereia Da Pedreira”.

“Sereia Da Pedreira” é um hardcore simples e direto, e vou tentar convencer o leitor de sua pertinência em nossa seleção.


Primeiro, observa-se que a canção foi composta integralmente por Rodolfo, sendo que a dicção da voz enunciadora, se assim podemos nos referir a ela, parece reunir muitas características do próprio cancionista. Conclui-se, então, que “Sereia…” é uma obra confissional, em que o autor se identifica com o personagem que narra.

E quais são essas características? Em primeiro lugar, salta aos olhos o tom luxurioso com que o enunciador se refere ao encontro com seu objeto de desejo, uma mulher. Encontro, na verdade, que jamais chega a se consumar, desde uma única experiência de junção amorosa: a personagem feminina vive de provocar o eu-lírico, provavelmente sem perceber que o faz. Este, por outro lado, não esconde de si seu desejo de possui-la… mas, curiosamente, não o revela para a garota amada. Assim, todos os intentos de nova conjunção são apenas verbalizados no diálogo interno do personagem, sem que nenhuma ação seja tomada em direção à conversão do /querer/ no /ser/.

O mais interessante é que, assim, é possível observar que a lascívia de versos como “Menina, pare com isso antes que eu goze” (que rima rica e genialmente com o “dose” do verso anterior) é refreada por um desejo mais nobre: um amor verdadeiro.

O personagem é mais forte do que parece: doma completamente o desejo carnal (sem exintigui-lo ou sublimá-lo, o que seriam saídas até mais óbvias e fáceis), demonstrando um zelo admirável pela pesoa desejada, ainda mais considerando o contexto embrutecedor em que o personagem deve ter se criado. Um contexto em que as únicas referências culturais são as duplas sertanejas dos anos 1990 – de onde ele encontra a inspiração para nomear seus filhos, fruto de outro encontro, num passado não vasculhado pela canção.

O enunciador é, portanto, benevolente: conquistar a mulher desejada, à força, seria rebaixar-se (“Se eu fosse um cara amargo, arrombava esse cu doce”). Prefere, por outro lado, deixar-se levar pelo mencionado /querer/, expresso na noção de “sonho”: “Mil sonhos na bagagem são tudo que trouxe / […] Ontem sonhei com você”. E além do sonho, outros elementos sublimes se insinuam nesse (des)encontro afetivo: a moça é romanticamente descrita como a “sereia linda” (e repare no uso do condicional: “Minha sereia linda, eu só te quero bem / E se você me quiser, vem que tem”) de quem o enunciador sente a “saudade” (“Minha sereia da pedreira, eu fico com tanta saudade de você”) que o motiva, então, a orar (“Por que eu rezo pra você a noite inteira”).

Alguém que consegue apaziguar o comportamento libidinoso de um bruto, caba macho nordestino, despertando-lhe sentimentos elevados, altruístas e até espirituais, só pode ser como uma sereia que floresce justamente na pedreira.

Dispor o besteirol dos Raimundos, num blog que já tematizou tanta gente “finíssima” da MPB, poderia até soar como bravata. Mas juro que não é, e espero que o leitor tenha se convencido disso, com a argumentação acima.

raimundos.jpg
Canisso, Fred, Rodolfo e Digão: a formação clássica dos Raimundos provando que os brutos também amam.

“Sereia Da Pedreira” foi tocada na apresentação para o programa Balada MTV, em 2000, que penso que poderia ter até virado um álbum ou ao menos um EP. O projeto inicial do programa era intercalar uma apresentação “suave” de seus convidados (tocando, assim, baladas, em formações que privilegiassem arranjos acústicos) com algumas perguntas da apresentadora (Sabrina Parlatore) e da plateia. Nesse especial, a canção recebeu um arranjo ska, que lhe caiu muito bem:

Logo depois, a obra comporia um dos discos do duplo MTV Ao Vivo (2000), com boa pegada, mas o mesmo arranjo de Lavô, tá novo:

Já em sua atual formação, com Digão nos vocais, a banda lançou um disco Acústico, em que “Sereia Da Pedreira” reaparece com o arranjo ska – incrementadíssima, com muitos violões, backing vocals e um órgão. Bem legal:

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