70. Nei Lisboa: “Carecas Da Jamaica”

Se me derem um pedaço de plutônio
Minha turma se encarrega de explodir
A pobreza das idéias dessa gente
Que comanda o shopping-center do país
Cada vez que a corja fala de cultura
Glauber quer quebrar a tampa do caixão
Cada povo tem o novo que merece
E o Menudo vem com tudo e com razão


Os Engenheiros do Hawaii foram criados por alguns estudantes do curso de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para agitar um período de greve na instituição. A ideia era que tocassem em apenas uma única apresentação, que aconteceu enquanto os olhos do país se voltavam para a primeira edição do Rock in Rio.

A banda acabou engrenando e, antes que seus membros percebessem, já havia adquirido certa fama no circuito riograndense que envolvia, além da capital Porto Alegre, diversas cidades do interior. Então, os Engenheiros eram Humberto Gessinger (guitarra e voz), Marcelo Pitz (baixo) e Carlos Maltz (bateria).

Com um consistente repertório autoral, a banda integrou a coletânea Rock grande do sul (1985), que pôs em destaque duas de suas canções: “Sopa De Letrinhas” e “Segurança”. Não demoraria que a RCA os convidassem para gravar um LP, que seria lançado em 1986.

Longe demais das capitais apresentou o conjunto ao resto do país com o hit “Toda Forma De Poder”, e estigmatizou os gaúchos como uma espécie de “Paralamas do pampa”, já que o álbum se dividia entre petardos mais acelerados ou pesados (“Eu Ligo Pra Você”, “Todo Mundo É Uma Ilha”, “Fé Nenhuma”, “Crônica”), semi-skas (“Toda Forma De Poder”, “Sopa De Letrinhas”, “Nada A Ver”) e faixas jocosamente tachadas de “reggae de branco” (“Nossas Vidas”, “Sweet Begônia”) – concluindo uma surpreendente escala que partia da Jamaica, passava por Londres com o The Police, conhecia a brasilidade com o trio de Herbert Vianna em Brasília/Rio de Janeiro, e findava na gelada Porto Alegre.

Por outro lado, Longe demais das capitais, desde o título, também se importava em, mais do que preparar a banda para rumos mais amplos e cosmopolitas, explicitar as ligações de Gessinger e companhia com suas próprias raízes. A faixa título “Longe Demais Das Capitais”, antes de embarcar num refrão punk, era mesmo uma milonga.

Esses laços regionais se estendiam, também, para a cena conhecida como MPG – Música Popular Gaúcha, sempre mencionada como uma influência pelos Engenheiros, à época. A admiração pela MPG, confessada onde quer a banda se apresentasse, não tardaria a gerar parcerias mais ou menos perenes com alguns dos figurões dessa cena tida como antiga, retrógrada e provinciana, desprezada pelos outros conjuntos que apareciam em Rock grande do sul e, quase como uma provocação, endeusada por Gessinger e companhia.


Um dos frutos dessa aproximação entre Engenheiros e MPG foi o LP Carecas da Jamaica (1987), de Nei Lisboa. O álbum traz uma parceria entre o cantor e Gessinger (“Deixa O Bicho”), uma regravação acústica bluesy de “Toda Forma De Poder” e os próprios Engenheiros conduzindo a faixa título.

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Nei Lisboa com Humberto Gessinger: aproximação desdenhada pelo rock oitentista gaúcho.

“Carecas Da Jamaica” traz uma letra crítica aos artifícios e aos impostores da indústria cultural – por sinal, tema que seria martelado em boa parte da produção dos Engenheiros já nos anos 1990.

Há muita coisa interessante na faixa, além da letra bem sacada. O arranjo traz praticamente a fórmula dos Engenheiros em Longe demais das capitais: um revezamento esperto entre o reggae/ska e passagens mais roqueiras, guardadas para os refrães. Sobre isso, é interessante ler uma passagem do livro de Alexandre Lucchese, Infinita highway: uma carona com os Engenheiros do Hawaii (Caxias do Sul: Belas Letras, 2016), que fala sobre o clima, por vezes tenso, das gravações de Carecas da Jamaica:

Da parte de Gessinger, também havia uma desconfiança a respeito do modo como o grupo era encarado por Nei Lisboa:

– A gente era Engenheiros do Hawaii, e ele fez Carecas da Jamaica, que era meio a gente: uns carecas tocando reggae. Teoricamente, seria uma crítica, e convidar a gente para tocar era meio que uma inside joke – contextualiza Gessinger. – Se fosse uma crítica mesmo, eu acharia legal. Na época, isso nunca me ocorreu, mas pensando depois, não acho uma coisa absurda. Se a gente estava jogando o jogo da autonomia, a gente tinha que correr esse risco também. Tem uma hora que todo mundo fica corporativo pra caralho, do tipo “porra, como tu fala isso de mim?”, mas é a mesma coisa que tu tá fazendo com os outros (p. 139).

Além dessa espécie de provocação às claras, “Carecas Da Jamaica” flagra outro aspecto curioso da história da canção popular gaúcha. A formação original dos Engenheiros, com Pitz ao baixo, não resistiria à turnê de Longe demais das capitais. Para manter o trio, Gessinger assumiu o baixo e convidou um renomado guitarrista da MPG, Augusto Licks. Que então, tocava na própria banda de Nei – de modo que, em “Carecas Da Jamaica”, temos o registro de uma formação de transição entre os Engenheiros de Longe demais das capitais e dos próximos discos até 1994, com a (turbulenta) saída de Licks. Por muito tempo duvidei dessa informação, até ver a seguinte imagem do LP de Nei, postada pela Augusto Licks Fanpage:

carecas-da-jamaica

Parece evidente, também, que Licks apenas faz a guitarra-base nessa gravação, pois o solo tem exatamente a cara das (esforçadas, vai) guitarrices de Gessinger em Longe demais das capitais. Enfim, um registro histórico.

Os Engenheiros tocaram “Carecas Da Jamaica” no show de lançamento de Longe demais das capitais, antes mesmo que a faixa fosse divulgada por Nei Lisboa, e com a participação do próprio. A apresentação flagra os envolvidos ainda procurando por soluções no arranjo da canção, ainda 100% reggae:

Mais tarde, já com Licks no conjunto, a canção permaneceria no repertório ao vivo da banda, agora vertida para um vigoroso heavy metal! Existe uma versão em boa qualidade, acho que registrada no programa Chá das cinco, da Rádio Transamérica. Como não a encontrei, segue esta, gravada no Teatro Ipanema, em 1987:


Não deixe de conferir a versão do conjunto Bataclã FC, no tributo ao Nei, Baladas do Bom Fim (2015):

5 comentários

  1. Mais uma que desconhecia.A impressão que eu tenho é que você vive num universo-musical-paralelo,rs.

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    1. Eu tenho a mesma impressão quando entro no blogo do Davino! Mas acho que é essa a ideia de projetos como o nosso: compartilhar universos musicais.
      Grato pelo comentário!

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      1. Achei que essa sensação fosse só minha,que bom saber que você já sentiu a mesma coisa.

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