72. Mundo Livre S/A: “Free World”

Free World S/A
Free World S/A Band
De Rio Doce a Piedade
De Barra de Jangada até Casa Caiada
Fuleiragem
Maresia
Malandragem
Regalia
Salve Zero Quatro
Salve
Salve a música


No inverno de 2006, fiz uma boa compra de CDs usados, entre eles, uma coletânea encartada com um volume da Showbizz, trazendo duas faixas de cada uma das seguintes bandas: Blues Etílicos, Os Ostras, Maria do Relento, Acabou la Tequila e Magnéticoss. Pelo que entendi, eram todas do staff do selo Excelente Discos, subsidiária da então PolyGram.

 

cd-showbizz
Meio surrado, mas vira e mexe ainda ouço.

Boa parte desse pessoal acabou não vingando, e suas faixas adquiriram uma aura até folclórica, vide as engraçadas “Conhece O Mário?”, do Maria do Relento, “Parabéns Pra Você”, d’Os Ostras, além das inacreditáveis (e incompreensíveis) “Los Panços” e “Hóme Rico”, dos Magnéticoss.

Já o Blues Etílicos e o Mundo Livre S/A sobreviveram bem ao novo século, e hoje são meio cult.

“Free World” e “Tentando Entender As Mulheres” são as faixas da banda pernambucana, irmã da Nação Zumbi, que estão presentes na coletânea, vindo do álbum Guentando a ôia (1996). A primeira delas marcou especialmente meus dias daquele ano de Copa e eleições, e é nosso tema de hoje.


A canção começa com o característico cavaquinho de Fred 04, depois entrando os demais instrumentos. Logo que escutei pela primeira vez, pensei em duas palavras: “Jorge Ben”! A influência é explícita, tanto pelo balanço samba-rock da faixa, quanto pelos vocais, já que Fred parece emular a dicção benjoriana dos anos 1970.

A propósito da introdução, vale a pena ler o seguinte trecho da entrevista concedida pelo vocalista do Mundo Livre S/A a Filipe Luna e Ramiro Zwetsch, no portal Radiola Urbana:

O que você acha do Nelson Cavaquinho?
Um sujeito que começa uma canção com o verso do naipe de “pode sorrir pra quem você quiser” era uma alma diferenciada. E tem uma coisa muito louca, que eu fiquei até chocado quando eu comecei a mergulhar mais nesse disco. Teve um momento nesse processo que eu fiquei achando que eu poderia ser a reencarnação de Nelson Cavaquinho, porque tem uma introdução de um samba dele, “Vou Partir”, que é igual a de “Free World” […]. E eu nunca tinha ouvido. A introdução de “Free World”, eu compus lá pelos idos de 94-95 e eu já conhecia Nelson Cavaquinho, as músicas mais antológicas. Mas eu ainda não dominava muito bem as harmonias de cavaquinho e eu coloquei umas posições, uns acordes meio toscos, meio improvisados, que são idênticos aos da introdução de “Vou Partir”. É uma coisa muito louca – tanto que, pra disfarçar um pouco, no show eu vou tocar com violão, saca? O cavaquinho é exatamente igual. Ele é um gênio da harmonia. Eu vou fazer umas brincadeiras no show, tem música dele que eu vou emendar com Led Zeppelin porque ele tem harmonias que lembram muito Jimmy Page. E ele era um cara completamente autodidata. Essa oportunidade me fez ter uma noção mais completa do que representa pra música brasileira o legado de Nelson Cavaquinho.

Releve o fato de que Fred nasceu em 1965, e Nelson morreu em 1986 – inviabilizando a hipótese reincarnatória! Mas veja que a introdução de “Free World” de fato é idêntica à de “Vou Partir”. Compare:

Quanto à letra, reproduzida integralmente na epígrafe do post, temos apenas uma espécie de saudação da banda a si própria, às suas raízes e a seu entorno – daí a referência às linhas de ônibus de Recife (“De Rio Doce a Piedade / De Barra de Jangada até Casa Caiada”).

Enfim, uma canção simples, mas cheia de balanço e euforia – mostrando que o manguebeat tinha facetas muito além de suas contundentes (e sempre necessárias) críticas sociais.

mundo-livre-sa
O Mundo Livre S/A, com Fred 04 ao centro e Otto à sua direita, antes de partir para a carreira solo. Ao lado da Nação Zumbi, aqueles que encarnaram o último grande movimento revolucionário da canção popular brasileira.

Em 2007, durante a gestão que integrei do Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (CAASO), tivemos a ideia de organizar um show grande em São Carlos, trazendo alguma banda importante para fazer a abertura não oficial da 3ª edição do Movimento Artístico e Cultural do CAASO. O show acabou acontecendo dia 31 de agosto e foi um enorme fracasso de público, já que, ao final do mês, ninguém pareceria querer gastar uns trocados para assistir a uma das mais importantes bandas nacionais lançadas no fim do século XX.

Abaixo, veja a arte bacana que nosso secretário de comunicação, o Ulisses Falaguasta, criou para a divulgação do espetáculo:

cartaz-show-mundo-livre

De qualquer forma, quem compareceu curtiu, já que não havia empurra-empurra, nem filas para comprar bebida. Eu também adorei, apesar da equivocada decisão de trazer o Mundo Livre naquela data – mas isso só descobrimos ao fazer o balanço da noite.

E guardo duas recordações daquele momento: primeiro, que eu estava no camarim junto de nosso diretor cultural, o Gabriel Fedel, exatamente atrás do palco, quando a banda abriu o espetáculo com… “Free World”, justamente minha favorita. Atrás do palco há uma janela de vidro, pela qual assistimos a boa parte do espetáculo. Nosso colega Henrique “Erea” Ferraz, que à época cursava Arquitetura e Urbanismo, gravou todo o show, como uma espécie de documentário, e postou no YouTube. A gravação em vídeo não conseguiu filmar a janela de vidro, mas juro que ela existe, e que eu estava lá:

Outra recordação é da conversa pós-show, com o próprio Fred 04 e o diretor social, nosso parsa Diego “Bereba” Ferreira, também no camarim atrás do palco. Para mim, foi um encontro marcante mas, provavelmente, para o Fred não: em 2012, retornando a São Carlos para tocar no Festival Contato, o vocalista saudou a plateia, dizendo-se orgulhoso por estar pela primeira vez na cidade!


No DVD Mangue bit ao vivo, a banda relê “Free World” numa versão fiel à original, mas com detalhes que a tornam definitiva:

2 comentários

  1. Fazer show pra pouca gente deve ser o Ó,mas parece que não tinha tão pouca gente assim – Quanto à ”hipótese-reencarnatória”,há quem confunde reencarnação com encosto,no caso dele só se for,rs.

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