73. Maria Bethânia: “Encanteria”

Eu desci da lua cheia
Pelo raio que alumia
Eu cheguei na sua aldeia
Pra fazer encanteria
Eu vim ver minha maninha
Dona do fundo do mar
Ela canta de noitinha
De manhã dorme a cantar
Moço, apague essa candeia
Deixa tudo aqui no breu
Quero nada que clareia
Quem clareia aqui sou eu


Conheci Maria Bethânia por volta dos 11 anos, quando ganhei de minha avó um CD com sucessos da música brasileira. Ali, havia duas faixas da irmã de Caetano Veloso – o que só fui descobrir bem depois, pois não conversava com ninguém, nem com meus pais, sobre aquele disquinho. As canções eram “Negue” e “Grito De Alerta”.

Com o passar do tempo, fui escutando outras obras aqui e ali, embora tenha sofrido com o preconceito introjetado, cortesia de minha mãe, que considera Bethânia “insuportável”.

Que heresia! Tenho tentado, em vão, convencê-la a abrir a mente, os ouvidos e o coração, como eu mesmo fiz (a muito custo, é verdade). Mas a teimosia é um dos maiores patrimônios genéticos de nossa família, e a batalha há de ser árdua.


“Encanteria” é mais uma canção de Paulo César Pinheiro, presente no álbum de mesmo nome da cantora baiana, lançado em 2009. O arranjo faz do tema uma espécie de samba de roda e é primoroso, contando com a participação de mais de dez músicos. Veja a ficha técnica registrada no indispensável Discos do Brasil:

encanteria.jpg

Destaque para as participações de Luciana Rabello, a renomada cavaquinista e esposa do compositor, na produção; e da filha do casal, Ana Rabello Pinheiro, tocando cavaquinho.

A harmonia é simples e traz movimentos que reforçam o caráter às vezes imperativo (“Moço, apague essa candeia / Deixa tudo aqui no breu / Quero nada que clareia / Quem clareia aqui sou eu”), às vezes asseverativo (“De qualquer maneira eu deixo / Nessa casa, minha luz, / Abro ponto e ponto fecho / Deixo o resto com Jesus”) dos versos de Paulinho.

Como em demais canções de Encanteria, temos nessa faixa o relato de uma tradição brasileira: uma sessão mediúnica num terreiro – ou mais apropriadamente, uma “virada no santo”. Curiosamente, ao contrário de outras canções com a mesma temática, aparece o ponto de vista da própria entidade, que vem ao socorro de quem lhe chama: “Vim depressa como o vento / Mas não sei porque é que eu vim / Foi num canto de lamento / Que alguém chamou por mim”.

É interessante como o sincretismo da umbanda é incorporado com naturalidade pela fala da própria entidade – coisa que se observa muito facilmente nas casas de santo por aí. Ao mesmo tempo em que se refere aos orixás que presidem sua linha de atuação (o “rei”, que só pode ser Xangô, e a “Dona do fundo do mar”, obviamente, Iemanjá), não deixa de convocar um símbolo forte da tradição católica, o próprio Jesus Cristo.

maria-bethania
Maria Bethânia, interpretando Paulo César Pinheiro e dando voz às tradições dos quintais e terreiros de nosso Brasil.

“Encanteria” é uma canção simples, como outras de Paulinho, mas que traz um testemunho valioso do que é a própria nação brasileira.


Existe uma versão ao vivo de “Encanteria”, no disco Amor festa devoção (2010). Ou melhor, duas versões: uma encerrando um pot-pourri no primeiro ato do show, e outra encerrando o segundo ato. Fique com a última:

A canção, na verdade, foi revelada pela cantora Gloria Bomfim – de quem falarei em breve, neste blog. A faixa integra o registro de Santo e orixá (2007), um belíssimo disco de afro-sambas da lavra de Paulo César Pinheiro, lançado pela Acari Records. Mais tarde, o álbum foi reeditado como Anel de aço (2011) pela Biscoito Fino. A interpretação de Gloria não traz as extravagâncias do canto de Maria Bethânia, que se permite atrasar alguns tempos para “acumular” versos e despejá-los de uma vez, aumentando a potência da mensagem transmitida. Mesmo assim, é um belo registro, que literalmente dá voz a quem participou de muitas encanterias pelo solo da Bahia:

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